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LUTO NO ESPORTE

'Mestre' Cilinho morre aos 80 anos

Ex-técnico parou com o futebol em 2012 e teve complicações após sofrer dois AVCs


    • São José do Rio Preto
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Responsável pela última glória do futebol profissional do América, o ex-técnico Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho, será sepultado nesta sexta-feira, em Campinas. Acamado e com necessidades de cuidados médicos desde julho do ano passado, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), Cilinho faleceu na tarde da quinta-feira, 28, em sua casa, em um condomínio em Sousas, distrito de Campinas, aos 80 anos de idade.

Em 2018 ficou internado na UTI do Hospital da PUC de 15 de abril até 1º de julho e ficou com sequelas. "Muito nos ajudou, que vá com Deus", disse Pedro Batista, presidente do conselho deliberativo do Rubro, que era mandatário do clube em 1999, quando o clube foi campeão da Série A-2 do Paulista sob seu comando. O atual presidente, Luiz Donizete Prieto, o Italiano, decretou luto de três dias.

A campanha do América naquela edição do Paulista A-2 foi irretocável, com 16 vitórias, 13 empates e apenas uma derrota - 1 a 0 para o Santo André no quadrangular final. O título veio com dois empates diante da Ponte Preta por ter feito a melhor campanha - 59 pontos contra 55 da Macaca.

O Rubro ainda tem a "Taça dos Invictos" do jornal. A Gazeta Esportiva por ter permanecido 26 jogos sem derrotas. Empatou por 0 a 0 em Campinas e em 1 a 1 no Teixeirão, com gol do zagueiro Zambiasi aos 36 minutos da etapa final.

Cilinho deixa a esposa Priscila, a filha Cristiane e a neta Yasmin. O local do velório e o horário e local do sepultamento só seria definido na noite desta quinta pela família.

Esportistas e amigos de Cilinho lamentaram a perda do treinador que marcou época no São Paulo no final da década de 1980, com os famosos 'Menudos do Morumbi', que trazia um futebol envolvente e agressivo, com Muller, Silas, Careca e Sidney, e sagrou-se campeão do Paulistão em 1985 e 1987. Chegou a negociar para assumir a Seleção Brasileira, mas depois de oito reuniões não chegou a um acordo e foi dirigir a Ponte Preta, onde fez 345 partidas desde o final dos anos 1960, sendo vice-campeão paulista em 1970.

"Partiu o mestre dos mestres, 90% do que sei devo a ele", disse o rio-pretense Ricardo Moraes, hoje treinador do Barretos e que foi seu auxiliar.

No América, o treinador trouxe novidades e trabalhos curiosos para estimular os jogadores a pensar. Aquecimento com viseira para não ver a bola nos pés, técnico com bola de futebol americano, aula de axé, desafio de damas, cama elástica, além de fazer no Teixeirão a primeira biblioteca de vestiário do Brasil, ganhando destaque na imprensa nacional. Estimulava a cultura a seus atletas também com sessões de cinema e idas ao teatro. "O Cilinho é uma referência, era diferenciado, treinávamos com bola de tênis, de futebol americano", disse Sérgio Guedes, hoje treinador e goleiro, capitão na conquista de 1999.

Cilinho também foi técnico do Corinthians na década de 1990, e comandou clubes como Guarani, Portuguesa, Sport, Santos, Bragantino, XV de Jaú e Rio Branco de Americana, seu último, em 2012. Desde que se afastou do mundo do futebol era avesso a entrevistas e a falar do esporte.

O ex-jogador Marcinho, campeão com Cilinho em 99 pelo América, tinha 19 anos quando o treinador o subiu para o profissional. "A gente fica triste, foi quem me lançou pro futebol. Tenho um carinho muito grande por ele. Que Deus o tenha, sentimentos à família", disse Marcinho. "Era um excelente treinador, lançou vários jogadores no Brasil. Só tenho que agradecer a ele e que Deus ilumine sua família neste momento."

Cilinho ajudou Marcinho a se alfabetizar e assinar seu primeiro contrato profissional. "Me ensinou dentro e fora do campo. Me fez estudar e ser um homem na vida, para depois ser jogador profissional. Muito orgulho ter sido treinado por ele, foi o melhor treinador com quem trabalhei", relembrou o ex-atacante, que saiu negociado na ocasião para o Guarani, de Campinas.

O ex-goleiro e atual treinador Sérgio Guedes era a ligação entre técnico e o elenco americano, ao chamar o comandante de chefe, descrevendo-o como "genioso e competente". "Eu conhecia o Cilinho mais do que todos os outros. Era duro na cobrança e às vezes incomodava alguns jogadores", contou o ex-goleiro ao Diário em julho deste ano. (VS)