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Façanha no Sertão

Praça Shopping tem exibição especial do filme "Trama de Sangue"

Mais de meio século depois de sua estreia no Cine São Paulo, o primeiro filme de ficção produzido em Rio Preto "A Trama de Sangue" ganha nova exibição nesta quarta-feira, 27, no Praça Shopping


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

No dia 28 de agosto de 1968, o Cine São Paulo estreava o filme "A Trama de Sangue", primeiro curta-metragem de ficção produzido em Rio Preto e que ficou em cartaz por uma semana na cidade. O filme com 35 minutos de duração foi feito por um grupo de jovens que se inspiraram nas obras do cineasta Glauber Rocha, um dos mais influentes do movimento Cinema Novo.

Pouco mais de 51 anos depois de sua estreia, "A Trama de Sangue" ganha uma nova uma exibição nesta quarta-feira, 27, a partir das 19h30 na praça de alimentação do Praça Shopping, em um evento para convidados. O curta será projetado em um telão para um público de aproximadamente cem pessoas. O local foi escolhido por ter abrigado um dos principais cinemas de rua de Rio Preto, o Cine Curti.

O filme pioneiro da ficção rio-pretense foi escrito pelo advogado Vicente Amêndola Neto, com direção do jornalista João Albano e foi filmado por Arlindo Massi. A realização foi considerada uma façanha para a época, pois nenhum dos responsáveis pelo curta tinha experiência com cinema. "Foi algo incrível, pois naquela época os filmes eram película 35 mm em nitrato, o que era um perigo. Você tinha que mandar revelar e fazer o som separado porque não existia essa tecnologia de gravar tudo junto. Não era fácil como os dias de hoje que você pega um celular e faz um filme", explica o historiador e cineasta Fernando Marques.

No ano de 2009, a Secretaria de Cultura de Rio Preto adquiriu o filme e solicitou sua digitalização. Contudo, durante o procedimento, a qualidade do material não ficou satisfatória. "Foi quando, então, eu recebi todo o arquivo da Família Curti e lá estava o arquivo da película original", relembra o cineasta.

Antes do filme, os convidados assistirão ao documentário "A Trama de Sangue - Uma Façanha no Sertão", produzido por Fernando Marques e que conta a motivação dos jovens em produzir o primeiro filme de ficção na cidade.

Gravado apenas com uma câmera, o filme de bang-bang, gênero que estava em bastante evidência na época, conta a história de um coronel casado com uma linda mulher. O peão que trabalhava na fazenda do coronel se envolve com a moça e então há um duelo entre os dois.

"Foi uma aventura. Era como se estivéssemos fazendo o papel de Tarzan, pois tudo era no corpo mesmo. Não tinha dublê, nem efeitos especiais", conta o radialista Roberto Toledo, 73 anos, que interpretou o personagem principal.

Junto com Toledo, participaram os atores Antônio Carlos Botas, Fernando Ziroldo, Mário Cesar F. De Monte, Margareth Botelho e os figurantes José Miguel, Dema e Papa. A película original foi filmada em fazendas de Mirassolândia e Bady Bassitt. O então ator se lembra, inclusive, de uma cena em que é puxado por um cavalo e arrastado pelo mato. "A cena foi filmada por volta de 13h e eu fui amarrado e puxado de verdade. Quando foi 16h tive que ser hospitalizado por causa de uma cólica renal", recorda.

A trama do curta foi inspirada em um caso real. O advogado criminal Vicente Amêndola Neto conheceu a história durante a participação em um juri e então decidiu transformá-la em filme.

"Era muito difícil fazer cinema, principalmente no interior. Basta ver que Rio Preto foi ter o primeiro mais de 110 anos depois de ser fundada. Nessa época, poucas cidades do interior tiveram um filme de ficção", destaca Marques.

Ele ainda conta que há alguns anos ficou incumbido pela Secretaria de Cultura a trabalhar na recuperação do filme original, para corrigir a falha de sincronização entre áudio e vídeo, que em alguns trechos chega a ser de 3 segundos - tempo considerado grande para o cinema. "Mas não tive coragem. O filme se tornou 'cult' justamente por isso e eu não podia modificar a história do primeiro filme de ficção produzido na cidade. Seria como mudar o fim de 'E o vento levou'. Não pude fazer", finalizou.