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Cultura e aprendizado

Supervisionado por rio-pretense, game evidencia cultura indígena

Jogo educativo que aborda a cultura indígena e a história do Brasil, desenvolvido por professores de Rio Preto como uma ferramenta pedagógica, será lançado nesta terça-feira, 5, com distribuição gratuita


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Para ensinar de maneira lúdica e divertida a importância da herança cultural dos povos indígenas no Brasil, dois professores de Rio Preto desenvolveram um jogo para ser usado em sala de aula e que promove o envolvimento dos alunos. O game "Tupi - O Reino de Santa Cruz" evidencia a grande influência dos povos indígenas, alvos constantes de ataques e perseguições devido à briga por terra.

Criado pelo professor Leandro Ferreira, o jogo apresenta diversos aspectos da cultura indígena, como alimentação, descobrimento do Brasil, cultura e lendas folclóricas. O game nasceu como uma ferramenta pedagógica, utilizada dentro da sala de aula da Escola Municipal Professora Regina Mallouk para ser um complemento aos materiais didáticos. Agora, o jogo está também disponível para outras instituições de ensino e pode ser baixado gratuitamente. A ferramenta está disponível para sistema operacional Windows e, em breve, será lançado para smartphone no site oficial (tupigame.webnode.pt).

Vencedor do Prêmio Nelson Seixas 2019, na categoria audiovisual, o lançamento oficial do "Game Tupi - O Reino de Santa Cruz" será realizado nesta terça-feira, 5, na Escola Municipal João José Feris, no bairro Vila Toninho. Também estão previstos eventos de lançamento no dia 14, na Escola Municipal Profª. Regina Mallouk e, no dia 21, na faculdade Unirp.

Segundo Leandro, que também é especialista em mídias digitais, a ideia surgiu em 2009, durante o processo de escrita do Trabalho de Conclusão de Curso, de Pedagogia. A pesquisa acadêmica abordou a utilização de recursos digitais na educação e utilizou como exemplo um jogo que poderia ser utilizado nas aulas de história para aprender sobre a cultura indígena. A partir daí, o docente passou a amadurecer mais a ideia.

O projeto passou a ganhar mais forma com a ajuda da professora universitária e pesquisadora da cultura indígena, Niminon Suzel Pinheiro. Ela ajudou a intermediar o contato de Leandro em comunidades indígenas e também participou na discussão e criação das histórias. "Esse game é produto e produtor da multidisciplinaridade. O objetivo é tornar o conhecimento sobre nossa história e memória acessível de forma lúdica e que envolva ferramentas que as crianças gostam de usar, como os games", explica Niminon.

"Tupi - No reino de Santa Cruz" é um jogo de RPG (sigla em inglês para role-playing game) educativo de exploração. Na aventura, o jogador controla os indígenas Tupi e Macro-Jê em diferentes fases para aprender sobre a cultura indígena e sua importância na construção cultural brasileira. O jogador pode explorar a floresta, coletar frutas, sementes e raízes, pescar, nadar, dormir na rede, conversar com outras pessoas, lutar, trocar itens e participar de missões como procurar uma planta para o pajé tratar um índio doente, ou ajudar uma indígena a fazer o almoço da aldeia.

O game pode ser o ponto de partida para se abordarem temas relacionados à cultura e costumes dos povos indígenas. O jogo é dividido em 12 fases e cada uma delas trabalha tópicos de forma crítica e sob o ponto de vista indígena. O início da aventura mostra os personagens recebendo os navegadores europeus chegando em caravelas voadoras e vestidos com roupas de astronauta, para acentuar o choque cultural. "Essa chegada de Pedro Álvares Cabral destaca as diferentes tecnologias entre os índios e europeus. Mas, conversando com os indígenas, eles não acham que o Brasil foi descoberto. Como eles já estavam aqui nesse período, falam que o Brasil foi invadido. Como o game aborda a questão da cultura indígena através da perspectiva dos indígenas, temos a primeira fase a invasão do Brasil", diz Leandro.

Para enriquecer o projeto, o professor fez uma vasta pesquisa, entrevistou antropólogos, escritores e indígenas que realizam um trabalho relevante para a sociedade. Alguns deles estão no jogo, como o youtuber Cristian Wariu (que apresenta vídeos sobre a cultura Pataxó); o grupo Brô MC's (primeiro grupo de rap indígena do Brasil); a Arandu Arakuaa (banda brasileira que mescla música folclórica brasileira e indígena) e alguns os artistas plásticos indígenas. A trilha sonora do jogo foi composta por músicos indígenas Guarani da aldeia Nimuendaju, localizada na cidade de Avaí.

Outro aspecto que chama atenção no game é o fato de não ter moeda, item bastante comum em jogos de RPG, que permite ao jogador comprar itens e equipamentos para conseguir cumprir as missões. No entanto, como o índio possui tudo o que precisa na natureza, para pegar itens basta ir até árvores e colher frutas e raízes. Mas há um limite para isso, afirma Leandro. "Se eu pegar muito mel, o pajé me dá uma bronca. Eu tenho que pegar apenas o suficiente. Se eu pegar muita coisa, ele vai chamar minha atenção, para que eu deixe mel para os outros índios". Para os criadores, isso ocorre pois na cultura indígena é ensinada a necessidade de respeitar os recursos naturais. Ao completar missões, resolver enigmas ou vencer inimigos, o jogador ganha felicidade.

Por ser desenvolvido segundo uma linha cronológica, a maioria das fases são ambientadas no passado. No entanto, uma delas mostra como é uma aldeia atualmente e como são os índios nos dias de hoje. Um dos aspectos mais marcantes nesse ponto é o preconceito e a exclusão social sofrida pelos índios. Entre os temas abordados estão a luta dos indígenas pela demarcação de terra, dos direitos dos povos indígenas, da falta de respeito pelo resto da sociedade.

Recurso pedagógico

O jogo foi desenvolvido para ser uma divertida ferramenta pedagógica e proporcionar aos alunos reflexões sobre a história do Brasil e a aprendizagem sobre a contribuição indígena para nossa cultura.

"Nós não conhecemos sobre a cultura indígena de verdade. Se eu sou um professor que estudei muito tempo não conheço, imagina as crianças que estão chegando agora. A sociedade em si não tem esse conhecimento, a cultura indígena é muito rica", pontua o professor.

Para ele, o jogo pode ser o ponto de partida para uma roda de conversa ou criação de uma redação sobre o que o aluno jogou no game ou pode responder a questões sobre determinada fase. No site do projeto há diversas sugestões de atividades e materiais complementares para pais e professores.