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MADRE

Rio Preto recebe Mostra de Artes da Diversidade e Resistência

Show do CTRL N, duo paulistano que combate padrões de uma sociedade machista, branca e heteronormativa, é um dos destaques da 3ª edição da Mostra de Artes da Diversidade e Resistência


    • São José do Rio Preto
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A música tornou-se uma das principais plataformas artísticas para a promoção da visibilidade e do "lugar de fala" de grupos marginalizados da dinâmica social como gays, lésbicas e transexuais. E entre os artistas que se despontaram nesse movimento cultural estão os paraenses Haroldo França e Nigel Anderson, que criaram, no ano passado, em São Paulo, o CTRL N, duo que recorre à música pop para provocar reflexões em torno de questões sociais e políticas dentro e fora da bolha LGBTQIA .

Com um punhado de singles que literalmente saíram do armário - adaptado como estúdio no apartamento em que eles moram na capital paulista -, eles evidenciam temas caros tanto para a sociedade em geral como para o próprio público LGBTQIA . "A música tem ganhado uma potência forte em termos de discurso. Nomes como Pabllo Vittar e Linn da Quebrada abriram uma grande porta para que outros artistas tornassem mais visíveis seus discursos", diz Nigel, que, ao lado de Haroldo, faz show em Rio Preto neste sábado, 2, dentro da programação da Madre - Mostra de Artes da Diversidade e Resistência, no Centro Cultural Vasco.

Em entrevista ao Diário da Região, Nigel conta que, inicialmente, a ideia era criar um projeto que tivesse uma pegada mais alternativa, com uma sonoridade mais sofisticada. No entanto, diante do contexto político brasileiro, perceberam que o discurso do CTRL N teria que ser o mais claro e acessível possível. "É uma sonoridade que parece ser mais comercial, mais popular, no entanto carrega um discurso político potente."

Os padrões impostos por uma sociedade machista, branca e heteronormativa estão no alvo da artilharia musical do CTRL N, que reconhece que a hierarquia de valores que privilegia o masculino diante do feminino se estabelece até mesmo entre os homossexuais. "O fato de ser gay não isenta de ter preconceito. Gays que são mais afeminados, por exemplo, são diminuídos por outros gays. E isso é só um dos reflexos da violência e discriminação sofridas pelo gênero feminino na sociedade", destaca Nigel. 

Essa postura machista é combatida por músicas como "Eu Prefiro", que projetou o CTRL N nas redes sociais em junho do ano passado, e "Afeminada". O nome do show do duo musical também reforça essa crítica: "CTRL N Contra o Macho Astral".

Além do projeto musical, os dois paraenses também desenvolvem trabalhos com outras linguagens artísticas. Nigel é mestre em Artes Visuais pela Unesp e já criou trilhas para espetáculos da Caleidos Cia. de Dança. Haroldo tem mestrado em Audiovisual pela USP e dirige espetáculos da Cia. do Sereno, que também participa da Madre com a peça teatral "Bolhas".

Resistência

A Madre é uma iniciativa do Grupo de Apoio à Loucura (GAL) abraçada por artistas e coletivos de Rio Preto e, agora, na terceira edição, de cidades como Catanduva, São Paulo e Porto Alegre. O evento reúne trabalhos de várias linguagens artísticas que propõem discussões sobre diferentes aspectos da diversidade, seja ela sexual, de gênero, social, racial, religiosa ou física.

Entre os trabalhos que integram a programação está o "Projeto EUNÚ", que marca a estreia do dançarino Rudy Baptista, da cidade de Assis, na cena artística do interior paulista. Inspirado na figura do cantor Ney Matogrosso, o trabalho é uma obra em aberto que une dança, teatro e performance, refletindo a expressão feminina que habita na personalidade do artista.

"A dança é uma paixão que cultivo desde a adolescência. É a forma que encontrei para expressar artisticamente esse lado mais feminino, mais sensual e provocativo da minha pessoa. Acabei conhecendo Ney Matogrosso justamente durante esse meu processo de autoconhecimento. Vejo o meu corpo como um instrumento de arte, e não como um tabu. E o Ney usa seu corpo de uma forma muito bonita, que acabou se tornando uma inspiração", comenta ele. 

Além da contribuição de artistas, coletivos e técnicos de Rio Preto e das cidades que integram a programação, a terceira edição da Madre conta com o apoio do Centro Cultural Vasco, da Fundação Marielle Franco, do Sated Rio Preto e da Bauhaus Barbearia. Toda a programação, realizada neste sábado e domingo, 2 e 3, no Centro Cultural Vasco, na Boa Vista, é de graça.

Hoje

  • 15h à 23h - Mostra 'Toda Nudez Será Repreendida'. Chris The Red (São Paulo)
  • 15h - Espetáculo 'XSINDZIVXS'. GAL (Rio Preto)
  • 17h - Instalação 'Post Mortem - A trajetória de Miltinho Verderi'. Grupo Kahlos (Rio Preto)
  • 17h - Performance 'Matrística Vento'. Cia. do Santo Forte (Rio Preto)
  • 17h - 'Tesoura Zen'. Camila Puni (Rio Preto)
  • 17h30 - CineMadre. Mostra de curtas-metragens
  • 19h - Espetáculo 'Cabarexistência'. GAL (Rio Preto)
  • 20h30 - Intervenção musical 'Transmutação'. DJ Basim e Lucas Hrs (Rio Preto)
  • 21h30 - 'Projeto EUNÚ'. Rudy Baptista (Assis)
  • 22h - Show 'CTRL N contra o Macho Astral'. CTRL N (São Paulo)
  • 23h - Intervenção 'Música de Protesto'. Harlen Félix DJ Set (Rio Preto)

Amanhã

  • 16h à 22h - Mostra 'Toda Nudez Será Repreendida'.
  • 16h20 - Performance 'O homem no círculo'. Kiko Andrade (Rio Preto)
  • 16h40 - Espetáculo 'Que pecado é esse?'. Danseâme Cia de Dança (Catanduva)
  • 17h - Performance 'Mãe'. Fabiana Abranches (Rio Preto)
  • 17h - Espetáculo 'Sagrado Feminino - SacréFéminin'. Malu Oliveira (Rio Preto)
  • 17h30 - Espetáculo 'Abomalé'. Diego Neves (Rio Preto)
  • 18h - Espetáculo 'Bolhas'. Cia. Do Sereno (São Paulo)
  • 19h - Performance 'Cortando Cebolas'. Asa de Borboleta PerformanceArt (Rio Preto)
  • 19h30 - Espetáculo 'Do Elo'. Dado Araújo e Nigel Anderson (São Paulo)
  • 19h45 - Espetáculo 'Apneia'. Núcleo de Arte e Cultura (Rio Preto)
  • 20h - Solo 'Assinado Eu?'. Guilherme Brito - Danseâme Cia de Dança (Catanduva)
  • 20h30 - Espetáculo 'Sobra Viva'. David Balt (Rio Preto)
  • 20h45 - Show 'CanTo'. Uriel a Gurl (Rio Preto)
  • 21h - Show da Two Four (Rio Preto)
  • 21h30 - Espetáculo 'Embalagem'. Andrea Capelli e Andressa Maria (Rio Preto)
  • 22h - Show da banda The Monnas (Rio Preto)

 

Fotógrafo brasiliense radicado em São Paulo, Chris The Red tem sua objetiva focada na nudez do humano. Por meio de seus registros, busca sensibilizar a sociedade para a importância da educação sexual na formação das pessoas. "Fotografar a nudez não é fazer uma foto de uma pessoa pelada. Estar nu diante da câmera representa o desprendimento de inúmeras camadas, sociais e pessoais", comenta ele, que participa da Madre com a mostra "Toda Nudez Será Repreendida".

A mostra nasceu em 2017, após o ataque a diversas manifestações artísticas em que o nu fazia parte da encenação.

"Não temos uma relação correta com a nossa sexualidade. As crianças são curiosas perante o mundo e fazem perguntas que os pais não estão preparados para responder, colocando questões como a sexualidade no lugar do tabu, do proibido."

Segundo ele, a sexualidade está relacionada ao comportamento, exercendo uma influência muito forte sobre ele. "Uma criança que, na escola, aprende a conhecer o seu próprio corpo, não permitirá que um adulto toque em determinadas parte dele sem a sua permissão. Ela entenderá que o corpo tem privacidades. Sem educação sexual e com o despreparo dos pais, abrimos espaço para todos os tipos de violência", diz. "Sem a correta orientação, as pessoas vão buscar respostas para suas dúvidas relacionadas à sexualidade em outros espaços, como a internet, deixando suas fantasias serem alimentadas pela indústria pornográfica. Com isso, passam a reproduzir padrões comportamentais doentios em relação ao sexo", reforça o artista.