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Cerimônia

O tocar do sino como vitória contra o câncer

Hospitais de Rio Preto adotam a cerimônia de tocar o sino como um símbolo da vitória contra o câncer. Renan foi o primeiro a tocar no Hospital de Base


    • São José do Rio Preto
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Renan Moreira da Silva, de 27 anos, veio de Rio Claro para Rio Preto para fazer residência em ginecologia e obstetrícia. Em agosto deste ano, começou a ter fortes dores nas costas e achou que tratava-se de algo muscular, causado pela academia. Procurou o Hospital de Base, onde trabalha, acreditando que tomaria um anti-inflamatório e seria liberado. Saiu de lá com diagnóstico de câncer agressivo no mediastino, osso da região torácica. Foram 20 sessões de quimioterapia, que terminaram nesta sexta-feira, 8, com o som que muitos pacientes de câncer ao redor do mundo têm ouvido: o de um sino.

Tocar um sino ao finalizar o tratamento tem se tornado um símbolo da luta contra o câncer em muitos hospitais pelo mundo e no Brasil. Em março deste ano, um vídeo da americana Lakesha Ball tocando o sino após ser curada de um tumor na mama viralizou em todo o mundo. No Brasil, a prática já chegou a hospitais de cidades como Belo Horizonte, Brasília e Santarém.

Renan foi o primeiro paciente a tocar oficialmente o sino no HB - ele foi instalado na última segunda-feira, 4, e no mesmo dia uma paciente que estava terminando a quimioterapia pediu para estreá-lo. Acompanhado da mãe, a funcionária púbica Denise Regina Moreira, de 57 anos, de amigos e da equipe do HB, ele se emocionou ao fazer o gesto. "Mostra uma vitória, encerrou um ciclo. Tenho que refazer os exames para ter certeza da cura e espero ter esse passado para mim como uma vitória, algo a me ensinar a ser uma pessoa melhor", afirma.

O médico estava sozinho quando recebeu o diagnóstico. Ligou e pediu que a mãe viesse a Rio Preto, sem contar a ela sobre a doença, preocupado que viesse de Rio Claro dirigindo sozinha. A notícia só foi dada quando Denise chegou - desde então, ela não foi mais embora e só deve voltar para casa quando saírem os resultados dos exames mostrando que não há mais câncer.

Renan conta que foram meses difíceis. "O tratamento foi bem complicado. O tumor era bem agressivo, então a quimio precisava ser forte. Muita náusea, vômito, mal-estar", comenta. "Mas não tinha outra alternativa a não ser fazer o tratamento, então era seguir em frente."

O período, para ele, foi uma lição. A meta agora é fazer algo simples, mas tão difícil: dar valor às pequenas coisas. "Que às vezes a gente deixa passar no dia a dia, você não presta atenção. Dar mais valor à família. Comecei a ver que é o que importa", garante. "Às vezes a gente se preocupa com coisas banais e perde a saúde para aquilo e vai deixando ir embora o que mais importa."

Uma nova vida

Um renascimento após uma gestação de nove meses. É assim que Ana Lúcia Almeida, bailarina e professora de balé clássico de 54 anos, define o momento em que tocou o sino na Unimed após uma cirurgia e 24 sessões de quimioterapia, em 24 de julho deste ano, nove meses e alguns dias após o diagnóstico de tumor no ovário, recebido em 10 de outubro de 2018. A descoberta da doença foi uma surpresa para ela, uma atleta que nunca teve vícios e sempre fez exames preventivos - em janeiro, todos os testes estavam normais.

"Foi um grande choque, um abalo grande. Meus sustentáculos foram a fé, a família e o trabalho. Em nenhum momento falei 'vou morrer'. Pensei 'vou lutar' e foi uma luta muito linda, muito bem sucedida, estou tentando usar meu processo, minha transição como uma alavanca de força para as pessoas, para que não interpretem a notícia como uma sentença de morte", ensina. "Eu literalmente renasci nesses nove meses, minha vida passou por um processo muito transformador, então tocar o sino foi muito libertador", diz.

O momento foi acompanhado pela mãe, Lourdinha, e pelos filhos Guilhermo e Bernardo. "Eu pedi licença para os meus companheiros que estavam tomando a quimioterapia porque não queria fazer disso um ato egoísta, queria fazer disso um ato comunitário. Aquele era o meu momento, mas seria seguido por todos os outros que estavam ali", afirma Ana Lúcia.

Emocionada ao contar sua história, a professora acredita que todo o processo fez com que se tornasse mais generosa consigo mesma - por ser bailarina, ela sempre teve uma rotina de cuidar do espelho e da balança, sempre se preocupou em estar magra o tempo todo. "Hoje se não estou naquela forma física que tinha como meta eu... estou viva. Então o meu cabelinho está nascendo de novo, curtinho, eu me olho e eu me amo. A generosidade comigo e a gratidão de poder acordar todos os dias plena", celebra.

Márcia Lanza, enfermeira supervisora do setor de quimioterapia do HB, conta que o sino era uma reivindicação dos pacientes. A equipe toda acaba se emocionando com a vitória de cada um. "A gente participa da vida deles, nessa etapa do tratamento eles choram, confidenciam coisas pessoais, a gente faz parte desse momento. Ver eles vencerem, tocarem esse sino e chorarem de alegria é uma alegria e uma vitória para a gente", comemora Márcia.

Marcelo Lucio de Lima, responsável pelo complexo de Saúde da Unimed, diz que desde abril deste ano cerca de 20 pessoas participaram da cerimônia. "A ideia de implantá-la em nosso serviço veio da equipe de enfermagem, que sentia que os pacientes tinham um único propósito - a cura - e, consequentemente, terminar a quimioterapia. Com isso, veio a celebração e a comemoração", afirma o médico.

A equipe lê uma carta sobre esperança ao paciente. A mensagem é personalizada conforme a história de cada um. "O sino acaba se tornando um objetivo, uma conquista que cada paciente quer alcançar. Isso ajuda a vencer obstáculos, enfrentar momentos difíceis e até estimular aqueles que, possam desanimar no meio da jornada", acredita Marcelo. (MG)