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TRABALHO

Estrangeiros escolhem Rio Preto para viver e construir carreira

Estrangeiros de pelo menos 29 países escolheram Rio Preto para viver e construir carreira profissional; haitianos formam o maior grupo de trabalhadores com carteira assinada, com 145 pessoas


    • São José do Rio Preto
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As qualidades de Rio Preto ultrapassam as fronteiras nacionais, tanto que a cidade é destino de muitos estrangeiros que escolhem a cidade para fazer a morada e se estabelecer. Alguns o fazem por necessidade - fugindo de conflitos ou da miséria - e outros por oportunidades para atuar no setor de saúde e de educação. São pessoas das mais variadas origens e idiomas, entre elas haitianos, portugueses, peruanos, chineses e muitos outros. O resultado é uma babel de profissionais distribuídos no mercado de trabalho em funções operacionais e de nível superior.

Levantamento da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério da Economia, mostra que o mercado de trabalho local é formado, naturalmente, em quase sua totalidade por brasileiros. São 138.449 de um total de 138.787 pessoas, mas há ainda outros 338 profissionais de diferentes etnias. O destaque fica por conta dos haitianos, que totalizam 145 pessoas. O grupo fortaleceu o movimento migratório a partir do terremoto de 2010, que devastou o país e causou mortes na casa de 200 mil pessoas.

É o caso do repositor de mercadorias Elitaire Omoshne, 25 anos, que trabalha no Atacadão da rua Silva Jardim. Ele conta que está no Brasil - especificamente Rio Preto - há um ano e meio e que escolheu vir para cá depois de deixar a Espanha, onde viveu por quase sete anos. "Lá era muito difícil, por isso resolvi vir para cá", contou ele, que diz adorar morar em Rio Preto, especialmente pelo fato de se sentir bem tratado e sem racismo.

Eli, como é chamado no trabalho, divide o aluguel com um amigo haitiano que trabalha como pedreiro. Extremamente focado, consegue usar o salário para pagar as contas, enviar uma parte para a família e ainda guardar. O único problema é a saudade da mulher e dos dois filhos, que continuam no Haiti. "Hoje em dia está mais difícil conseguir visto para viver no Brasil, mas se Deus quiser eu vou trazer eles para viver aqui."

Além da saudade, outra dificuldade é o idioma, que ele considera complicado. Eli fala o idioma crioulo haitiano, francês, espanhol, entre outros, mas a língua portuguesa ainda é um desafio, embora já seja mais fácil para ele entender do que falar. "Estou aprendendo e muito feliz de viver aqui", disse.

O gerente da unidade, Júnior da Cruz, conta que outro haitiano trabalha na unidade da região norte e que ele até já foi promovido, de repositor a conferente. Eli é o terceiro haitiano a ser contratado num movimento que começou na unidade da capital, para atender ao aumento da demanda de migrantes que saíram do país em função da grave crise depois do terremoto avassalador que destruiu o Haiti em 2010 e causou milhares de mortes. "O Eli se adaptou muito bem. Ele é comprometido, não falta, se esforça para aprender o idioma e atende muito bem os clientes. Para a empresa é um ganho", disse.

A Secretaria do Emprego e Trabalho atua em relação aos estrangeiros da mesma forma que com os brasileiros e tem foco especial em sua regularização para viver no Brasil, com a documentação necessária. "Viver longe de casa é um desafio e a cidade precisa estar preparada para receber os estrangeiros, tanto na infraestrutura quanto em todas as áreas. Estamos orientando da melhor forma para que essas pessoas participem de capacitações e no balcão de empregos", disse.

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Reprodução)

O mercado de trabalho de Rio Preto manteve a tendência de crescimento iniciada no ano anterior e fechou o ano de 2018 com um estoque de 138.787 trabalhadores com carteira assinada. São 2.685 empregos a mais do que em 2017, o que representa uma alta de 1,9% em relação ao estoque de 136.102 trabalhadores de 2017. As estatísticas fazem parte da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério da Economia.

A retomada na geração de vagas formais, ainda que de maneira gradual, foi iniciada em 2017, depois de dois anos de perda de empregos em Rio Preto. O problema se intensificou em 2015, quando houve o enxugamento de 5,1 mil empregos e a cidade passou a ter um estoque de 138.789 trabalhadores. Atualmente, inclusive, o mercado de trabalho voltou a ter o mesmo tamanho do daquele ano.

O crescimento do emprego em Rio Preto foi superior ao registrado no País todo. O ano passado fechou com 46,63 milhões de vínculos, 349,52 mil a mais do que em 2017, o que corresponde a um aumento de 0,8% nos postos com carteira assinada no País.

"A partir de 2017 há uma reversão da tendência de queda para a retomada do crescimento. Sem crescimento não há geração de emprego e renda, ainda que algumas regiões resistam por mais tempo a essas oscilações ou começam mais cedo a recuperação, caso da microrregião de Rio Preto", afirma o economista José Mauro da Silva.

Pouco mais da metade da mão de obra de Rio Preto é formada por trabalhadores do sexo masculino. O levantamento revela a existência de 74.186 pessoas (53,4%). Já a força de trabalho feminina é formada por 64.601 trabalhadoras.

O grupo que forma a maior força de trabalho de Rio Preto está compreendido na faixa de pessoas com idade de 30 a 39 anos. Ao todo, 42.390 pessoas dessa faixa etária estão nesse grupo de trabalhadores. Em seguida, aparecem os trabalhadores com idade entre 40 e 49 anos, que somam 29.453 trabalhadores. Os adolescentes entre 15 e 17 anos formam o menor grupo, no total de 994 pessoas.

O economista Bruno Sbrogio destaca a "maturidade" da mão de obra local. Esse aspecto ressalta a importância de um preparo para o envelhecimento dessa mão de obra. "Inclusive para questões de diferença de salário entre produtividade, sexo ou de idade porque os trabalhos vão ter também uma dinâmica muito mais fluida. O incremento da tecnologia vai fazer existir uma diferença nos processos inerentes à profissão". (LM)

A diversidade que marca a economia de Rio Preto é um dos fatores que faz o impacto das crises econômicas ser diluído na cidade. Ao mesmo tempo, são as menores empresas as maiores empregadoras, já que o setor de serviços é o que predomina. De acordo com a Rais, são 65.356 trabalhadores no setor. Em seguida, aparece o comércio, que reúne 37.909 pessoas. A terceira colocação fica com a indústria, que reúne 20.182 pessoas.

Segundo Sbrogio, o setor de serviços gera uma renda maior e uma boa qualificação, entretanto, oferecer um serviço de excelência para agregar valor deve ser objetivo. Excelência que passa pela inovação dos serviços, que demandam uma especialização muito grande da mão de obra. "Só conseguimos isso com investimento pesado em educação. Sem uma educação de base boa não temos um bom nível universitário".

Os setores com o menor número de trabalhadores são os ligados ao agronegócio. O setor de extrativa mineral reúne apenas 13 trabalhadores e o setor de agropecuária, extração vegetal, caça e pesca, conta com 657 trabalhadores.

O levantamento mostra que as empresas que contratam entre 20 e 49 vínculos são as maiores empregadoras da cidade. Atualmente, elas contam com 23.846 trabalhadores. Em seguida, aparecem as empresas com quadro entre 10 e 19 funcionários, num total de 23.846 trabalhadores. A terceira colocação fica com as empresas que reúnem entre cinco e nove vínculos, com 16.644 trabalhadores. O menor grupo é o de empresas com quadro entre 500 e 999 vínculos, que empregam 5.799 pessoas.

O grupo que forma a maior força de trabalho de Rio Preto está compreendido na faixa de pessoas com idade de 30 a 39 anos. Ao todo, 42.390 pessoas dessa faixa etária estão nesse grupo de trabalhadores. Em seguida, aparecem os trabalhadores com idade entre 40 e 49 anos, que somam 29.453 trabalhadores. Os adolescentes entre 15 e 17 anos formam o menor grupo, no total de 994 pessoas. O grupo de idosos é pouco mais que o dobro, com 2.194 trabalhadores na ativa.

Instrução

O que se observa do mercado de trabalho de Rio Preto é que de 2017 para 2018 aumentou o número de trabalhadores com maior grau de instrução enquanto foi reduzido o número de pessoas que ficaram menos tempo na escola. Esse movimento foi observado a partir do nível de ensino médio completo, cujo total passou de 74.006 em 2017 para 76.083 trabalhadores no ano passado. O número de trabalhadores com ensino superior incompleto passou de 4.864 para 5.048, e com superior completo registrou uma alta mais relevante, passando de 27.477 pessoas para 29.416.

De acordo com o levantamento, o maior número de trabalhadores tem o ensino médio completo (76.083), seguido por superior completo (29.416) e fundamental completo (11,2 mil). O menor número é de analfabetos, com 125. Em seguida aparece o grupo com formação até o quinto ano incompleto, num total de 1.482 trabalhadores.

Embora a remuneração média do trabalhador rio-pretense seja bem inferior à nacional, por aqui houve aumento de 3% na passagem de 2017 para 2018, enquanto no Brasil houve redução. Em Rio Preto, a renda média passou de R$ 2.666,51 para R$ 2.749,10. Ao mesmo tempo, no País, houve redução real na remuneração média, atingindo R$ 3.060,88. A queda foi de 0,47%, o que representa R$ 14,44. "O crescimento de 3% é importante, mas não o suficiente para repor as perdas comparadas aos ganhos alcançados na década de 2000, que foram de 15,5% entre os mais pobres", afirmou o economista José Mauro da Silva.

Em relação às diferenças no valor da remuneração entre homens e mulheres, as discrepâncias observadas ao longo dos últimos anos permaneceram as mesmas. A remuneração média dos trabalhadores do sexo masculino é de R$ 2.897,72 enquanto a das mulheres é de R$ 2.579,65.

Em Rio Preto, o setor que mais remunera o trabalhador é o de administração pública, com um salário médio de R$ 5.218,33. Apesar de ser o que mais paga, é um dos que menos emprega, com 6.908 trabalhadores. Para o economista Bruno Sbrogio, o alto salário médio da administração pública mostra o problema que existe em relação ao setor público no País. "O poder público gasta muito. O sonho de praticamente todos os brasileiros é passar em um concurso público por conta disso. Esse peso enorme que funcionalismo público tem gera uma tensão nos gastos públicos, então é necessário equalizar o salário médio que o brasileiro comum (contratado via CLT) vive com relação à administração pública", afirmou.

Os dois próximos setores que mais pagam são justamente os com menos trabalhadores, do setor de agronegócio. O segmento de extrativa mineral - que tem apenas 13 trabalhadores - oferece uma remuneração média de R$ 3.155,97. O setor de agropecuária, extração vegetal, caça e pesca, com 657 trabalhadores, paga, em média, R$ 3.302,02.

O setor que mais emprega - os serviços - oferece uma remuneração de R$ 2.828,72, valor bem similar à remuneração média em geral. O comércio, que tem a segunda colocação entre os maiores empregadores paga, em média, R$ 2.335,04. A indústria remunera um pouco mais, R$ 2.490,03.

Segundo José Mauro, a indústria sempre teve os empregos mais estáveis e de maior remuneração e perdeu participação nas últimas décadas, resultado da mudança da dinâmica econômica brasileira. "Hoje, os serviços representam três quartos do PIB. O problema é que os vínculos empregatícios são mais precários, o setor remunera menos, exige menor qualificação. Entretanto, é mais difícil de ser atingido por uma crise, porém, se recupera mais lentamente, o que explica a queda na renda do setor", comenta.

Embora a remuneração seja determinada pelo setor em que a pessoa atua, a formação acadêmica está intimamente ligada ao nível salarial. Naturalmente, quanto maior o nível de conhecimento adquirido na formação educacional, maior a remuneração mensal. Em Rio Preto, analfabetos recebem o menor valor: R$ 1.760,03. Na outra ponta da faixa, entre os que são mais bem remunerados pela força do trabalho estão aqueles que fizeram o ensino superior completo, com uma renda média de R$ 4.697,35. No pelotão do meio estão os trabalhadores que concluíram o ensino médio, com renda de R$ 2.217,33. (LM)

Mais de 14 mil quilômetros separam Alagocene Sri Ranga de sua terra natal. O professor do Ibilce vive em Rio Preto desde a década de 1980. Foram os estudos em matemática e a paixão pela esposa brasileira que o levaram a se mudar para o Brasil. "Nos conhecemos na Escócia, durante um doutorado na década de 1980", contou o professor do departamento de matemática aplicada.

No início, Sri Ranga atuou na USP de São Carlos. Foi apenas em 1989 que se mudou para Rio Preto e começou a atuar no Ibilce. Desde então, o professor asiático nunca mais foi embora. "A língua eu ainda tenho dificuldade, mas consigo me virar bem. Sobre a culinária brasileira, eu gosto de todos os tipos de comidas".

Sri Ranga nasceu em Matale, distrito do Sri Lanka. De família de médicos, fez cursos na Inglaterra e Escócia. A última vez que foi para o seu país de origem foi no início dos anos 2000, quando foi buscar o pai que havia sofrido um acidente vascular cerebral (AVC). "Infelizmente, quatro anos depois ele morreu".

Pai de dois filhos, o professor de matemática conta que os estudantes se adaptam ao português enrolado do asiático. "Eu tenho que falar em português, mas em matemática é mais fácil porque é uma linguagem universal com os símbolos".

Sobre o trabalho exercido no Brasil como professor, ele revela que não pretende parar tão cedo. "Tenho carteira de trabalho no Brasil e gosto muito do que eu faço. Ano que vem posso me aposentar, mas acho que eu sou muito jovem", disse o professor, aos 62 anos.

"Digo que em termos de pesquisa, quanto mais você trabalha, mais você adquire conhecimento e fica mais fácil fazer pesquisas", completou o professor.

Falar português é primordial para os estrangeiros que chegam ao Brasil em busca de uma vaga no mercado de trabalho. Tanto que a Secretaria do Trabalho e do Emprego de Rio Preto oferece cursos em parceria com algumas universidades, como a Unesp e a Anhanguera. Em relação a essa última, 65% das 40 pessoas que concluíram o primeiro módulo já estão trabalhando. A capacitação feita com a Unesp termina neste sábado.

Segundo a professora de Departamento de Educação do Ibilce, Marta Lúcia Cabrera Kfouri, idealizadora do curso da Unesp, a iniciativa surgiu em 2012. "Tínhamos muitos alunos estrangeiros com dificuldades para ler texto. No decorrer dos anos, abrimos o curso para a comunidade externa e hoje recebemos, principalmente, refugiados".

A primeira turma - formada por sete estrangeiros - cresceu. Atualmente, o curso com duração de um ano e meio é formado por 18 estrangeiros de diversas nacionalidades.

Nem todos conseguem exercer o mesmo ofício do país de origem no Brasil. E o empecilho é justamente o idioma, que muitas vezes barra o candidato na hora da entrevista de emprego. "A maioria dos alunos que procura a gente quer uma solução imediata para conseguir um emprego. Normalmente, demora de um mês a três meses para começarem a falar o português".

As inscrições aos estrangeiros que desejam fazer o curso em 2020 devem começar em março.