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Entrevista

Ordem do Rei: abuse das cores

O prestigiado decorador Sig Bergamin fala da importância de ter nascido em Mirassol e entrega seus segredos para refrescar as ideias e manter-se jovem

Joyce Moysés - 09/11/2019 00:15

Dono de uma mente criativa e personalidade carismática, Sig Bergamin é aclamado mundialmente pelo seu estilo único em compor ambientes coloridos e irreverentes. Ao longo dos mais de 35 anos de carreira de sucesso, criou marca e estilo únicos - uma junção de ecletismo, diversidade étnica, humor, glamour e versatilidade, fazendo desse mix suas ferramentas de trabalho, tendo sido eleito o Rei das Cores.

Com projetos executados por todo Brasil, Estados Unidos e Europa, o badalado arquiteto nasceu em Mirassol e lá mesmo começou a revelar seu talento. Decorava o próprio quarto de um jeito que até a mãe ficava impressionada; e depois, com 14 anos, os bailes de Carnaval do clube local.

Anos mais tarde, Bergamin buscou um emprego formal para pagar os estudos e conseguiu graduar-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos. Desde então não parou. Nas palavras do lendário publicitário Nizan Guanaes, "Sig é gênio... e as paredes que ele ergue pelo mundo estão lotadas da arte brasileira; suas salas, de nosso artesanato e design", como se gritasse que o Brasil é lindo, é inteligente, é criativo.

Hoje, dono de um escritório de arquitetura em São Paulo com base em Nova Iorque e Paris, Sig é autor de diversas publicações nacionais e internacionais - como os livros "Adoro o Brasil" e "Sig Style" -, Bergamin é internacionalmente premiado por seus projetos e está na lista dos tops designers das publicações Elle Decor e Architectural Digest. Seu último livro, lançado pela editora francesa Assouline em 2018, chama-se "Maximalism"; e seu hobby é curtir com o marido, o também arquiteto Murilo Lomas, as buldogues francesas Chininha e Índia e a labradora África. O casal vive entre São Paulo e Miami, com residências nas duas cidades.

Saiba mais nesta entrevista exclusiva à Vida&Arte.

Quais lembranças você carrega de sua cidade natal?

Eu tive uma infância e uma adolescência maravilhosas na ensolarada Mirassol, sempre brincando nos pomares, na rua, na praça, nas festinhas de aniversário... Foi uma fase rica em qualidade de vida. O dia a dia no interior, diferentemente das grandes metrópoles, é mais natural e mais feliz. Ainda mais naquela época que não existia a violência, que aprisiona. Esse passado me fortaleceu como pessoa; tenho uma imagem muito positiva e saudável da minha cidade natal.

E como esse passado influencia seu trabalho?

São referências que me deram bastante base para tudo que faço hoje, a começar pelo uso com liberdade das cores. Eu me lembro de comprar, com 14 anos, nas Casas Pernambucanas de Mirassol, tecidos de chita bem coloridos para decorar a minha casa e os bailes do clube da cidade. Conservo esse meu lado menos comprometido com a seriedade e mais leve e lúdico, com toques divertidos e alegres, nas casas que decoro.

Diante dessa vida atual, mais "cinza" e difícil, o que sugere para as pessoas colorirem seu dia a dia?

Use e abuse das cores, ou vai morar rodeado só de bege, cinza - e a vida já está muito assim. A gente fica tenso com praticamente tudo. Teme sair na rua, esquecer a porta aberta, ser agredido e até roubado... Então, o medo que você tem na vida não precisa ter das cores. Pode gostar delas, pois vão só fazer seu bem, e deve misturá-las em sua casa e no guarda-roupa. Todas as cores se falam entre si e cada uma vai transmitir uma energia boa. Não tem essa coisa de que marrom não combina com vermelho ou azul.

Você diz que um dos segredos que o mantém jovem é levar seus olhos para passear. Por quê?

Quando você é muito curioso e percebe tudo ao redor, como eu, vai se enriquecendo de informações, crescendo profissionalmente e revitalizando a mente. Já que está andando, fique esperto, e não blasé ou indiferente ao que a natureza e a realidade humana querem mostrar! Tudo é bacana. Pode tirar partido da visão de um simples lago para refrescar as ideias. A minha imaginação "viaja" nos livros, nas revistas e no cinema, com Bertolucci [o cineasta Bernardo Bertolucci]. Já estive mais de 20 vezes na Índia, para observar o exótico e buscar inspiração.

O maior pedido que seus clientes estão fazendo é tomada. Como encara a presença forte da tecnologia dentro das casas?

É o mundo de hoje, que pede que seja tudo interligado, plugado. Antigamente bastava uma tomada na sala. Hoje, não adianta fazer uma coisa bonita, mas pouco funcional. A tecnologia é muito importante para as pessoas e pode ser pensada paralelamente ao conforto e ao aconchego. Tudo pode conviver.

É verdade que você foge daquilo que é tendência?

Me dá arrepio. Nunca gostei dessa palavra. Porque tudo que é modismo sai de moda, já deixou de ser.

As suas maiores riquezas não têm a ver com dinheiro. Quais são?

Meus livros e obras de arte, os amigos, as oportunidades de viajar, a minha biblioteca. Eu amo flores, especialmente as orquídeas. Adoro meu apartamento de Nova Iorque e a minha casa em Miami. Visito as bancas de frutas e fico fascinado pelo colorido delas. O mundo é muito rico e nós temos de tirar proveito de tudo, tudo - sem degradá-lo, é claro. Sendo um ótimo observador, você enxerga coisas preciosas que passam despercebidas pela maioria. É um caminho para realizar seu trabalho com sucesso.

Seu amor pelos cachorros é do tamanho do mundo, não é?

Meus cachorros são a minha família. A China e a Ásia morreram. Estão comigo a Chininha, a Índia e a África, que são minhas filhas.

A cozinha ganhou mais relevância na casa. O que costuma ter de muito gostoso na sua?

A cozinha, antes, era pensada de forma bem utilitária. Atualmente, virou parte da sala e é convidativa a ficar em casa cozinhando e sentindo prazer nisso. Na minha, faço tapiocas no café da manhã e omelete com vinho rosé a qualquer hora. Não estava achando tapioca em Miami, até que encontrei e matei a vontade recentemente. Também preparo bons aperitivos e cozinho às vezes.

Em tempos de tamanha exposição da privacidade com selfies e posts fotográficos na linha "Instaostentação", você sugere não exibir a intimidade na sala?

Hoje em dia todo mundo está expondo demais a sua intimidade. Para preservar um pouco, as fotos mais pessoais não devem estar na sala, e sim numa parte mais íntima da casa, como na saleta ou no seu quarto. Na sala, acho interessante explorar obras de arte, que não precisam ser caras. Elas trazem valor sentimental ao ambiente, contam uma história. Como as cores, a arte pode ser um grande recurso na decoração. Nunca me esqueço desta frase que ouvi e adotei: "antes arte do que tarde".

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