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História de Vida

Musicalidade que vem do berço

Aos 52 anos de idade, o maestro, pianista e compositor Maury Buchala é um dos principais nomes atuais da música erudita no Brasil - e também na Europa. Nascido em São José do Rio Preto, com 22 anos ele recebeu uma bolsa de estudos para se aperfeiçoar em Paris e por lá construiu uma sólida e eclética trajetória. Casado há 15 anos com uma produtora de TV brasileira que conheceu na capital francesa e sem filhos, Maury relembra os primeiros passos na carreira musical e fala sobre sua rotina - ou melhor, a falta dela! - de trabalho.

"Comecei a fazer aulas de piano aos 7 anos de idade, com a professora Maria Aparecida Abissamra, uma figura ilustre de Rio Preto, e aos 11 anos ingressei no Conservatório Musical Etelvina Ramos Vianna. O amor pela música veio da minha família, principalmente da parte paterna, de origem libanesa. Cresci em um ambiente que favorecia a paixão e a carreira musical. Em 1994, quando visitei parentes no Líbano, fiquei encantado com uma foto dos irmãos da minha avó: todos tinham um instrumento nas mãos.

Por volta dos 13 anos, passei a ter aulas com o músico Roberto Farah, que me influenciou a gostar de música popular. Ele tinha uma orquestra e tocava nos bailes no Rio Preto Automóvel Clube. Quando terminei o colégio, já tinha desenvolvido o interesse profissional por música. Prestei vestibular e passei num curso chamado Bacharelado em Instrumento na Universidade de São Paulo. Me mudei para a capital paulista e, assim que tinha terminado o curso, resolvi passar um mês e meio em Paris para visitar um amigo. Lá, decidi me inscrever para tentar uma bolsa de estudos de dois anos pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Deu certo! Quando me mudei, morei em um quarto na Maison du Brésil, uma residência de apartamentos para estudantes brasileiros. A adaptação foi tranquila. A estrutura da residência de estudantes me ajudou bastante, lá moravam vários brasileiros que conheciam bem a França ou melhor que eu, em todo caso. Fui me adaptando sem pensar muito nas diferenças, apenas tentando entender como funcionavam as coisas por aqui. Além do mais, vim muito cedo e tinha vivido pouco os problemas administrativos ou de trabalho no Brasil.

Aos poucos, foram surgindo alguns trabalhos e, quando me dei conta, tinha vivido boa parte dos anos 1990 na capital francesa. Foi um período maravilhoso, de muita efervescência cultural. Para se ter uma ideia, tive a oportunidade de assistir a uma aula ministrada pelo escritor italiano Umberto Eco [1932-2016] e de ver um espetáculo comandando pela bailarina alemã Pina Bausch [1940-2009]. Outra chance ímpar aprender com o trabalho do regente Pierre Boulez [1925-2006], um compositor importantíssimo para a minha formação. Na época, os concertos, balés e óperas tinham ingressos a preços bem acessíveis, então eu aproveitei muito. Sem dúvida, além dos estudos que desenvolvia no Conservatório Superior de Paris, tudo o que tive a oportunidade de ver e conhecer me ajudou muito na minha formação.

Além das aulas no conservatório, também me dediquei a cursos de verão em lugares como Avignon, na região da Provença. Entre 2008 e 2009, viajei bastante para o leste europeu a fim de conhecer a cultura e, claro, a musicalidade de países como Polônia, Bulgária, Hungria, Armênia... Nesses lugares, bem diferentes da Europa Ocidental e pouco explorados sob o ponto de vista turístico, percebi uma relação mais informal das pessoas com a música que me inspirou muito.

A respeito dos trabalhos profissionais, comecei bem jovem, tocando em restaurantes em São Paulo. Compus bastante e sempre trabalhei por projetos nas mais diversas partes do mundo, o que me dá mais liberdade e satisfação. Toco piano, principalmente, e também atuo como regente.

Em 2016 lancei meu primeiro CD, 'Portrait', pelo Selo Sesc, totalmente gravado em Paris. Meu último trabalho foi o CD 'Espelho', também pelo Selo Sesc, ao lado do compositor Cristóvão Bastos, gravado no Rio de Janeiro no início do ano e lançado em setembro em plataformas como o Spotify. As 12 faixas, seis de minha autoria e seis de Cristóvão, foram interpretadas pelos cantores Renato Braz, Leila Pinheiro, Áurea Martins e Mariana Baltar. Fizemos alguns shows e o CD físico está em fase de finalização.

Tenho diversos projetos em mente, mas posso adiantar dois que gostaria de concluir. Um é uma peça inspirada na obra da poeta Cecília Meireles [1901-1964] com a interpretação da Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. O outro, sobre o qual não posso dar detalhes por enquanto, é uma ópera.

Meus pais e meus irmãos continuam morando em Rio Preto e viajo para o Brasil sempre que a agenda permite. Não lembro de ter enfrentado nenhum grande problema ou dificuldade. Até ao café eu me acostumei! Mas, confesso, sinto falta do fio dental de marcas brasileiras, acredita? A qualidade é muito superior. E ainda não encontrei nenhum remédio para dor que supere a eficácia do Dorflex.

Já a minha rotina de trabalho é bem flexível e depende muito do projeto em desenvolvimento. Em alguns momentos, me dedico mais a compor. Em outros, a reger. Também varia conforme minha agenda internacional, já que viajo bastante para outros países da Europa e da América do Sul, principalmente como regente. Quando permaneço mais tempo em Paris, meu hobby principal é frequentar concertos, é claro, mas também exposições com a minha mulher, Luciana. Uma bem marcante foi a retrospectiva da carreira do pintor espanhol Miró, no Grand Palais. Gosto bastante de cinema e prefiro as opções mais alternativas, embora não deixe de acompanhar a programação comercial. Moro perto da Torre de Montparnasse, atrás do Instituto Pasteur, e faço vários programas a pé, desde compras até jantar em algum bistrô no Quartier de Montparnasse. Tenho alguns amigos brasileiros, mas que não ficam todo o tempo em Paris, como eu, então os vejo de vez em quando. E, ultimamente, tento encontrar tempo para começar a estudar alemão.

Sempre me perguntam sobre a qualidade musical dos trabalhos de música erudita no Brasil. E, felizmente, posso dizer que ela não deixa nada a desejar em comparação às produções internacionais. A diferença, na verdade, diz respeito ao investimento, principalmente em termos de educação, já que é muito difícil, no Brasil, produzir música erudita fora de uma faculdade. E, além disso, é preciso investir numa política cultural de levar a produção brasileira para grandes centros como Paris, Nova York e Londres, uma iniciativa sempre cercada por grandes dificuldades."

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