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O que estará no prato do brasileiro em 2020?

"Descasque mais e desembale menos" é a máxima dos próximos anos

Se pudéssemos antecipar uma foto do prato do brasileiro em 2020, apareceria na imagem o tradicional arroz com feijão, menos carne e mais alimentos orgânicos, e quase nada de comida processada. Essa é a opinião unânime de nutricionistas e outros profissionais entrevistados pela Vida&Arte, que foram vencedores do prêmio da Fundação Péter Murányi.

Todos os anos, a Fundação premia projetos que visem melhorar a qualidade de vida das populações em desenvolvimento, que tenham abordagem inovadora e aplicação prática com resultados eficazes, sempre alternando as áreas de educação, saúde, ciência, tecnologia. Este ano, o tema é alimentação. As inscrições encerraram em agosto e os nomes dos finalistas serão divulgados em fevereiro de 2020.

A busca por alimentação mais saudável é a opinião unânime entre os especialistas entrevistados. Já existe o crescente interesse pela chamada "comida de verdade", que são os alimentos mais naturais, artesanais, pouco ou nada industrializados. Mas esse comportamento tende a ser mais intenso ainda nos próximos anos.

O professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, Franco Maria Lajolo, que venceu o prêmio Péter Murányi em 2016, falou que a expectativa é a redução da ingestão de açúcar, sal e gordura saturada, "isso por causa da rotulagem nutricional que será obrigatória nos alimentos", disse.

Para a engenheira agrônoma do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Teresa Vale Losada, vencedora do Péter Murányi em 2012, "o prato do brasileiro em 2020 terá o que o mercado permitir", ou seja, escolhas feitas de acordo com o poder aquisitivo das pessoas. Sendo assim, a composição da comida diária dos brasileiros no ano que vem continuará a ser o arroz com feijão, farinha de mandioca, macarrão, ovos e carne, esta última cada vez menos, devido ao preço. Na opinião de Losada, o fator econômico impede que o cuidado com a alimentação mais saudável seja acessível a 100% das pessoas. Mesmo assim, já existe muita gente em busca de comida mais saudável, com menos produtos industrializados, menos açúcar, menos refrigerantes.

"Infelizmente o mercado faz as pessoas acharem que um iogurte vale por um bifinho. Ou que um refrigerante é igual a um copo de água. Para mudar essa tendência é necessário políticas públicas de esclarecimento da população, como introduzir isso no currículo escolar, produtos de boa qualidade baratos e que exijam pouco tempo para o preparo", falou.

Uma prova de que o comportamento do consumidor já está mudando é o relatório Brasil Food Trends 2020, uma pesquisa nacional da Fiesp/Ibope sobre o perfil do consumo de alimentos no Brasil, em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA). Os dados indicam o cardápio do futuro em relação aos impactos provocados por diversos fatores, entre eles a tendência para o saudável e bem-estar, e sustentabilidade e ética. Nesse sentido, o Brasil Food Trends aponta que o cardápio do futuro dos brasileiros terá alimentos da agricultura local, produtos orgânicos, produtos de origem comprovada e produtos processados de forma sustentável, além de saladas, verduras processadas e misturadas, carnes brancas, sopas, sobremesas com ingredientes saudáveis, produtos diet/light, frutas, comida com redução de gorduras, ingredientes funcionais e snacks saudáveis. Ou seja, os brasileiros devem consumir alimentos mais saudáveis, mas que sejam fáceis de preparar.

No consultório da nutricionista Milena Kerbauy Resende Serianni, essa mudança já é realidade. "Antigamente as pessoas buscavam fast food, apenas para matar a fome. Hoje buscam nutrição, querem saber de onde vem o alimento, compram cestas orgânicas, mesmo sendo um pouco mais caras que as hortaliças, frutas e legumes vendidos nos mercados. Na verdade, os valores alimentares é que estão mudando", disse.

A redução no consumo de carnes e o surgimento cada vez maior de pessoas que adotam dietas vegetarianas e veganas também é um fator observado pela nutricionista. "Muitas vezes preciso substituir por outras proteínas, porque a preferência do paciente é não comer carne", disse.

Ela aconselha ainda que não é possível prescrever a mesma dieta para todo mundo. "Mas a dieta mais próxima da ideal, resumindo, é aquela rica em nutrientes, e zero industrializados, enfim, a comida de verdade", aconselha a nutricionista.

Funcionais

Cada vez mais as pessoas estão encarando a alimentação como forma de cuidar da saúde. Alimentos que podem ser utilizados como remédios, para curar doenças ou preveni-las. Nesse sentido, entra no prato do brasileiro em 2020 os alimentos funcionais, que são aqueles ingredientes que oferecem benefícios à saúde, podendo reduzir riscos de doenças como câncer e diabetes, por exemplo.

"Os produtos funcionais e compostos bioativos e suplementos são alimentos que eu visualizo na mesa do brasileiro em 2020", disse o professor da USP, Franco Maria Lajolo.

Para a nutricionista Milena, os funcionais não são apenas uma tendência, o consumo desse tipo de alimento já está acontecendo. "Uma pessoa que está com alguma inflamação, por exemplo, busca produtos anti-inflamatórios. Já chega ao consultório com uma lista de alimentos que pesquisou e que serve para resolver o problema dela", disse.

A Fundação

Péter Murányi foi um empresário húngaro radicado em São Paulo que deixou em testamento a vontade de criar uma fundação que destinasse recursos para a melhoria da qualidade de vida das populações em desenvolvimento. Ele morreu em 1998, aos 83 anos, e um ano depois a Fundação que leva seu nome foi criada. O prêmio Péter Murányi já investiu R$ 2,9 milhões e avaliou 1.580 trabalhos, desde a primeira edição, em 2002.

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