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Comportamento

Solidão pode matar

Estudos mostram que efeito pode ser tão negativo quanto fumar ou beber demais


    • São José do Rio Preto
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Por mais que você possa tentar se convencer do contrário, não dá para viver sozinho. A ciência garante: comprovadamente, a solidão é tão maléfica para a saúde quanto o tabagismo ou o consumo de álcool em excesso. Essa foi a conclusão de um estudo publicado no Plos Medicine, que analisou 148 pesquisas sobre mortalidade em função de relações sociais.

Os pesquisadores da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, avaliaram dados sobre estilo de vida e saúde de mais de 3 milhões de pessoas, todas com menos de 65 anos, e descobriram que viver isolado do mundo, sem contato com ninguém, aumenta em até 32% o risco de morrer prematuramente. É tão perigoso quanto fumar 15 cigarros por dia ou ser alcoólatra ou obeso.

Os cientistas justificam que manter contato com outras pessoas diminui o nível de cortisol, hormônio ligado ao estresse, no organismo. E menos estresse significa riscos menores de doenças cardíacas e derrame. "Precisamos começar a levar mais a sério os nossos relacionamentos sociais. Os efeitos deles são comparados à obesidade, algo que consideramos muito sério à saúde", explica Julianne Holt-Lunstand, uma das autoras da pesquisa.

Os resultados apontaram que pessoas que tinham relacionamentos sólidos e verdadeiros tinham 50% de chance a mais de sobreviver quando comparadas aos mais solitários ou àqueles com relacionamentos superficiais. Portanto, a pesquisa mostrou que o impacto das relações sociais sobre o risco de morte é comparável a outros fatores, como o tabagismo e o alcoolismo.

A solidão é uma reação emocional que surge quando nos sentimos insatisfeitos com os relacionamentos que temos ou simplesmente quando nos sentimos sós. Embora aqui vale uma ressalva: solidão e isolamento social são diferentes. O primeiro pode ser imposto por situações da vida, como uma mudança de cidade ou por uma doença.

“Já a solidão é a sensação de sentir-se só. Então, podemos dizer que o isolamento social pode levar à solidão, mas essa pode ocorrer sem que haja isolamento social, ou seja, mesmo que a pessoa esteja inserida em um grupo, ela ainda pode se sentir só”, explica a psicóloga Ghina Machado.

O que precisamos reforçar é que compartilhar momentos com amigos e familiares tem uma enorme importância para nossa saúde física e mental. Porque, independente do estágio da vida em que nos encontramos, precisamos de proteção, afeto, segurança e suporte. “Ter bons relacionamentos é um dos pilares para ser feliz e viver mais”, diz Ghina.

Risco de depressão

Segundo Ghina Machado, além do impacto na saúde física, a solidão também aumenta o risco de desenvolver a depressão. Um estudo feito pela Universidade de Helsinki, na Suécia, mostrou que pessoas que vivem sozinhas têm 80% mais probabilidade de se tornarem depressivas quando comparadas àquelas que vivem com amigos ou parentes, por exemplo.

A solidão é um estado que traz uma sensação de perda e vazio. Segundo a psicóloga transpessoal e orientadora pessoal Wanessa Moreira, o sentimento pode surgir em um momento onde você olha ao redor, olha dentro de você e tem a sensação de que nada vai te preencher.

 

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o termo "saúde" é definido como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social", e não somente a ausência de doenças. Por isso a importância de se manter longe de um isolamento e, consequentemente, da solidão. E esse é justamente o principal receio apontado pelos entrevistados da pesquisa feita em 2017 pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG-SP), em parceria com a Bayer, com 2,5 mil homens e mulheres brasileiros acima dos 55 anos e que traçou um perfil do brasileiro na terceira idade, identificando alguns de seus principais receios: eles têm medo de ficarem sozinhos à medida que os anos passam.

Sendo assim, apesar da importância de se desenvolver uma independência e dedicar um tempo para si, não se pode deixar de lado o convívio com outras pessoas, como amigos e familiares. Essas experiências trazem ganhos físicos e emocionais da infância à velhice, e também contribuem para o autoconhecimento, além do aprendizado sobre conviver com as diferenças.

"O contato com pessoas diferentes é uma oportunidade de nos conhecermos melhor e nos construirmos ao longo do tempo, além de contribuir também com o desenvolvimento do outro. Por isso, a construção de relações é imprescindível para uma vida saudável e mais feliz. Conviver com grupos de interesse mútuo é trazer vida", explica o cardiologista Carlos Scherr, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).