Vício na palma da mãoÍcone de fechar Fechar

Comportamento

Vício na palma da mão

Já são mais de 4 bilhões de celulares; dependência é comparada ao cigarro


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

No passado, o cigarro era a coisa mais viciante inventada pelo homem. As pessoas fumavam o tempo todo e em todos os lugares. Hoje, a olhar para trás, imaginamos como as pessoas se deixaram escravizar por uma coisa tão antiga. Entretanto, não percebemos que estamos nos deixando escravizar por um aparelhinho que domina o mundo: o smartphone.

Estimativa da sueca Ericsson é de que 4 bilhões de pessoas no mundo tenham um smartphone, o que representa 51,9% da população. E essas pessoas pegam o celular 221 vezes por dia, em média, segundo pesquisa feita pela consultoria inglesa Telemark. O número de toques no aparelho diariamente impressiona ainda mais: 2,6 mil vezes, conforme dados da empresa Dscout Research. Isso significa um vício mais intenso e que atinge um número maior de pessoas que o cigarro.

A chamada nomofobia (abreviatura do inglês "no mobile", ou sem celular, em tradução livre), embora seja comportamental, é uma condição que, para algumas pessoas, causa a mesma sensação de necessidade, fissura e abstinência que a dependência química.

O psicólogo e empreendedor Teuler Reis acredita que é preciso estabelecer limites para o uso da tecnologia. "Não tem como ficar imune ao encantamento provocado pelas redes sociais. A transformação dos meios de comunicação é sem dúvida uma das maiores conquistas da humanidade. Porém a linha que divide o saudável e o doentio ficou tênue quando o assunto é o uso indiscriminado das redes sociais. Até mesmo para os especialistas fica difícil estabelecer o que é saudável. Fato é que uma pequena observação já é suficiente para ver que algo não vai bem. Não há controle", explica.

"Ao mesmo tempo que a tecnologia cria produtos fascinantes, que no passado já foram vistos como impossíveis de serem criados, ela pode também causar prejuízos", explica o psiquiatra Marcel Padula Lamas.

Em 2014, o israelense Nir Eyal, que ficou famoso no Vale do Silício, nos Estados Unidos, após lançar seu livro "Hooked: How to Build Habit-Forming Products" (Viciado: como criar produtos formadores de hábitos, em tradução livre). A obra virou uma espécie de guia para criar aplicativos de celular viciantes, capazes de entender a psicologia do usuário e "sutilmente motivar o comportamento do cliente" e "trazer continuamente o usuário de volta".

Eyal lançou agora um novo livro, considerado o antídoto para o método criado por ele: "Indistractable: How to Control Your Attention and Choose Your Life" (Indistraível: como controlar sua atenção e escolher sua vida, em tradução livre).

O primeiro livro foi lançado, quando um app tipo caça-níquel era algo bom e empolgante e não algo que preocupava. A obra é um método para reverter o vício. E Eyal não está sozinho nessa tentativa de mudança de entendimento. Antigos executivos do Facebook e WhatsApp se tornaram críticos da tecnologia Tristam Harris, que no passado foi responsável pela divisão de ética do Google, e vêm propagando a ideia de que os telefones não são saudáveis e viciam. "Os smartphones são tão viciantes que as máquinas caça-níqueis", diz. E o caça-níquel é o jogo que mais causa dependência. Vicia de três a quatro vezes mais que qualquer outro tipo de aposta.

Entretanto, Eyal acredita que os seres humanos são o problema e não a tecnologia. "Falamos sobre vício, mas quando se trata do Candy Crush, é isso mesmo? Não estamos inalando Facebook ou injetando Instagram na veia", diz ele. "Essas são coisas com relação às quais podemos fazer alguma coisa, mas preferimos pensar no que a tecnologia está fazendo por nós."

No livro, ele traz um guia para libertar as pessoas de um vício que, acredita, elas nunca tiveram. É apenas uma rejeição da responsabilidade pessoal, em sua opinião. De modo que a solução é recuperar a responsabilidade, adotando pequenas atitudes.

"Começaremos a perceber que ficar acorrentado ao celular é um comportamento de baixo prestígio como fumar", escreveu o pesquisador B. J. Fogg, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos.

 

  • Notificações: Em média, recebemos 63,5 notificações de aplicativos todos os dias. Embora a maioria não seja importante, com o tempo, tornam-se um hábito e nos deixam em estado de alerta permanente, à espera da próxima;
  • Recompensa: O psicólogo B.F. Skinner, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, constatou em 1957 que recompensas que surgem de forma irregular, as chamadas inconstantes, eram maus eficientes para condicionar o comportamento dos animais. É justamente o que os smartphones exploram. Quando abrimos um aplicativo, não é possível saber quantas unidades de conteúdo como fotos, vídeos, textos, posts e mensagens irão surgir na tela;
  • Ilusão de controle: Embora os aplicativos tenham a capacidade de atualizar o conteúdo automaticamente, não fazem isso. Em muitos casos, você tem de puxar a tela para baixo e soltá-la para atualização. É como puxar a alavanca de uma máquina caça-níquel;
  • Elementos de jogos: Alguns aplicativos incorporam elementos de jogos que significam navegar mais, clicar mais ou usá-los por mais tempo. Estes nos estimulam a ganhar medalhas, somar pontos ou completar missões. Não existe nenhum benefício concreto. Eles só querem nos prender;
  • Uso de algoritmos: Aplicativos como o Instagram mostram determinados tipos de posts e escondem outros. O algoritmo escolhe o que é mais interessante para cada um. Os critérios usados não são divulgados e você não fica sabendo o que deixou de ver. Assim, é criada a compulsão de usar mais para não correr o risco de perder nada importante.

 

O vício em redes sociais é identificado quando uma pessoa tem a necessidade de checar e/ou interagir em sites ou aplicativos a todo momento. Quando o acesso às redes como Facebook, Instagram, Twitter ou WhatsApp é impossibilitado por qualquer razão, o indivíduo pode sentir frustração e ansiedade demasiada.

"Há diversas questões pessoais que levam alguém a ser mais dependente que as demais de suas redes sociais ou outros tipos de sites", diz o psiquiatra Marcel Lamas. O tratamento pode incluir psicoterapias e psicofármacos que podem ser utilizados. Em casos mais graves, podem ser necessárias até internações para, de forma semelhante à dependência de drogas, abster o paciente do uso da internet.

Pesquisa recente encomendada pela Motorola à Ipsos ouviu 20 mil brasileiros e revelou que 41,52% têm dependência do smartphone e usam o aparelho todo dia, desde a manhã até antes de dormir, e olham a tela por impulso.

Só 5,56% usam o telefone apenas para o básico, como ver a hora e fazer ligações. A pesquisa inteira contou com participação de entrevistados de quatro países. Outros comportamentos ruins detectados globalmente foram verificação compulsiva (49%), tempo demais no celular (35%) e superdependência emocional (65%).