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Painel de Ideias

O filho do meu filho

De todas as boas emoções que a vida reservou até aqui, a expectativa de ganhar um neto deixa todas as outras debaixo do chinelo. Deve ser assim com todo mundo. Não há um avô ou avó que não me fale que eu vou enlouquecer: mais? Será que tem cura?


    • São José do Rio Preto
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A cena tem se repetido nos últimos meses. A primeira a entrar na sala é ela, a mãe. Em seguida, ele, o pai. A mãe da mãe é a terceira e eu, a mãe do pai, encerro o grupo. Fico ali, imaginando qual melhor lugar para me posicionar e não perder nada do que irá acontecer. Preciso me comportar e não falar muito, palpitar menos ainda. Autocontrole. A mãe já está na maca. Todos nós aguardamos o doutor que chega e já percebe a lotação do recinto. Tento ser a mais calma possível, discreta, frear a ansiedade que grita em meu peito de "vó" de primeira viagem.

Na sala escura, começa o exame de ultrassom na barriga da mãe, no caso, a nora. Ruídos, chiados e uma tela em preto e branco captam sinais, tentam estabelecer contato com a estrela do lindo espetáculo. E eis que ele sempre surge, ma-ra-vi-lho-so, pleno, em seus 6 cm, depois 12, 18 cm (quase um moço) e com seus 20, 60, 100, 173 g. Desde que tinha o tamanho de um grão de arroz, o coração era ligeiro. E a cada mês, novo exame, fica mais forte e rápido. E o meu quase para de emoção. Observo meu filho observando o filho dele na telinha. Olhos fitos num amor que ele está descobrindo agora. Observo a nora a se derreter de paixão por ele, o meu bebê. Ops, o bebê dela. Preciso me controlar. Observo a mãe da futura mamãe. Ela tem um olhar zeloso e extremado para a filha gestante, uma cumplicidade que não conhecerei, posto que só tive homens. Um olhar rosa para a filha que agora será mãe. Sintonia de mulheres.

De todas as boas emoções que a vida reservou até aqui, a expectativa de ganhar um neto deixa todas as outras debaixo do chinelo. Deve ser assim com todo mundo. Não há um avô ou avó que não me fale que eu vou enlouquecer: mais? Será que tem cura? A espera do primeiro neto leva meu olhar para o recém-inaugurado outubro, mês das crianças. Leva minha alma a desejar que todos os netinhos que estão prestes a desembarcar neste mundo sejam também desejados, esperados, amados. Que haja espaço e tempo para essas crianças no coração e na vida de seus pais. Que haja correção, disciplina e zelo. Segurança e sabedoria. Doçura e energia. Provisão e compromisso. Respeito e decência. Responsabilidade e generosidade. Que são as bases do plano, da estratégia para se criar filhos realizados, felizes e dignos.

A espera do neto leva minha alma a desejar que a vida no Brasil melhore para as crianças. O Brasil é um lugar muito difícil, péssimo para as crianças. É de quebrar o coração, e todos sabem disso, o quanto sofrem nossas crianças. É desesperador, cruel. Temos muito que fazer por elas, para elas e com elas. Ao contrário de tantos adultos, crianças têm salvação e são a salvação do porvir. Por isso que desde o primeiro ultrassom, o Vicente piscou pra mim e sapecou: "vó, vou deixar sua vida bem mais legal, topa?". Completamente arrebatada de amor, eu topei.