Muros invisíveisÍcone de fechar Fechar

artigo

Muros invisíveis

Tem muita gente lucrando com o abismo afetivo que existe entre a região central e os bairros mais distantes


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

"A gente vive a cidade todos os dias e o dia todo, todos os habitantes. E, no entanto, são muito pouco conhecidas as forças que dominam e controlam as cidades." (Ermínia Maricato - Urbanista, professora da USP)

A cidade está em constante movimento e transformação. Ela é pulsante e conflituosa. Essa relação dialética a mantém em disputa permanentemente. Nem sempre conseguimos enxergar os conflitos que movem a metrópole. Mas sempre conseguiremos sentir os desdobramentos desses conflitos e infinitos interesses.

Quando uma área é incluída dentro do perímetro urbano, por lei aprovada na Câmara e sancionada pelo prefeito, nem sempre é possível desvendar os caminhos percorridos para a aprovação dessa lei. Mas quem for morar nessas áreas bem distantes logo perceberá os efeitos dessa ação política.

A segregação muitas vezes não é sentida por aqueles estabelecidos nas regiões privilegiadas da cidade, mas ela arde na pele de quem vive apartado dos bens e qualidades que a cidade pode oferecer.

Quem paga saúde privada pouco sabe das condições das UPAs, UBSs e outros aparelhos públicos. Mas quem depende do SUS sente na pele a negligência e desleal opção política pela desestruturação da rede de saúde pública - e automático fortalecimento do sistema privado de saúde.

A gente pouco reflete sobre a vergonhosa e criminosa epidemia de dengue na cidade, mas todos nós sangramos quando uma vida é derrotada por um mosquito. Isso deveria pesar na consciência de quem administra a cidade. No entanto, como a consciência governamental é mais privada do que pública, continua leve.

Os bons ventos, a energia do sol, a contemplação do cidadão misturada ao verde são privilégios daqueles que acessam as áreas frescas e bem cuidadas da cidade. Mas o calor denso e a solidão escaldante continuam a derreter esperanças em uma periferia sem árvore, sem praça, sem arte, sem esporte.

A cidade é de todos, mas nem todos sabem disso. O ano que se avizinha é uma grande oportunidade para refletir a cidade e combater o analfabetismo urbanístico.

Desnudar os interesses que movimentam a cidade pode ser o despertar da consciência daqueles que devem e merecem usufruir de tantas coisas boas que nossa cidade pode oferecer para todos que a constroem.

A segregação é devastadora por natureza. Dizer que ela é apenas uma fatalidade urbanística é ingenuidade ou má fé que se camufla de uma isenção covarde e alienadora.

A segregação é um projeto daqueles que lucram com a especulação do vazio urbano. Tem muita gente lucrando com o abismo afetivo que existe entre a região central e os bairros mais distantes.

O pior efeito é o arrefecimento da empatia entre iguais, causado pela segregação urbana. Com exceção dos donos de bancos e dos grandes meios de produção, todos são trabalhadores, todos vivem na cidade e vendem sua força de trabalho, mas a tragédia da segregação urbana nos separa em termos geográficos, sociais, culturais e afetivos.

Em tempos de obscurantismo e intolerância, devemos lutar por uma cidade sem muros, visíveis ou invisíveis.

JOÃO PAULO RILLO

Ex-deputado estadual; Rio Preto