Diário da Região

08/10/2019 - 11h06min

NO DIVÃ

Antropologia do afeto

O apego, nosso amor primitivo, é largamente responsável pelo nosso avanço biológico

Pixabay/Banco de Imagens

Amor dói. É coisa nervosa, assunto bandido. Não o amor romântico, aquele que dá certo, o eu-gosto-de-você-e-você-gosta-de-mim. Esse é diamante, difícil de encontrar, nunca sabemos se ele acontece ou é lapidação...

Digo esse amor que é apego, dependência, ao mesmo tempo necessidade e rejeição. Amor que nem gostamos que chame amor, queríamos tratá-lo como interesse, só para ofender quem necessitamos tanto. Injuriados que somos de gostar de quem não cede aos nossos desejos!

Se não atende nossas expectativas, não nos compreende, não está satisfeito com o que somos ou fazemos e não elogia... Odiamos esse amor. Queríamos simplesmente virar as costas para ele e desprezá-lo, e não conseguimos. Pura dor, alguns piram.

O apego, nosso amor primitivo, é largamente responsável pelo nosso avanço biológico. Basta que observemos que as baleias, macacos e cachorros não alimentam os filhotes por toda a vida ou visitam a sogra aos finais de semana. A rede de contato afetiva é estreita, bastante simplificada, os recursos mentais que desenvolveram passam longe de querer impressionar o chefe ou aprender várias línguas para se comunicar com outros semelhantes.

Esse apego desenvolvido marca a nossa evolução. O homem pré-histórico, ao passar a enterrar os mortos, evolui e chama-se sapiens agora. Acho perfeita a associação da sapiência, a sabedoria, com o apego e consideração ao outro.

É fato que sofreremos por amor e teremos apego profundo pelos que estão ao nosso lado, sentiremos falta do contato daqueles que não permanecem mais conosco, mas se dedicaram de alguma forma a nós. Teremos compaixão pela perda de um filho, seja pelo ser humano mais distante de nós na face da terra, e a isso demos o nome de hominização - o que nos fez humanos.

Se fomos obrigados a ter uma convivência mais estreita, nos aninharmos em torno do fogo, hoje escolhemos com critérios sofisticados quem escolhemos para viver próximos a nós. Temos redes sociais e satélites usados, não para desvendar riquezas subterrâneas, e sim para que não percamos nenhuma chamada do celular. Facebook para todas as horas.

O marketing tira enorme proveito desse conhecimento. Elegemos o candidato que demonstra enorme respeito pela família e abraça criancinhas nas propagandas eleitorais, até hoje! Não compramos uma casa pelo material que foi ali investido, e sim a ideia de uma família feliz naquele local. As propagandas infantis dizem: "compre isso e você vai ser legal..." A indústria apela sem nenhum constrangimento e fatura em cima do nosso apego-amor-necessidade.

Mas, se ele é tão importante e garantiu que evoluíssemos, por que lutamos tanto contra esse sentimento? Por que nos faz tão frustrados?

Detestamos nos sentir frágeis diante do outro. Só os muito fortes emocionalmente se permitem.

Inúmeras vezes desejei e algumas me permiti rir da ingenuidade dos que decidem nunca mais gostar de ninguém. A biologia, como sabemos, trabalha pela biologia, sobrevivência e preservação da espécie - nunca pelo conforto e bem-estar de alguns. Amamos, querendo ou não. Como disse Callegaris: "O Amor não está nem aí para nós, ele acontece."

O que seria uma grande contribuição para a sociedade é que o ser humano lidasse melhor com a rejeição e tivesse maior versatilidade pessoal, entendesse e manejasse melhor suas carências. Se pedíssemos com mais clareza pelo amor que necessitamos, certamente menos dor, crimes e abandonos seriam cometidos... pela dor da rejeição.

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Diário da Região. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Diário da Região poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Di´rio Im&ocute;veis

Di´rio Motors

Diário da Região

Esperamos que você tenha aproveitado as matérias gratuitas!
Você atingiu o limite de reportagens neste mês.

Continue muito bem informado, seja nosso assinante e tenha acesso ilimitado a todo conteúdo produzido pelo Diário da Região

Assinatura Digital por apenas R$ 1,00*

Nos três primeiros meses. Após o período R$ 19,00
Diário da Região
Continue lendo nosso conteúdo gratuitamente Preencha os campos abaixo e
ganhe + matérias!
Tenha acesso ilimitado para todos os produtos do Diário da Região
Diário da Região Digital
por apenas R$ 1,00*
*Nos três primeiros meses. Após o período R$ 19,00

Já é Assinante?

LOGAR
Faça Seu Login
Informe o e-mail e senha para acessar o Diário da Região.
Esqueci minha senha
Informe o e-mail utilizado por você para acessar o Diário da Região.