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PÓS-USO

Fiscal usa cartões clonados e carros fantasmas em fraude na Área Azul

Funcionária usava cartões de créditos clonados para pagar taxas e ficar com dinheiro vivo de motoristas, de acordo com a Emurb, que a denunciou à polícia e já afastou a servidora


    • São José do Rio Preto
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Fiscal da Área Azul em Rio Preto foi detida na manhã desta quarta-feira, 30, pela Polícia Civil, durante investigação na qual ela é suspeita de fraude no aplicativo Estacione Digital. Após sete horas de depoimento, ela foi liberada. A fiscal foi afastada do cargo nesta quarta. A princípio, o prejuízo apurado foi de R$ 1 mil.

O esquema era direcionado a motoristas que não usam o aplicativo Estacione Digital, mas os cartões ou impressos instantâneos, e tinham extrapolado o prazo. Nesses casos, o motorista tem a opção de pagar, pelo aplicativo e em pontos cadastrados, a taxa pós-utilização, que varia de R$ 12 a R$ 18, evitando multa. Era aí que entrava o esquema. A mulher recebia em dinheiro e, para dar ares de legalidade à operação, utilizava cartões de crédito clonados para pagamento via aplicativo de taxa pós-uso do interessado, com saldos cadastrados em placas de carros "laranjas" - transação cancelada antes da data de vencimento dos cartões.

A fiscal e seu marido prestaram depoimento por cerca de sete horas ao delegado do 3º Distrito Policial de Rio Preto, Laércio Ceneviva. Segundo o delegado, ambos foram indiciados por estelionato. O crime prevê pena de um a cinco anos de prisão, em caso de condenação.

Logo pela manhã, a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão na casa da fiscal e também buscou documentos na Emurb. Na casa dela foram apreendidos celulares, caderno com anotações, e um notebook. "Eles faziam a compra de créditos com cadastros falsos. Analisamos celulares e anotações e vimos que recebiam cadastros e também grupos de falsários", disse. Segundo o delegado, ela confessou a fraude. A polícia irá analisar se pede à Justiça bloqueio de um veículo do casal. O carro, zero quilômetro, chamou atenção da polícia. A fiscal recebe cerca de R$ 1,3 mil por mês e seu marido, R$ 1,4 mil, segundo foi informado à polícia nesta quarta. "Ela fazia a compra de créditos obtidos fraudulentamente e recebia em dinheiro", resumiu o delegado.

O esquema foi detectado pela própria Emurb, de acordo com o presidente da empresa pública, Rodrigo Juliano. Estavam sendo efetuados pagamentos de pós-utilização por um único usuário, afirmou. O caso foi comunicado à polícia há 15 dias.

A fiscal, Giovana Lucimara Verdelbi, foi contratada em 2014 e já havia sido demitida da Emurb (leia ao lado). Ela voltou ao cargo por decisão da Justiça do Trabalho. Seu marido, Bruno Gaspare, também é investigado.

De acordo com dados da Emurb, a fiscal emitiu 96 taxas pós-uso, quantidade que chamou atenção. Foram solicitados à Empro, que desenvolveu o aplicativo, os detalhes de três cadastros de usuários. Com isso foi verificado que as emissões dessas taxas foram feitas pela fiscal e o pagamento por meio de saldo de banco de horas de aplicativo que teria sido cadastrado por ela e o marido em nome de outras pessoas. Três cadastros estão em suspeita, um deles com mais de 30 veículos que seriam "fantasmas". O pagamento dessas horas, no entanto, era feito por meio de cartão de crédito clonado, que eram cancelados próximo à data da fatura.

De acordo com o presidente da Emurb, os fiscais não devem receber dinheiro da taxa de pós-uso. A Emurb detectou que havia caso em que o saldo da taxa pós-uso foi utilizado com dados do veículo do marido da fiscal.

O delegado Ceneviva disse que entrou em contato com uma das pessoas que tiveram dados utilizados no esquema. "Contactamos uma pessoa que é funcionária pública federal, que tinha perdido seus documentos".

Técnicos da Emurb e da Empro, responsável pelo desenvolvimento do aplicativo, afirmaram nesta quarta que o aplicativo Estacione Digital é seguro, apesar da fraude envolvendo a fiscal da Área Azul. De acordo com presidente da Emurb, Rodrigo Juliano, este foi um caso isolado. "Importante frisar que não houve vazamento de dados de nenhum usuário do sistema. Não ficamos com dados de cartões de crédito dos usuários", afirmou.

"Hoje temos 40 mil usuários cadastrados utilizando o aplicativo de forma coerente. Essa foi uma situação que tínhamos de coibir e vamos coibir sempre diante de nossa estrutura de segurança. Detectamos situações anormais e repassamos à polícia", disse o presidente da Emurb, que convocou entrevista coletiva depois que a polícia levou a fiscal e seu marido para prestar depoimento.

"Os dados de cartões não ficam cadastrados em nosso ambiente. Quanto aos usuários cadastrados na nossa base de dados, isso é criptografado de ponta a ponta. Então, não tem como vazar. O que ocorreu foi fraude mediante utilização de CPF válido, com clonagem. Isso não tem relação com o sistema", afirmou o diretor de tecnologia de desenvolvimento da Empro, Domingos Corrêa.

De volta

A fiscal chegou a ser demitida da Emurb na gestão passada e retornou as atividades por decisão da Justiça do Trabalho, no ano passado. O Diário não conseguiu contato da fiscal. Seu advogado no processo da Justiça do Trabalho disse que desconhecia a ação desta quarta da polícia.

(Colaborou Rone Carvalho).

Pós-uso

  • Emurb detectou, por meio do aplicativo desenvolvido pela Empro, que três usuários utilizavam créditos de horas da Área Azul para pagar taxa-pós utilização, que evita multa de trânsito
  • A fiscal investigada emitiu 96 taxas de pós-uso e recebeu dos motoristas em dinheiro, segundo a Emurb; ela pagava a taxa com saldo de horas obtidos com dados de terceiros, com cartões de créditos clonados
  • Prejuízo ficou em cerca de R$ 1 mil, segundo a polícia, mas inquérito irá apurar se valor é maior
  • Emurb afirma que aplicativo é seguro e que a taxa pós-uso não deve ser paga a fiscais