Diário da Região

03/10/2019 - 11h19min

EM SÃO PAULO

Tarcísio Meira volta aos palcos com 'O Camareiro'

Em 2015, quando estreou a primeira temporada, o ator ganhou o prêmio Shell pela sua atuação

Divulgação Tarcísio Meira volta a encenar 'O Camareiro' após hiato de três anos
Tarcísio Meira volta a encenar 'O Camareiro' após hiato de três anos

No limite de suas forças, o velho ator interpreta com dignidade e verossimilhança os dramas do Rei Lear, um dos mais complexos personagens de William Shakespeare. "Sua mente já está embaralhada e ele se confunde, assumindo como suas algumas das falas de Lear, o que torna ainda mais intrigante sua fragilidade", comenta, com imenso carinho, Tarcísio Meira que, a partir do dia 18, reassume o papel daquele homem, protagonista da peça "O Camareiro", que retorna, agora no Teatro Faap.

Em 2015, quando estreou a primeira temporada, Tarcísio ganhou o prêmio Shell pela sua atuação. A honraria o convenceu a retomar o espetáculo, agora como produtor, depois de adquirir os direitos que pertenciam a Kiko Mascarenhas, ator com quem dividia o palco. Aliás, o envolvimento da dupla é essencial para o sucesso da peça.

A trama de "O Camareiro" se concentra na relação de um veterano ator, identificado apenas como Sir (Tarcísio), com Norman (Cassio Scapin), seu obstinado criado. A peça começa quando a Europa vivia um momento delicado: durante a Segunda Guerra, mesmo com Londres sob ameaça constante de bombardeios, uma companhia de teatro shakespeariano insiste em permanecer em cartaz, encenando uma vez mais a desafiadora peça Rei Lear.

Falta uma hora para as cortinas se abrirem, mas Sir está internado em um hospital, à beira de um colapso nervoso. Parte da trupe defende o cancelamento da apresentação, mas Norman segue determinado a manter a encenação, crente que o veterano ator chegará em tempo. "Sua vida está fugindo e Sir tem consciência disso", comenta Tarcísio, que completa 84 anos no sábado, 5, idade que o torna mais íntimo dos problemas do personagem. "É lindo vê-lo enfrentar as dificuldades e confesso que sinto muita pena de ele se esquecer dos textos."

O título de Sir caberia bem a Tarcísio Meira - um dos maiores galãs de sua geração, marcou época especialmente na televisão, moldando o perfil do mocinho de folhetim ao somar mais de 50 papéis entre telenovelas, minisséries e seriados, desde "2-5499 Ocupado" (1963), na Excelsior, a primeira novela diária da televisão brasileira, até a recente participação em "Orgulho e Paixão" (2018). Ele não pisava no palco desde 1996, quando encenou "E Continua... Tudo Bem" ao lado de Glória Menezes, sua mulher desde 1962.

"Mesmo assim, não aprendi a não ficar nervoso, nem a perder o fôlego", brinca ele, cujo sorriso tornou-se um símbolo da TV.

"Tarcísio é um eterno curioso, pesquisador. Agora que conhece bem o papel, faz algumas experiências a fim de se renovar", comenta Ulysses Cruz, que assina a direção de "O Camareiro". "É muito interessante acompanhar como ele constrói o papel, buscando diferentes posturas, distintas inflexões de voz."

Escrita em 1980 pelo britânico Ronald Harwood, a peça pede, de fato, um intérprete solene - na versão para o cinema, por exemplo, dirigida por Peter Yates em 1983, Sir foi vivido por Albert Finney e, no telefilme exibido pela BBC em 2004, o papel foi defendido por Anthony Hopkins. "Há um cavalheirismo natural nesse personagem, capaz de dar um colorido a frases irônicas como a dita por Sir, quando contrariado pelos ataques alemães", lembra Cruz, recitando, em seguida, a fala: "O senhor Hitler está dificultando muito as companhias shakespearianas".

A chegada de Cassio Scapin mudou o tom da montagem, percebe o diretor. "Apesar de grande comediante, Kiko Mascarenhas era mais dramático como camareiro, enquanto Cassio transformou Norman em um homem mais bem-humorado. Com isso, mudou também a forma de relacionamento entre o criado e o patrão, creio que ficou mais apaixonado."

O drama de Sir, aliás, ganhou novos contornos quando, no momento atual, a arte vive sob suspeita. Quando o ator foge do hospital e volta para o teatro, a situação torna-se crítica. Bombas caem nas redondezas, sirenes de prevenção a ataques aéreos berram angustiadas e Sir, mais confuso que nunca, duvida, pela primeira vez, se deve entrar em cena. Norman, no entanto, passa a persuadi-lo de que a arte deve se sobressair, independentemente das intempéries. "É um exemplo de resistência", diz Tarcísio.

"Norman é fascinante porque é um artista que encontrou seu lugar no teatro", comenta Scapin. "E não é o de atuar, mas o de servir. E, nessa função, ele exerce o pequeno poder, revelando seu lado humano."

O CAMAREIRO. TEATRO FAAP. RUA ALAGOAS, 903. TELEFONE: 3662-7232. 6ª E SÁB., 21H. DOM., 18H. R$ 100 / R$ 120. ATÉ 15/12

Peça já inspirou dois filmes

Ronald Harwood ganhou notoriedade mundial quando sua peça "The Dresser" (1980) foi adaptada para o cinema em 1983, com direção de Peter Yates - com Albert Finney como o velho ator chamado de Sir e o fiel camareiro vivido por Tom Courtenay, o longa recebeu cinco indicações para o Oscar, mas não faturou nenhum. Na verdade, ele só ganharia uma estatueta pelo roteiro adaptado de "O Pianista", longa dirigido por Roman Polanski em 2002.

O enredo de "O Fiel Camareiro", como o filme se chama no Brasil, é baseado em experiências pessoais de Harwood, que foi, de fato, ajudante de um ator e empresário inglês, Donald Wolfit, modelo para o personagem Sir. Tanto a peça como suas versões filmadas reforçam a dedicação desmedida de Norman pelo velho ator.

"No final de uma tumultuada carreira, Sir percebe que não tem amigos, foi um tirano; as pessoas tentaram amá-lo, mas nada funcionou", comentou Anthony Hopkins, que interpretou esse personagem no telefilme rodado pela BBC em 2004 - Ian McKellen viveu o camareiro. "Então, ele estabelece que, um dia, encontrará seu apogeu. Em meio ao colapso, ele é conduzido ao palco e ali ocorre o momento divino, e Sir compreende: 'Eu cheguei lá. Cheguei lá."

Com uma sólida tradição no teatro inglês, Hopkins entende com perfeição a seriedade com que se trabalham os textos de Shakespeare na Inglaterra. Rei Lear, por exemplo, que ocupa um momento crucial de "O Camareiro", foi interpretado por Hopkins precocemente, nos anos 1980, como ele mesmo reconheceu, quando habitualmente é um dos últimos papéis vividos por um ator.

"Somente agora tenho consciência disso", reconheceu ele, em entrevista ao Los Angeles Times em 2016. "Eu era jovem demais para o papel, mesmo assim quis tentar. Seja pela falta de paciência, na minha vida pessoal, porque quaisquer que sejam as nossas convicções, nós somos aceitos e amados por aquilo que somos e não por aquilo que poderíamos ser. Não podemos ser tudo. Somos o que somos, com nossos defeitos, pecados e virtudes. Também cometemos erros e, por fim, você pensa: bom, é isso aí. Fiz o melhor que pude. É disso que ele se dá conta no fim."

O curioso é que a trama é ambientada na Segunda Guerra Mundial, época em que o ator que inspirou Sir, Donald Wolfit, não era um homem de idade, com problemas físicos e de memória, mas um senhor próximo dos 40 anos e no melhor de sua saúde.

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