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LUTO

Milton Verderi, o artista e suas histórias

Ator, diretor, dramaturgo e fundador do Grupo Kahlos morreu na noite de segunda-feira, 30, aos 50 anos


    • São José do Rio Preto
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Uma das figuras mais icônicas da cena cultural rio-pretense, o ator, diretor e dramaturgo Milton Ferreira Verderi morreu, na noite de segunda-feira, 30, aos 50 anos. Figura de temperamento forte e de uma imensa bagagem cultural, ele leva consigo suas infinitas histórias. Eram por meio delas que generosamente compartilhava seus conhecimentos sobre teatro, artes e cultura. Não há artista ou pessoa que prestigia os eventos culturais da cidade que não tenha aprendido um pouco mais com os relatos de suas experiências - alguns deles, de tão fantásticos, desafiavam o limite entre realidade e ficção.

Por meio do Grupo Kahlos, companhia teatral que fundou juntamente com a atriz Vanessa Cornélio, Verderi marcou o teatro rio-pretense com montagens e performances que evidenciavam seu profundo conhecimento sobre as artes. A mais emblemática delas foi "Kahlos - Um Exercício Cênico", espetáculo baseado no diário de Frida Kahlo (1907-1954), que, na cena, era interpretada por Vanessa, uma artista que, devido à sua condição de cadeirante, se identificava muito com a trajetória da pintora mexicana.

"Conheci o Miltinho por causa de um sonho em comum: montar uma peça sobre a vida de Frida Kahlo. Não teria realizado o meu sonho se ele não tivesse abraçado a ideia. Comungamos juntos desse sonho. Na sala de ensaio, era uma figura incrível, um diretor intenso e sempre generoso. Para mim, é um ser humano especial, não vemos muitos iguais a ele por aí. Toda a bagagem cultural que tinha, ele distribuía generosamente para as pessoas. Miltinho foi muito importante para eu descobrir a atriz que sou", declarou Vanessa, que apresentou "Kahlos - Um Exercício Cênico" ao longo de cinco anos, marcando presença em eventos importantes como o Festival Internacional de Teatro de Rio Preto e a mostra Satyrianas (São Paulo).

Por meio do Grupo Kahlos, Verderi dirigiu e atuou na peça "Erasmus", adaptação do livro "Elogio da Loucura" (1511), de Erasmo de Roterdão; e nas performances "Ezra/Artaud - Um estudo paradoxal", "Madame Daberdat" (inspirada em conto de Jean Paul Sartre) e "Fedra Desmembrada" (a "Fedra", de Jean Racine).

Como ator, Verderi participou de montagens de diferentes companhias de Rio Preto. Entre seus trabalhos, destacam-se duas atuações dirigidas por Ricardo Matioli: "Melodrama" (2009), pela Cia. Palhaço Noturno, e "Doutrolado" (2010), pela Cia. Girasonhos. "Igual a ele não teremos mais. Era um cara singular, dinâmico, amigo, prestativo. Era um louco, no sentido mais genial da palavra", disse Matioli em entrevista durante o velório de Verderi, que foi enterrado no final da tarde de terça-feira, 1, no cemitério Jardim da Paz.

Na tradicional Paixão de Cristo encenada na Basílica de Rio Preto, Verderi marcou os últimos cinco anos com sua impecável interpretação de Caifás. "O convidei para um papel complexo. Caifás. Alguns foram contra. Houve sim, relutância. Tudo devido à sua inflexibilidade. Eu sabia onde estava pisando. Como diretor, é preciso assumir riscos. Ao final da apresentação, me senti um verdadeiro rato de teatro que sabe onde o fio da ribalta se esconde. Todos tiveram que concordar com as vozes que ressoavam na plateia: 'O espetáculo deveria chamar-se 'O ódio de Caifás'. Rimos muito sobre isso", relembrou o ator e diretor Linaldo Telles, em publicação feita no Facebook.

Seu último trabalho como ator foi na peça "Peixe", dirigida por Tauã Teixeira, que estreou no início deste ano. Em cena, ele interpretava a passageira de um navio de alta classe retratada no poema "Y los peces salieron a combatir contra los hombres", da poeta, dramaturga, atriz e diretora catalã Angelica Liddell, considerada uma das mais importantes performers da atualidade.

"['Peixe'] Foi nosso primeiro trabalho juntos. O Miltinho já estava com bastante dificuldade para decorar texto, proveniente dessas múltiplas lesões neurológicas que depois foram descobertas. Mas, ainda assim, sempre se mostrou perseverante e determinado, extremamente dedicado ao ofício do teatro, como sempre foi sua vida toda", destacou Teixeira ao Diário da Região.

Outra faceta de Verderi que deixará saudades é a de DJ Set, algo que fazia desde os tempos da Mostra Nacional de Teatro de Rio Preto, no bar cultural que funcionava em uma tenda montada no fundo do Teatro Municipal "Humberto Sinibaldi Neto". Mais recentemente, era responsável pelos projetos "Brasileirando" e "Funktionality", em que mostrava um profundo conhecimento sobre a música do Brasil e do mundo.

Nenhuma saudade será maior que a de sua mãe, Duda, de 83 anos, que sempre acompanhou os passos do filho na seara das artes, até mesmo quando ele esteve longe, morando na Inglaterra. Seu maior consolo é poder ver o quanto seu filho marcou a vida das pessoas de forma positiva, sendo sempre lembrado por sua bagagem intelectual.