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Maria Valéria: 'mulheres escrevem sobre tudo'

Vencedora do Jabuti nas categorias romance e literatura juvenil, escritora homenageada na 9ª edição do Fliv participa de bate-papo com o público nesta segunda-feira, 21


    • São José do Rio Preto
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Uma das escritoras contemporâneas mais talentosas e premiadas do país, Maria Valéria Rezende, 77 anos, foge aos esteriótipos de alguém do “mundo das letras”. Mulher, feminista, freira missionária e vivendo fora eixo cultural do país. Nascida em Santos, ela atualmente vive em João Pessoa, capital da Paraíba, onde trabalhou em projeto voltado à Educação Popular. É também uma das responsáveis pelo maior movimento literário feminino do país, o “Mulherio das Letras”, que em 2019 chega a sua terceira edição.

Autora dos romances "Quarenta dias", vencedor do Jabuti em 2015, e “Outros cantos”, que em 2017 recebeu ficou em 3º lugar na mesma premiação é uma das homenageadas do Fliv 2019. Ela participa de uma sessão de bate-papo com o público nesta segunda-feira, 21, para falar sobre a trajetória literária e lançar seu romance “Carta à rainha louca”, publicado em abril deste ano pela Companhia das Letras e que foi concebido depois de três décadas de pesquisa.

Apesar do prestígio, se diz uma pessoa simples e bastante “A minha casa tem três portões que dão para três ruas diferentes. É a casa mais fácil de se chegar e se entrar”, brinca. Passou a publicar livros de ficção às vésperas de completar 60, em 2001, mas defendo que sempre foi escritora. Apenas o público era diferente.

Formada em Língua e Literatura Francesa, Pedagogia e mestre em Sociologia, ela atuava na formação de educadores em diferentes regiões do Brasil, inclusive no exterior.

Diário da Região - Em que momento da sua vida que você passou a se dedicar à Educação Popular. Foi algo que sempre quis fazer?

Maria Valéria – Meu pai era médico e minha mãe era uma artista. Eles já tinham muitas relações com várias comunidades populares. Meu pai era chefe de uma enfermaria na Santa Casa, na época não tinha SUS e aos sábados e domingos ele ia visitar as comunidades. Quando eu aprendi a ler, meu pai me levava com ele e dizia: ‘olha, leve livros de história para você ler para as crianças de lá, porque eles não sabem ler e nem tem livros’. Esse tipo de coisa foi sendo entranhado na minha vida desde sempre. Depois, no colégio em que eu estudava, as irmãs tinham um trabalho no litoral de São Paulo todinho, que naquele tempo era quase inacessível. Elas faziam todo um trabalho de educação de base e eu, já com 12 anos, comecei a ir no tempo de férias nessas caravanas para trabalhar com o povo. Era uma coisa que me apaixonava e toda vida fiz isso.

Diário da Região - Como o contato seu contato Paulo Freire influenciou na sua trajetória como educadora?

Maria Valéria – Eu era estudante no final dos anos 50 e começo dos anos 60 quando ele começou a ficar mais conhecido com a experiência que teve no Rio Grande do Norte. Eu estava morando e estudando no Rio de Janieor quando ele foi chamado para organizar o Plano Nacional de Alfabetização, que foi abortado pelo Golpe de 64. A gente tinha muito contato, porque ele contava muito conosco, pois a ideia era contar com os estudantes para serem alfabetizadores no País. Estávamos muito envolvidos com isso. Depois, quando ele voltou do exílio, um dos primeiros lugares que ele visitou foi em Guarabira (PB), onde a gente tinha montado todo um serviço de educação popular. Ele ouviu falar daquilo e foi lá ver.

Diário da Região - Sua experiência com comunidades mais humildes e periféricas auxiliaram na construção da sua visão de mundo? De que forma?

Maria Valéria – Eu ouvi muito mais do que falei, com o povo. Com a intervenção da Educação Popular é o educador educando. O educador tem que ser educado pelo povo para poder dialogar com eles e juntar tipos de saberes diferentes. Parte daquilo que é a riqueza do povo, seu conhecimento, sua experiência, que é imensa. Coisas que os intelectuais muitas vezes não têm noção. As pessoas dizem que eu comecei a escrever com quase 60 anos. Não, eu escrevi a minha vida toda, só que eu escrevia para eles e não para publicar e ser considerado escritora pelas outras pessoas. Eu digo muito que não sou autora das coisas, eu sou autora da forma final, mas eu me alimento de tudo que eu vi e ouvi a vida toda. Sem querer e por acaso eu acabei publicando obras de ficção e é ficção até certo ponto. Porque eu tento mostrar o que eu vi.

Diário da Região – Suas obras são construídas com base em um cunho social?

Maria Valéria – Eu só sei falar do que eu conheço. Vivi a vida toda enfiada nesse mundo popular, então é disso que eu falo.

Diário da Região - Como surgiu o movimento Mulherio das Letras e, no seu ponto de visto, qual a importância desse movimento?

Maria Valéria – Foi algo que já estava na hora, porque sempre houve uma descriminação das mulheres no meio literário. Por isso que havia uma ideia de que as mulheres eram sentimentais, que a mulher só tem sensibilidade e não tem cérebro. A gente se conhecia, era uma porção de gente que se via sempre nos eventos literários como uma minoria convidada. Em 2016, tinham várias pessoas enfiadas na Flip, mas não como convidadas. Ou convidadas para atividades paralelas ou como público mesmo. Conversando uma com as outras falamos: vamos nos reunir e conversar sobre essa situação nossa. E aí, fizemos uma reunião informal e improvisada e fomos juntando as ideias. A própria palavra mulherio surgiu assim “vamos juntar o mulherio”, foi meio pejorativo mas depois decidimos assumir.

Fizemos um grupo fechado no Facebook e cada uma que estava no começo ia juntando outras e aí a gente ficou de procurar um lugar para fazer um encontro nacional. Era uma coisa maluca, pensar que em 2016 fazer um encontro nacional já no ano seguinte. Mas aconteceu! Foi uma coisa incrível. É um movimento, não é uma instituição, então quem quiser faz seu “mulherio”. Tem vários grupos locais, tem grupos na Europa, Estados Unidos, Portugal. É uma forma de dar visibilidade e de uma certa maneira, denunciar essa falsa ideia de que as mulheres não escrevem. Mulheres escrevem e escrevem sobre tudo. Isso deu coragem para uma porção de gente batalhar mais e as mulheres estão publicando cada vez mais e também nós partimos para fazer muitas coletâneas. É como se você tivesse a fogueira bem armada e faltasse só a faisquinha.

Diário da Região - Como é para você viver fora do eixo cultural do país?

Maria Valéria – Tem uma história do Brasil que pouca gente conhece. É o Brasil mais antigo, que tem um acumulo cultural imenso, mas tem um preconceito mesmo que começa quando o açúcar começou a decair e começa o ciclo do ouro. Do ponto de vista da cultura propriamente brasileira e da língua portuguesa à maneira brasileira enriquecida com um imenso vocabulário africano e indígena é aqui no nordeste. Agora, como o nordestino maltratado pela seca foi trabalhar no sul. É uma coisa que me preocupa, pois até pouco tempo quando tem personagem nordestino nas novelas é sempre uma caricatura e depois acham que o nordestino fala errado, não! O sertanejo ela o português que fala camões. É vocabulário riquíssimo.

Diário da Região - Alguns acontecimentos da sua vida pessoal inspiram sua literatura. De que maneira o que você viveu está nos seus livros?

Maria Valéria – Com todo mundo é assim, mesmo que a gente não perceba. Por exemplo, “A Rainha Louca” é um romance passado no século 18. Uma amiga que me conhece muito bem foi lendo e me disse: isso daqui me parece você. É assim mesmo, tem uma fronteira muito fluida entre memória e ficção. Tudo o que a gente acha que lembra muitas vezes a gente está compondo com fragmentos de lembranças do real. E quando a gente acha que está inventando, a gente está lembrando coisas que estão escondidas em um canto da cabeça.

Ou no inconsciente ou no subconsciente, no baú das coisas esquecidos. Porque a gente vê tanta coisa e vive tanta coisa que não cabe na cabeça. Eu com 77 anos, nasci no meio da Segunda Guerra [Mundial], antes da bomba atômica, antes da penicilina. Eu vi o mundo mudar e se acabar e recomeçar várias vezes. É muito assunto e a gente não tem sempre tudo diante da gente. Eu acho que tem uma porção de baús fechados na cabela e as vezes têm um clique que abre aquilo e eu acho que a literatura é bobagem querer descobrir o que é memória e o que é invenção.

Diário da Região - As pessoas ainda se surpreendem quando descobrem que você é freira?

Maria Valéria – Em geral as pessoas têm uma ignorância total a respeito das freiras. Muitas vezes, sem me perguntar nada as pessoas me entrevistam e dizem que eu sou uma ex-freira. Acho que o raciocínio que está subjacente a isso é freira é uma pessoa bobinha, que não arrumou marido e foi para o convento; fica lá fechada, não sabe de nada, o que é uma grande besteira. Pelo contrário, quando você pega a história da literatura as mulheres que se destacaram eram freiras. A maior poeta barroco de toda América Latina era Juana Inés de La Cruz, porque as freiras estudam. Atualmente alguns cursos oferecem Latim, que era uma coisa que já fazíamos. Quando era noviça, a gente rezava todo o ofício em latim, falar francês, português, ler muito. As freiras, em geral, estudam mais, sobretudo quando fazem parte de congregações internacionais. Muita gente faz pergunta boba: ‘como que uma freira pode fazer literatura?’ Não é proibido!

Diário da Região - Você é uma escritora bastante premiada. Em que medida os prêmios literários são importantes?

Maria Valéria – Começou de repente, mas demorou. Eu publiquei meu primeiro livro de ficção em 2001 e só fui começar a receber prêmios em 2008. Foi importante, melhorou muito as condições da minha comunidade, mas sobretudo me proporcionou me encontrar pessoalmente com pessoas maravilhosas que eu lia de longe. A participação nos eventos é isso, ela vai criando e fortalecendo uma rede de artistas e acho que isso é muito importante sobretudo atualmente que estamos passando por uma fase difícil, de censura por isso precisamos nos fortalecer.

O grande prêmio é encontrar pessoas fantásticas, que a gente encontra por causa do prêmio. Mas o prêmio em si que se referem ao melhor livro é muito relativo, porque não existe régua e compasso para medir qualidade literária. Um livro ruim você sabe que é ruim e um livro bom, é um livro bom. Agora, o melhor depende muito de como que o leitor se identifica com aquilo, com o gosto do leitor. Eu cai nas graças das comissões que estavam avaliando o livro e foi sorte minha. As vezes, se mudar uma ou duas pessoas em um juri você vai ter um resultado diferentes. Não existe o melhor livro, existe o livro que eu mais gostei.