Diário da Região

04/10/2019 - 10h02min

A CAMINHO DO OSCAR

'A Vida Invisível', de Aïnouz, inicia luta pela estatueta

Além da chancela recebida no Festival de Cannes, em maio, o longa brasileiro tem uma importante aliada na campanha americana: a Amazon

Divulgação 'A Vida Invisível' começa a ser exibido em Nova York e Los Angeles
'A Vida Invisível' começa a ser exibido em Nova York e Los Angeles

A batalha oficialmente começou na terça, 1.º, quando terminou o prazo para inscrição ao Oscar de melhor filme estrangeiro - agora denominado pela Academia como melhor longa-metragem internacional. Com isso, o representante brasileiro, "A Vida Invisível", de Karim Aïnouz, está oficialmente na luta - e com grande chance.

Além da chancela recebida no Festival de Cannes, em maio, quando conquistou o segundo principal prêmio, Un Certain Regard, o longa produzido pela RT Features tem uma importante aliada na campanha americana: a Amazon, gigantesca plataforma de streaming. "O primeiro passo foi antecipar de janeiro para dezembro a estreia do longa em dois grandes mercados americanos", conta o produtor Rodrigo Teixeira, da RT, referindo-se a Nova York e Los Angeles. "Teremos ações nessas cidades, além de Londres e Paris, onde há também muitos votantes."

Na verdade, a campanha é praticamente mundial, pois há eleitores em vários países, inclusive no Brasil. "Espero ter aqui ao menos um apoio da comunidade artística", comenta Teixeira, que descobriu uma pedra no caminho tão logo "A Vida Invisível" foi o longa escolhido para representar o Brasil, em agosto: no dia seguinte ao do anúncio, recebeu um comunicado da Ancine informando que a agência não poderia contribuir para a campanha internacional, como era hábito. Com isso, ele deixou de contar com R$ 200 mil.

"Na verdade, eu já não contava com esse aporte", confessa Teixeira, que concentrou esforços no apoio acertado com a Amazon. "Os executivos da plataforma ficaram empolgados com a delicadeza do filme e decidiram organizar uma campanha parruda."

Ainda que não fale em valores, Teixeira deixa escapar que as cifras investidas deverão se aproximar dos seis dígitos. O necessário para cumprir um organograma que inclui, além do lançamento do filme no final de dezembro em Los Angeles e Nova York, anúncios publicitários em mídia especializada (como a revista Variety), participação em festivais que, embora não tão conhecidos, foram o circuito especial para o Oscar e, principalmente, sessões especiais para os votantes da Academia.

"É nesse momento que o contato com o eleitor é direto, portanto, é organizada uma apresentação especial", conta Teixeira, que vai decidir com a Amazon quem serão os apresentadores do filme nas sessões de Nova York e Los Angeles. "Penso em convidar James Gray (diretor de Ad Astra) e até Martin Scorsese, caso ele não esteja ocupado demais com seu novo trabalho, The Irishman."

'A Vida Invisível' se encaixa no cinema hoje, diz Karim

Reprodução Para Karim Aïnouz, 'A Vida Invisível' é um filme de época, mas atual
Para Karim Aïnouz, 'A Vida Invisível' é um filme de época, mas atual

O 15.º Festival de Zurique, que segue até domingo, 6, na cidade suíça, é uma das paradas do diretor Karim Aïnouz e seu "A Vida Invisível" na jornada por uma indicação ao Oscar de filme internacional - a última vez que um longa brasileiro concorreu à estatueta na categoria (até este ano chamada de Oscar de filme em língua estrangeira) foi 20 anos atrás, com "Central do Brasil", coincidentemente também estrelado por Fernanda Montenegro. "Isso é muito emocionante", disse o cineasta em entrevista à reportagem, em Zurique. "Por causa da Fernanda e porque sempre que eu penso com que filme da Retomada 'A Vida Invisível' dialoga, e eu sempre acho que é o 'Central'."

A campanha está só no começo, mas Aïnouz disse estar determinado a fazer tudo o que puder. "Acho que é um ano excepcional para o cinema brasileiro", afirmou, referindo-se aos prêmios em Cannes para seu filme, na mostra Um Certo Olhar, e para "Bacurau", na competição, em Veneza para "Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou", de Bárbara Paz, além de "Pacificado", em San Sebastián.

"No quesito visibilidade internacional, acho que é um ano único. E é um ano em que tudo está sendo colocado em xeque. Vou fazer de tudo para que a gente pelo menos esteja muito visível nesta campanha. Claro que vai ser ótimo para mim, para o filme, para os atores, mas acho que tem um trabalho de visibilidade do cinema brasileiro que é importante nesses meses que entram. Estou disposto a ter uma vida de aeromoço", completou, aos risos. Ele vai ao Festival de Mill Valley, na Califórnia, e a Londres, emendando com o lançamento no Brasil, em 31 de outubro.

Aos festivais que não puder comparecer, a ideia é sempre mandar representante.

"A Vida Invisível" fala de duas irmãs no Rio dos anos 1950, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), que são muito unidas apesar do temperamento diferente. Guida vai atrás de um amor, Eurídice casa. Mas, quando Guida volta, grávida, seus pais a expulsam, e as duas se separam. "É um filme de época, mas é atual", disse o diretor. "Fala da condição da mulher e do patriarcado, que são coisas que estamos discutindo hoje", afirma.

"Com este filme, quero fazer com que a pessoa saia da sala de cinema diferente do que ela entrou. Talvez fazê-la chorar, mas principalmente refletir por meio de uma emoção física."

Uma indicação ao Oscar é importante para qualquer longa, incluindo "A Vida Invisível". Mas também é o resultado acumulado de uma carreira do filme, que passa pelos festivais mais importantes do mundo. Karim Aïnouz ainda não viu seus concorrentes, a não ser "Dor e Glória", de Pedro Almodóvar. "Vou começar a fazer esse dever de casa. É tudo muito novo, nunca fiz isso na vida. O Oscar é algo tão industrial, a gente vai fazer algo um pouco na contracorrente. É uma coisa meio de eleição, você tem de angariar votos. E a coisa mais importante é dizer que o filme existe."

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