Diário da Região

28/10/2019 - 21h44min

ARTE NAÏF

Velório de Dona Olina é realizado no São João Batista

O corpo da pintora primitivista e poeta Olinda Cândida da Silva é velado no Cemitério São João Batista, onde o enterro será realizado às 18h desta terça, 29

Guilherme Baffi Olinda Cândida da Silva viaja com os outros naïfs rio-pretenses para a abertura do evento, amanhã
Olinda Cândida da Silva viaja com os outros naïfs rio-pretenses para a abertura do evento, amanhã

O corpo da pintora primitivista e poeta  Olinda Cândida da Silva, a Dona Olinda, que morreu na noite de segunda-feira, 28, aos 75 anos, é velado no Cemitério São João Batista, onde o enterro será realizado às 18h desta terça-feira, 29. Moradora do bairro Solo Sagrado, Dona Olina era uma das expoentes da arte naïf em Rio Preto.

Ela era casada há mais de 30 anos com o também pintor Antonio Anjo, de 75 anos, tendo inclusive realizado uma exposição juntamente com ele, em 2016, no Shopping Cidade Norte. Os dois também tiveram obras expostas em 2015, no Sesc Rio Preto, na mostra "Cidade Inquieta", além de edições da Bienal Naïfs do Brasil, realizada pelo Sesc Piracicaba.

Segundo o artista Orlando Fuzinelli, que tinha uma convivência muito próxima com a pintora primitivista, os dois estavam se preparando para participar de uma exposição de arte naïf no Sesi Rio Preto, inclusive as obras de Dona Olinda já haviam sido enviada para a instituição.

"Dona Olinda era uma doçura de pessoa. Mulher humilde, não tinha vergonha do era e do que fazia. Ela me ligava sempre todas as noites, e fui visitá-la várias vezes enquanto esteve internada. É uma grande perda para a arte rio-pretense. Devemos manter sua memória viva", disse Fuzinelli.

Confira abaixo a reportagem publicada pelo Diário da Região com Dona Olinda e Antônio Anjo, no dia 27 de outubro de 2016:

Casinha branca, simples e de periferia. Da calçada, já se avista telas e peças esculpidas em madeiras. Por dentro, poesias rabiscadas nas paredes ou em pedaços de papelão perdidos nos desvãos dos cômodos abarrotados. Os quadros tomaram conta da sala, onde não há sofá e cabe, no máximo, duas cadeiras e uma pequena estante. O acervo é ainda mais inspirador diante da história de vida de seus autores. Radicados em Rio Preto, a paranaense Dona Olinda e o mineiro Antônio Anjo, ambos com 72 anos, apresentam suas pinturas primitivistas ao público, a partir desta quinta-feira, 27, em exposição no Shopping Cidade Norte.

Unidos há quase 30 anos, é a primeira exposição que eles fazem juntos. Serão 32 telas no total, 21 feitas por Olinda e 11 pintadas por Antonio. Ele também irá apresentar 24 corpos de violão. Todas as peças estão à venda, e o espaço cultural do centro de compras também terá a exibição de um vídeo em que Dona Olinda recita poemas de sua autoria. Dona Olinda e Antônio Anjo chegaram a Rio Preto, respectivamente, na década de 1960 e 80. Partiram em busca de oportunidades de trabalho. Filhos de camponeses humildes, Dona Olinda foi mais longe na escola: cursou até a 4ª série.

Ela escreve poemas carregados de sutileza e sentimentalismo. Só protesta contra os maus tratos com crianças e a exploração do trabalhador. “Quando eu tinha quatro anos, meu pai me deu uma faca amolada, como se fosse um presente, e mandou eu matar uma cabrita preta para comermos. Depois, matei porco, galinha”, recorda Dona Olinda, que nasceu de uma mistura de índio com italiano. Antônio Anjo não sabe ler nem escrever. Ao invés da escola, foi para roça aos 7 anos de idade. “Trabalhava com madeira, puxando lenha e fazendo carro de boi. Depois fui carpinteiro”, diz.

A habilidade com a madeira fez do carpinteiro um artista. Ele recolhe pedaços de pau e sobras de madeiras e, com a faca e o talento, confecciona instrumentos como violão, cavaquinho e bandolim, além miniaturas do homem no campo e também do ET de Varginha. Os dois nunca frequentaram aulas ou oficinas de artes plásticas. De tanto ver Dona Olinda pintar quadros, Antônio Anjo quis aprender e há pouco mais de um ano desenvolve suas telas. “Não tenho a paciência da Olinda”, declara ele, que neste ano teve uma de suas obras selecionadas para a Bienal Naïfs do Brasil, realizada pelo Sesc Piracicaba.

Apresentados por um amigo em comum, Olinda e Antônio se conheceram já maduros e não tiveram filhos. Tem gostos parecidos e personalidades distintas. Ela é extrovertida. Para os temas complexos, responde com um verso ou uma piadinha. Se não teve filhos, solta o riso e diz que é “porque já havia acabado o prazo de validade.” “Entendeu, né?”, brinca. Antônio é mais na dele. Prefere o silêncio e tem o olhar distante. Mineiro teimoso e cheio de crenças. “Não casamos no papel porque está bom assim e, depois que assina, já não dá certo”, recorda. “Já casei e desquitei uma vez. Sei como é.”

Essa primeira exposição do casal juntos foi possível graças à sensibilidade e o empenho do gerente de comunicação do Cidade Norte, Alexandre Silva, que cuidou de toda a burocracia e logística. “Eu quis conhecê-los e não tem como se apaixonar por suas histórias e obras”, diz Silva. É também a primeira vez em que o casal entrará em um shopping center. “Mas já fomos ao Sesc. O Danilo (Oliveira, curador da exposição Cidade Inquieta, que integrou o festival Breu) nos convidou e mandou um táxi vir buscar a gente”, conta Dona Olinda. Costureira também, ela fez a camisa para o marido ir bem bonito no shopping. “Tem gente chique lá”, comenta Antônio Anjo.

 

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