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TRÁFICO

Polícia já apreendeu 16 toneladas de drogas

Carga de droga equivalente ao peso de 20 Fuscas foi apreendida em um ano e meio


    • São José do Rio Preto
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Dos pequenos aos grandes traficantes, a criatividade entra em campo na circulação de drogas, muita droga mesmo, na região de Rio Preto, em direção a grandes centros e até rumo ao exterior. A camuflagem ocorre em diferentes compartimentos de veículos de passeio ou de cargas, com "mulas" em ônibus com pacotes de até 50 quilos, na poltrona, no banheiro do ônibus, na panturrilha e em barrigas falsas.

A circulação de drogas proibidas entre janeiro de 2018 e setembro de 2019 acabou em 16 toneladas de narcóticos interceptados pelas polícias Federal, Civil, Militar e rodoviárias na área de 48 delegacias da região. O peso é o equivalente a 20 Fuscas empilhados. A maconha foi a mais interceptada no período - 12,8 toneladas. Sete toneladas do entorpecente foram apreendidas pela Polícia Civil, o restante foi recolhido pela Polícia Federal.

Segundo o delegado chefe da PF de Rio Preto, André Luiz Previato Kodjaoglanian, a quantidade por si só denuncia a preferência dos criminosos pela maconha, "por ser a mais barata e a mais popular", explica.

As principais interceptações do entorpecente - 5,7 toneladas - aconteceram nas rodovias Washington Luís (SP-310), Feliciano Sales Cunha (SP-310) e Euclides da Cunha (SP-320). "É a droga transportada em maior quantidade. Suporta um prejuízo maior [para o traficante]", afirma o capitão rodoviário Maurício Noé Cavalari.

"São pessoas de todos os perfis que tentam esconder na poltrona, no banheiro do ônibus, na barriga, na panturrilha, em barrigas falsas, são modos variados", disse Cavalari. "Mulas geralmente aliciadas no lugar de origem ou do destino da droga", completou. 

De 2018 para cá outras 2,7 toneladas de maconha foram barradas na BR-153, entre Icém e Ubarana. Segundo a PRF, 90% da droga apreendida na rodovia federal estavam em carros - 60% ocultos em fundos falsos, assoalhos, portas, estofados, para-choques etc. e 40% em cima dos bancos e porta-malas. "É o cavalo dois. Colocam até 500 quilos e tentam a sorte", diz o chefe da base da PRF, Daniel Mataragi Filho.

Droga no 'zap'

No atacado, a maconha também é encontrada estocada dentro da cidade, geralmente com o guardador. Segundo a Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), a função faz parte de uma estrutura mais moderna do tráfico de drogas, pela qual as negociações e logísticas passaram a ser feitas quase que integralmente pelo WhatsApp. 

Nesses moldes do tráfico atuava uma organização criminosa descoberta pela Dise em junho deste ano com 200 quilos de entorpecente. Depois de 12 meses de investigação, os policiais flagraram o armazenamento em uma residência no bairro Cecap, em Rio Preto. O dono da casa, de 31 anos, integrava o grupo com pelo menos 15 traficantes. Eles recebiam os carregamentos e enviavam a droga fracionada para São Paulo em forma de encomendas em ônibus de luxo. "Iam três a quatro quilos [drogas] e vinha um quilo [dinheiro]", conta o delegado Lincoln Oliveira. 

Cocaína

Droga produzida a partir da folha da coca, mais valorizada no narcotráfico, a cocaína foi o segundo tipo de entorpecente mais interceptado nesses quase dois anos na região - 2,2 toneladas. Do al, 2,1 toneladas foram retiradas de circulação pela PF.

A droga circula pela região em duas condições: em forma de pasta base, já com alguma mistura, como cimento de construção, soda cáustica, amônia e gasolina, ou na sua forma mais pura e em pó, em cloridrato de cocaína. Uma tonelada da "branquinha", tipo mais valioso, foi interceptada pela PF em novembro do ano passado, em Mirassol. 

Com audácia que lembra o icônico narcotraficante colombiano Pablo Escobar, os criminosos esconderam a carga em dois bitrens carregados de óleo vegetal. Uma arma calibre 50 e munições do armamento de guerra também foram apreendidas junto com os tabletes. "Foi uma apreensão inédita, coisa de Narcos [seriado], com quantidade compatível de quartel", afirmou Previato.

O delegado também lembra da apreensão de tabletes de 50 quilos, apreendidos em um sítio em Cosmorama. A droga estava estocada em meio a farelo de milho. "Geralmente, o normal são tabletes de um quilo, mas nesta apreensão eram de 50 quilos."

Dentro do perímetro urbano, de 2018 até setembro de 2019, o destaque foi uma apreensão de 12 tabletes de cocaína em um barracão no bairro Dom Lafayete. Para chegar até o traficante, investigadores da Dise passaram quatro meses seguindo o suspeito, indo nas baladas que ele frequentava até conseguir flagrá-lo saindo do estoque em direção à sua Mercedes Benz com meia dúzia de sacolas com a droga para "degustação". 

"Era um rapaz novo que levantou suspeita por falta de ocupação, muita ostentação e movimentação intensa no mesmo local [barracão]", afirmou Oliveira.

Do ano passado para cá, Rio Preto e região também apreenderam haxixe, 98 comprimidos de ecstasy e cerca de 80 quilos de crack (cocaína na sua composição mais tóxica).

Como ressaltada na obra "Cocaína - a Rota Caipira", Rio Preto e região compõe ponto estratégico para o narcotráfico Internacional. Cortada por quatro rodovias, a cidade é caminho entre países produtores de drogas e os centros de consumos. Por aqui também passam drogas com destino ao porto de Santos e exterior.

A maconha que passa pelas estradas e chegam nos pontos de distribuição do tráfico local e regional vem do Paraguai, local onde as lavouras de maconha são produzidas. "Entra pelo Mato Grosso do Sul, passa pelo Paraná e chega na nossa região", explicou o chefe da delegacia da Polícia Rodoviária Federal de Rio Preto, Daniel Mataragi Filho.

Já a cocaína vem do Peru, Bolívia e da Colômbia, países produtores de coca. "Geralmente a que vem por terra é a produzida na Bolívia, entra na fronteira do Mato Grosso, passa por Cáceres e passa por Rio Preto para grandes centros, como São Paulo, Santos e Rio de Janeiro", disse o delegado chefe da Polícia Federal, André Luiz Previato Kodjaoglanian.

Envolvidos no tráfico de drogas respondem judicialmente pelo crime tipicado no artigo 33 da Lei de Drogas 11.343 de 2006. A legislação prevê pena de prisão de cinco a 15 anos para quem importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas. A mesma pena é aplicada para quem cultiva drogas. 

Em função do tráfico, pessoas furtam, assaltam, matam e se matam. Por trás da circulação das drogas está uma série de crimes e vítimas. "O tráfico de drogas é o fomentador da criminalidade. É algo horrendo. Fulmina a sociedade", afirma o promotor de Justiça e assessor de saúde, Aldenis Borim. "O tráfico é uma doença, um problema social. Pessoas cometem crimes por conta de drogas", disse o tenente da Polícia Militar, Carlos Ziroldo.

Segundo o comandante, a questão também é de saúde pública, "já que o usuário também é uma pessoa doente". O chefe do departamento de urgência e emergência de Rio Preto, Gustavo Marcato, ressalta que nesse aspecto, o tráfico é o pior inimigo. "Primeiro porque coloca todos os envolvidos em risco. Depois, porque a produção dessas drogas não tem nenhum tipo de segurança." 

Segundo o médico, as sequelas do uso de drogas dependem do tipo, mas no geral, são substâncias que levam a doenças orgânicas, como as pulmonares, neurológicas e psicológicas (transtornos e depressão). "Todas as drogas fazem isso, além de desagregar famílias. Então precisamos conscientizar e desestimular jovens e crianças a entrarem em contato com esse mundo", finalizou. (FP)