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RIO DE JANEIRO

Uma cidade que ressurgiu das águas

Parque arqueológico em Rio Claro reserva surpresas para o visitante


    • São José do Rio Preto
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Conhecer a história do Ciclo do Café pelas ruínas de uma antiga cidade histórica. Observar aves e plantas em trilhas curtas e em meio à Mata Atlântica. Curtir um piquenique ou saborear um almoço orgânico. Estes são alguns dos programas do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, que fica na cidade de Rio Claro, a cerca de duas horas da capital fluminense.

O local foi aberto ao público em 2011, depois de um trabalho de restauração que durou três anos, numa parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura e a Light. Desde então, 80 mil pessoas passaram por lá, mas muita gente ainda desconhece esta "relíquia". A ideia foi construir um local amplo de lazer, como explica Luís Felipe Younes do Amaral, do Instituto Light e Centro Cultural: "O objetivo era não apenas o compromisso histórico de recuperar a cidade, mas promover a revitalização da área, preservar o patrimônio natural e estimular o desenvolvimento econômico. E, claro, oferecer um espaço de diversão."

A história do parque começa na fundação da cidade de São João Marcos, em 1739. Antes um pequeno povoado de agricultores de café, que cresceu ao redor de uma capela, o município prosperou nos séculos XVIII e XIX com a produção do grão, principal produto da economia brasileira no período. A cidade chegou a ter mais de 18 mil habitantes, sendo oito mil negros escravizados nas lavouras.

Assim como aconteceu com toda a região, o município decaiu economicamente no começo do século passado com o início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que praticamente cessou a demanda internacional pelo grão nacional. E São João Marcos começou a perder habitantes. Em 1915, contava com pouco mais de quatro mil moradores.

Em 1939, na tentativa de renascer turisticamente, foi tombada como Patrimônio Histórico Nacional, pela sua riqueza arquitetônica. "Um quê de Paraty", arriscam visitantes ao ver as fotos de lá.

Mas os rumos do local ganhariam um novo capítulo no ano seguinte. Foi quando Getúlio Vargas resolveu alagar a cidade para construir a Usina Hidrelétrica de Fontes Novas, até hoje em funcionamento. O objetivo era abastecer a capital, que sofria com apagões.

Em 1940, a cidade foi então destombada, demolida e colocada, literalmente, debaixo d'água. Uma parte não precisou ser alagada, mas as edificações foram derrubadas mesmo assim, para que ninguém retornasse. Outras emergiram anos depois, com o recuo natural da água. Durante 50 anos, no entanto, toda essa área ficou esquecida, arrendada para pecuaristas. Até 1990, quando foi tombada, em definitivo, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).

A entrada é gratuita, e o passeio começa já no Centro de Visitação. Vídeos, maquetes, fotos e relíquias encontradas ou doadas contam um pouco a história do parque. De lá, o turista segue com um mapa autoguiado para conhecer as antigas vielas de São João Marcos. No passeio, caminha-se pelo que um dia foram as ruas (todas sinalizadas com seus nomes originais), largos e travessas.

As ruínas mostram um pouco do que eram as casas e sobrados coloniais, inclusive por dentro. Parte do calçamento de pedra de cantaria está lá. Pode-se ver também o que sobrou da antiga prefeitura, da cadeia e da escola. Na Igreja Matriz, os azulejos são originais. Algumas sepulturas ainda visíveis, com nomes e datas, estão no que já foi um cemitério.

São 13 mil metros quadrados, e não todos ocupados pelas ruínas. Ao redor delas, a pedida é curtir a natureza. A área da represa é muito usada para piqueniques. É comum também ver casais ali tirando fotos para casamentos. Há uma parte coberta com redes e livros disponíveis para quem quiser curtir uma tarde contemplando a visão para a Mata Atlântica.

O visitante que for durante a primavera ainda será recebido, bem na entrada da antiga cidade, por dezenas de pés de mulungus, árvores que chegam a 12 metros e florescem em vermelho vivo. A diversidade da flora do parque, que vai além dos mulungus, atrai centenas de espécies de aves, o que motivou a construção de um mirante para os birdwatchers. Há trilhas, também sinalizadas, para os mais aventureiros.

O Quiosque São João Marcos é atração à parte. O restaurante tem cardápio caseiro, elaborado a partir de um livro de receitas encontrado de uma antiga moradora. A horta orgânica do parque (que pode ser visitada) fornece grande parte dos produtos da cozinha. A refeição precisa ser agendada com 24 horas de antecedência, através do site. Só não vá embora sem antes tomar um cafezinho com algum dos bolos caseiros, todos deliciosos.