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RIO DE JANEIRO

São tantas emoções

Parque Uaná Etê desponta-se entre as fazendas que contam a história do Vale do Paraíba


    • São José do Rio Preto
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O passeio está prestes a terminar quando a anfitriã vem com mais uma surpresa: escrever um desejo numa fita de cetim colorida e pendurá-la na Árvore das Infinitas Possibilidades. Não é proposta que se recuse. Os convidados acatam a sugestão e deixam seus pedidos. Os tecidos ficam lá. A esperança de que o sonho se concretize e a visão de centenas de laços embalados pelo sabor do vento, formando um arco-íris, ficam na memória, acompanhando o turista na volta para casa.

O lugar em questão é o parque Uaná Etê, e a anfitriã, a harpista Cristina Braga. Ao lado do companheiro, o compositor e arranjador Ricardo Medeiros, ela ergueu um jardim que une natureza e arte, tendo a música como inspiração e fio condutor. Um espaço que faz bem aos olhos e aos ouvidos, revelando uma face distinta da que se costuma associar à região do Vale do Café, no Vale do Paraíba.

A primeira imagem que vem à mente do turista quando se pensa nesta porção Sul Fluminense é a das fazendas históricas. De portas abertas para visitantes em municípios como Rio das Flores, Vassouras e Miguel Pereira, elas convidam o visitante a entrar num túnel do tempo, que ora encanta com a combinação de belas paisagens, Arquitetura, História e Gastronomia, ora leva a refletir sobre o auge da produção cafeeira no século XIX, marcada pela pujança de fazendeiros e pelo martírio de negros escravizados.

Um roteiro completo pela região é aquele que entrelaça passado e presente. Tem o passeio por parque arqueológico em Rio Claro. Tem o conforto e a sofisticação de se hospedar numa fazenda em Rio das Flores. Tem surpresas como a visita ao Uaná Etê, em Engenheiro Paulo de Frontin. Tem aula sobre cachaça, também em Rio das Flores, e plantio de café, em Barra do Piraí. Tem delícias do cardápio contemporâneo de um bistrô que é ponto de encontro de ciclistas, em Miguel Pereira. Tem a emoção de reencontrar Cazuza num centro cultural em Vassouras.

Como os municípios são vizinhos, é possível conciliar duas ou três atividades num mesmo dia, em percursos curtos de carro. Escolher por onde começar e terminar o passeio fica a cargo dos interesses de cada viajante (ou grupo de). A ordem dos fatores não altera o resultado.

Jardim dos sentidos

O Uaná Etê é uma obra em aberto, em diversos sentidos. Desde que foi criado, e lá se vão cinco anos, ganha novas peças de arte, amplia sua programação de eventos e fica mais verde, graças ao plantio de 30 mil mudas nesse período. Não custa lembrar, estamos falando de uma região que foi devastada pela cultura cafeeira. Desde que a harpista pisou ali, o jardim ecológico e musical de 135 mil metros quadrados vem se transformando.

"É um lugar para contemplar, se divertir, se reconectar", diz a musicista, que, desde 2014, compartilha a dedicação ao Uaná Etê com sua carreira solo, suas aulas como professora de harpa na UFRJ, seus concertos com a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio.

O Uaná Etê fica às margens da rodovia RJ-121 em Sacra Família, distrito de Engenheiro Paulo de Frontin, a cerca de duas horas de carro do Rio. Para quem já está no Vale do Café, fica a 15 minutos de Vassouras e a 20 minutos de Miguel Pereira. Logo que chega, o visitante é levado à sede, decorada com flores, móveis de época e acessórios modernos. É onde são realizados alguns dos shows que compõem a intensa agenda anual de eventos. Nos dias 12 e 13 de outubro, tem uma programação especial para crianças.

Em alguns festivais, as apresentações são ao ar livre, com vista do céu e da Mata Atlântica. Fora da agenda musical, o interessante é mesmo percorrer a propriedade e explorar as obras dispostas. Uma das principais é o Labirinto da Música, criação da paisagista Maritza Orleans e Bragança, com peças interativas e outras para se contemplar, que remetem ao som, à ciência, ao dom da criação. Ao longo do caminho, surgem outras, como o Bosque dos Sinos e a tal Árvore das Infinitas Possibilidades, que fica no igualmente poético Jardim da Sabedoria.

Em certos dias, o chef César da Costa, dono de uma culinária sofisticada e graciosa, oferece no bistrô delícias à base de café, como os blinis de banana da terra com patê de linguiça defumada e café tostado, que, como tudo no Uaná Eê, não saem da memória.