A experiência de rio-pretenses que não são reféns das redes sociaisÍcone de fechar Fechar

COMPORTAMENTO

A experiência de rio-pretenses que não são reféns das redes sociais

Em tempo de muita tecnologia e uso em excesso de aparelhos eletrônicos, conheça algumas pessoas de Rio Preto que nunca tiveram ou abandonaram as redes sociais, como Facebook, Instagram e Twitter


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Cada vez mais pessoas têm apagado os perfis nas redes sociais. Os motivos são vários, o que inclui aproveitar mais a vida, interagir olho a olho com os amigos e ter mais privacidade. As plataformas, que viraram um cenário de guerra virtual, em que debates ideológicos acalorados e cheios de raiva aparecem todos os dias, têm afastado os usuários. O que era, no início, para conectar pessoas e, eventualmente, compartilhar conteúdos, afastou ainda mais os usuários, destruindo até amizades reais de longa data.

Com vazamento de informações, a insegurança e o receio de ter dados pessoais divulgados também têm feito homens e mulheres se desplugarem da internet. A disseminação de notícias falsas, as fake news, a manipulação eleitoral, poucas notícias interessantes e úteis, analfabetismo digital, exposição de vidas perfeitas, o envelhecimento dos usuários e a entrada dos pais nas redes também motivaram a saída do Facebook, Instagram, Twitter e até Snapchat.

O procurador do Estado de São Paulo, Luciano Pupo de Paula, de 54 anos, integra o grupo que não usa nenhuma destas formas modernas de comunicação. "Nunca tive porque sou muito reservado na minha vida pessoal e as redes sociais expõem muito a vida das pessoas. Prefiro tomar uma café com um amigo uma vez ao ano do que conversar ou ficar vendo fotos dele todos os dias no Facebook. Além disso, sei que alguns usuários são desagradáveis e não sabem se comportar. Mesmo fora das redes, eu não me sinto excluído."

A insegurança está entre as justificativas do homeopata Márcio Garófalo Sigilló, 52 anos, também ter abandonado as redes sociais. Pai de quatro filhas, entre 8 e 24 anos, ele teme ter a sua vida e a rotina delas vigiadas. "Além isso, às vezes, eu acho que as pessoas esqueceram da real função do telefone, que é fazer ligação". Outro motivo é que os usuários querem que os outros tenham a mesma opinião em relação à política e situação do Brasil. Há muita intolerância e muitas manifestações extremistas."

Sigilló assume, no entanto, que tem um perfil em modo privado no Instagram (@babbo_sigillo). Trata-se de uma página, com menos de 300 seguidores, onde ele publica poemas e frases. "Meu objetivo é compilar os textos e lançar um livro com ilustrações do meu amigo pessoal, juny kp!. Mantenho ele [perfil], mas não tem nenhuma utilização social". Para o médico, as redes sociais têm mais uma contraindicação. "Muitas pessoas buscam likes e quando não têm ficam frustradas. Já atendi pacientes com quadros depressivos que tiveram a condição agravada por causa da internet."

As redes sociais não podem mesmo causar danos emocionais aos usuários. A psicóloga cognitivo-comportamental Mara Lúcia Madureira afirma que a violência praticada e sofrida nas redes sociais tem o mesmo impacto na vida das pessoas que as vivenciadas de modo não virtual. Quando o estresse chega a um ponto intolerável, a saída das redes é uma opção racional para restabelecer o equilíbrio emocional e preservar a saúde. Não é apenas a violência que cansa, os incontáveis pacotes diários de ofertas mágicas de riqueza, bem-estar e felicidade também estão saturados. As pessoas estão percebendo que a mesmice de todo dia mais estagna do que promove benefícios reais em suas vidas."

O diretor-administrativo do Hospital de Base, Jorge Fares, é um dos profissionais de Rio Preto que utiliza apenas o aplicativo WhatsApp para mandar mensagens aos amigos e familiares. Para ele, o Facebook e Instagram promovem mais malefícios do que benefícios. "Até tentei usar, mas não vi vantagens. Tem muita conversa inútil. Prefiro usar o meu tempo livre com atividades que me fazem relaxar e conversar ao vivo com meus amigos. Acompanho algumas situações nas redes sociais da minha esposa, mas só quando é algo importante e em especial da família."

A psicóloga Mara afirma que a abstenção das redes sociais é uma atitude salutar para os que não as apreciam. "Se uma pessoa não vê sentido em utilizar essas mídias, está correta em não fazê-lo. A preservação da individualidade é um direito a ser respeitado. Não fazer parte desse conjunto não torna ninguém anormal."

O desenvolvedor full-stack Orlando Luis de Mello, de 31 anos, trabalha diariamente com a internet e não tem Facebook ou Instagram porque acha que as redes são muito invasivas. Segundo ele, até o advogado do Facebook já disse que não há porquê esperar privacidade da rede social. "Em grande maioria, as redes trazem postagens com conteúdo que não me agradam ou agregam. Nunca gostei de expor minha vida, sequer tirar fotos, e por estes motivos não sinto nenhum interesse em utilizar. Utilizo smartphone [WhatsApp] por necessidade, ou nem isso utilizaria, pois tenho certa aversão a celulares."

 

Enquanto o Facebook e Instagram perdem pontos com os usuários, o WhatsApp aumenta a sua audiência, especialmente no Brasil. O aplicativo de troca de mensagens de texto, imagem e voz tornou-se um dos mais populares do planeta.

Quem nunca buscou curtidas, comentários e visualizações nas redes sociais, mas utiliza o aplicativo WhatsApp, é o comerciante Paulo Naime, de 42 anos. "Eu acho que tanto o Facebook quanto o Instagram tem seus atributos. Porém perderam em algum momento a sua função em específico. Existem os comerciais, existem os de pessoas famosas e existem aqueles que são apenas para cuidar da vida tanto de um quanto de outro. Eu, em específico, não tenho nenhum dos dois justamente por esses motivos. Sou reservado na minha vida particular e não acompanho a vida das pessoas, sendo elas públicas ou amadoras. Tenho Linkedin e Twitter, mas uso apenas para fins profissionais."

Mesmo com a influência da internet, ainda há uma parcela de brasileiros, assim como Paulo Naime, que escolheu não ter acesso às informações das redes sociais, buscar likes ou postar selfies. Victor Manachini, empresário e idealizador do Rezet, evento de inovação, tecnologia e marketing digital, afirma que existem alguns motivos para este comportamento. "Existe um grupo de pessoas que utilizou a rede social em excesso e isso acabou atrapalhando a carreira e também um grupo que não sente-se confortável nas redes, pelos perigos e riscos em relação a hackers e às informações disponibilizadas."

O comprador Fábio Ricardo Magalhães de Castro, de 27 anos, enxergou a rede social como um ambiente perigoso para sua vida pessoal e excluiu o perfil do seu Facebook há cerca de seis anos. "Na época, eu decidi excluir porque eu me sentia viciado, não conseguia separar minha vida virtual da minha vida profissional e isso estava me prejudicando no antigo trabalho. Eu precisa acordar para a vida, precisava de tempo para focar em crescimento profissional", revela.

Já o Instagram, Fábio decidiu abandonar alguns meses atrás por gastar tempo demais na rede. "Não foi porque eu estava prejudicando meu profissional e sim porque eu estava deixando de fazer coisas que eu gosto, como, por exemplo, correr e jogar no Sesc, para ficar fuçando no Insta. Eu precisava de mais tempo para divertir e menos tempo para ficar vendo a vida alheia. Eu entendi que, se eu não excluísse, eu não iria conseguir esse tempo."

Muitas pessoas, no entanto, mantêm seus perfis ativos por causa do trabalho. Uma dica para não desperdiçar tempo é ter períodos do dia dedicados para acessar as redes sociais. "É necessário equilíbrio, ter os momentos de descontração, em que você possa aproveitar 10 minutos para receber o conteúdo de um influenciador que gosta, de uma marca que acompanha, assistir a um vídeo, mas que isso, ao mesmo tempo, não se torne uma forma de procrastinação".

Rede de negócios

Victor Manachini afirma que a melhor rede social para negócios, por se tratar de perfis profissionais, é o Linkedin. A rede passa longe da crise e tem o objetivo de conectar profissionais de todo o mundo, focando o crescimento de suas carreiras. Para isso, a empresa busca criar oportunidades para os colaboradores dos mais diferentes setores, e ser um ótimo local de networking para contratar e ser contratado.

O especialista afirma, no entanto, que mesmo com a perda de usuários, o Instagram é uma das redes sociais preferidas para divulgar uma marca, engajar clientes e lucrar. "Se formos levar em conta a resolutividade, o Instagram ainda está na frente por conta do trabalho de blogueiras e influenciadores digitais."

Quando se fala de conteúdo e entrega, a melhor rede para se ter um retorno financeiro é o YouTube, segundo Victor Manachini. "Um grande exemplo disso é o Whindersson Nunes, que se propagou uma potência, sendo o segundo maior youtuber do mundo. Tudo depende do direcionamento que a pessoa quer ter. Se quiser ser um criador de conteúdo, indico o YouTube, se você prefere lifestyle sugiro o Instagram, já se a sua área é negócio para empreendedores, eu indico o Linkedin."

Uma forma de gerenciar a crise das redes sociais seria por meio dos usuários, segundo Manachini. "As pessoas precisam ser mais humanas. Este meio precisa se tornar mais humanizado, em que as pessoas, de fato, sejam elas mesmas, e as marcas também tenham um posicionamento também mais humanizado, em que possamos ver menos comunicação onde as empresas querem vender a qualquer preço e ofereçam mais conteúdo."

 

Hoje em dia, a maioria das pessoas vive conectada, de crianças a idosos. Existem, no entanto, pessoas viciadas nas redes sociais. Elas dormem e acordam com o celular na mão, e estão o tempo inteiro conectadas ao mundo digital, inclusive durante o expediente, numa necessidade de estar checando e interagindo com os amigos a todo momento. Quando o acesso não é possível, a pessoa fica ansiosa e frustrada. O que era para ser algo produtivo acaba sendo algo sofrido. Mas como encontrar equilíbrio nas redes?

A psicóloga cognitivo-comportamental Mara Lúcia Madureira afirma que as compulsões sempre existiram e sempre existirão independentemente do tempo e das tecnologias. "O problema não está nas redes sociais, mas no comportamento excessivo dos usuários. O equilíbrio está em tratar as pessoas, no controle da ansiedade e no preenchimento do vazio que as levam a ocupar-se exclusivamente de tais meios. A busca de alternativas de lazer e entretenimento presenciais, gratificantes e instrutivos, com adiamento das recompensas, representa uma excelente opção para livrar-se da compulsão por telas digitais."

Correntes

Já existe uma campanha que propõe reduzir o consumo das mídias sociais. Trata-se da filosofia Jomo (Joy Of Missing Out), que prega a alegria de estar por fora, em tradução livre. A iniciativa aconselha o equilíbrio em um mundo conectado. Outro movimento é o Logged Off Generation, que promove a saída em massa de homens e mulheres das redes sociais.

Mulheres

Para fazer esta reportagem, eu utilizei o Facebook como ferramenta para pedir que os meus amigos indicassem pessoas que não utilizam as redes sociais. Dos 13 amigos que responderam, 11 indicaram homens. E o resultado tem um justificativa. Mulheres, de uma maneira geral, são a maioria nas redes, segundo inúmeras pesquisas nacionais e internacionais.

A advogada Ana Paula Moraes, de 30 anos, no entanto, tem horror a rede social e nunca acessou o Facebook. "Fizemos um reencontro de amigos de escola neste início do ano e apenas eu não tinha a rede social do Mark Zuckerberg. Eu não me arrependo e acho uma loucura quando penso que existem inúmeros influenciadores digitais ditando estilos de vidas para serem seguidos na internet. Prefiro viver uma vida real do que superficial."