Suicídio se tornou um dos maiores problemas crônicos do mundo atualÍcone de fechar Fechar

MAL CONTEMPORÂNEO

Suicídio se tornou um dos maiores problemas crônicos do mundo atual

No mês da campanha Setembro Amarelo, é preciso falar sobre um problema que se tornou crônico na saúde e que reflete uma sociedade capitalista que coloca o 'ter' acima do 'ser'


    • São José do Rio Preto
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A falta de perspectivas diante da perda de um emprego, o sentimento de inadequação dentro de uma sociedade que impõe padrões em todos os sentidos, o mascaramento de sentimentos em uma dinâmica social competitiva, machista e individualista, entre outros problemas ligados a fatores internos e externos são encarados de forma diferente por cada pessoa. E entre elas há quem não consiga vislumbrar alívio para suas dores ou não encontre meios de compartilhá-la com o próximo, fazendo da morte uma alternativa.

No mês em que se é feita a campanha Setembro Amarelo, é preciso falar sobre o suicídio, um assunto tratado como tabu, mas que se tornou um problema crônico de saúde pública e um doloroso reflexo da sociedade capitalista. Segundo a OMS, há cada 40 segundos uma pessoa tira sua própria vida. E, segundo especialistas, tal ato é cometido não por um desejo de morte, mas como alternativa para aliviar uma profunda angústia emocional.

"Suicídio é uma temática difícil e complicada de ser abordada, mas que vem crescendo de forma assustadora. É um problema de saúde e social que atinge todas as faixas de idade, e que tem tirado a vida de cerca de 1 milhão de pessoas por ano no mundo. Há registros recentes de suicídios até entre crianças. No entanto, de cada dez casos de pessoas que tiram a própria vida, nove deles poderiam ser evitados", comenta a psicóloga Jaqueline Tarraf, de Rio Preto, que participou, juntamente com a coach executiva Ada Maria de Assis e Silva, do programa "Bem-Estar ao Vivo", exibido pelo Diário da Região em seu Facebook na sexta-feira, 13.

Para o também psicólogo Alexandre Felipe, de Rio Preto, o mundo vive atualmente uma crise coletiva, e isso no âmbito social, econômico, político e moral. Uma crise alimentada por uma sociedade que coloca o 'ter' acima do 'ser', algo que potencializa os sentimentos suicidas. "O indivíduo é algo complexo, não existe uma regra que se cabe a todos. O que afeta uma pessoa de forma dolorosa pode não afetar outra. E as causas são inúmeras, estando ligadas a status, poder, dogmas religiosos, condição social, falta de afetividade etc."

Segundo o psiquiatra Marcel Fulvio Padula Lamas, do Consulta Aqui, de São Paulo, a grande maioria das pessoas que tentam suicídio avisa antes e normalmente pede ajuda médica. "A pessoa pode ter comportamento evitativo, se isolando, mantendo-se triste, ou até mesmo tendo comportamentos suicidas", diz. "Os comportamentos suicidas são quando a pessoa para de ter os cuidados básicos necessários para si mesmo. São gestos que não expressam exatamente a vontade de morrer, mas, sim, a falta de valorização própria e de autocuidados. Um exemplo é a pessoa diabética que come açúcar e não toma insulina ou o doente do coração que parou de tomar os remédios", acrescenta.

Os especialistas destacam que as mulheres cometem mais tentativas de suicídio em relação aos homens, mas são eles que conseguem efetivamente dar cabo de suas vidas. Além disso, quanto mais vulnerável é o grupo social, maiores são as chances de suicídio. "Os LGBTs, por exemplo, têm oito vezes mais chances de tirarem a própria vida. Na população indígena, a taxa de suicídio é duas vezes maior. O mesmo ocorre com pessoas em situação de rua", sinaliza Alexandre.

Outro aspecto importante apontado por Marcel é que o suicida leva, em média, cerca de dez pessoas próximas a ele a desenvolverem quadros de sofrimento profundo, como depressão ou até mesmo as tentativas de suicídio. 

Depressão

Os especialistas também sinalizam que nem todo suicídio está relacionado a depressão, uma doença que caracteriza a sociedade contemporânea. "A depressão é um fator de risco para o suicídio, mas não é a única causa dele. A falta de expressão de sentimentos é algo forte em nossa sociedade hoje em dia. No homem, por exemplo, prevalece o estereótipo de um ser que não pode chorar, não pode manifestar emoções, e isso é algo que fica reprimido e congelado dentro de uma pessoa", reflete Jaqueline. "Nossa sociedade tende a vender a ideia de uma felicidade plena, que na verdade não existe. Precisamos ter consciência de que nossa vida é feita de altos e baixos."

O psiquiatra paulistano informa que 95% das tentativas de suicídio ocorrem entre pessoas com algum tipo de doença mental. "Destas, 80% têm transtornos depressivos [seja ele unipolar ou bipolar], 25% têm abuso de álcool e outras drogas, 10% têm esquizofrenia e 5% delírum", enumera. "Precisamos tomar cuidado com os D: desespero, dor psíquica, desesperança, desamparo, depressão, dependência química, delírio, delírum."

A falta de diálogo é outro ponto de crise. E, pior, há gente que ainda tem a falta de empatia de classificar um caso de depressão como "frescura", isolando ainda mais o seu semelhante. Até mesmo a busca por ajuda psicológica ou psiquiátrica ainda é vista com preconceito pela sociedade. 

"A melhor postura que podemos ter é de não menosprezar o que seu semelhante está sentindo. Diante de uma pessoa depressiva, devemos acolher e nos mostrar próximos. Mostrar que ela não está sozinha e que nem por isso é um peso para você. E mais: auxiliá-la a procurar ajuda", orienta Marcel.

Em ação desde 2015, a campanha Setembro Amarelo foi criada para conscientizar as pessoas de que o suicídio pode ser evitado. Durante o mês, várias empresas em todo o Brasil promovem ações para dar visibilidade à causa e incentivar a preservação da vida. Uma das instituições locais é o Grupo Austa, que promoverá a palestra "A importância da sociedade civil na prevenção do suicídio".

O encontro será realizado nesta segunda-feira, 16, às 18h30, no auditório do Austa. A palestra, gratuita e aberta à comunidade, será comandada por Francisco Garcia, voluntário do Centro de Valorização da Vida em Rio Preto há 20 anos. O CVV, por exemplo, realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone (188), e-mail e chat 24 horas todos os dias.

(Colaborou Francine Moreno)