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Entrevista

As Coisas que você só vê quando desacelera

Em sua passagem pelo Brasil, monge sul-coreano diz que não precisamos ter muito para apreciar nossas vidas


    • São José do Rio Preto
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Como monge zen-budista e ex-professor de uma pequena faculdade de artes liberais em Massachusetts, nos Estados Unidos, as pessoas costumavam pedir ao sul-coreano Haemin Sunin, 46 anos, orientações sobre como lidar com os desafios da vida. Além de oferecer conselhos ao vivo e por e-mail, ele começou a responder perguntas pelas redes sociais. No centro de todos os conselhos está a importância de desacelerar nesta vida moderna tão agitada, assim como manter bons relacionamentos e cultivar a autocompaixão.

À medida que as mensagens passaram a ser compartilhadas por mais e mais pessoas e que o número de seguidores no Twitter (são 1,04 milhão de pessoas) e no Facebook aumentou, começaram a chamá-lo de "mentor de cura". Surgia a ideia de transformar seus escritos em livros. Em 2012, "As coisas que você só vê quando desacelera - Como manter a calma em um mundo frenético" foi lançado na Coreia do Sul e em 2017 no Brasil.

O livro ficou em primeiro lugar na lista dos mais vendidos durante 41 semanas e vendeu mais de 3 milhões de exemplares em três anos. Vieram as traduções para o chinês, o japonês, o tailandês, o francês, o inglês e o português. Em março deste ano, ele lançou pela editora Sextante outro livro, "Amor Pelas Coisas Imperfeitas". Os dois livros já venderam mais de 100 mil cópias no Brasil, o que fez com que fosse convidado para participar da Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, para falar sobre seu primeiro best-seller.

A proposta do livro é ajudar as pessoas a entenderem os relacionamentos, o trabalho, as aspirações e a espiritualidade sob um novo prisma, revelando como a prática da atenção plena pode transformar o modo de ser de cada um e de lidar. Como lição, o monge lembra que a forma como percebemos o mundo é um reflexo do que se passa em nossa mente. "Quando nossa mente está alegre e compassiva, o mundo também está. Quando ela está repleta de pensamentos negativos, o mundo parece sombrio. E quando nossa mente descansa, o mundo faz o mesmo. Em sua passagem pelo Brasil, Haemin Sunim concedeu entrevista à revista Bem-Estar.

Revista Bem-Estar - À medida que o mundo avança, temos um sentimento crescente de que há menos tempo disponível. Qual é a razão da aceleração no modo de vida humano hoje?

Monge Haemin Sunim -Devido ao desenvolvimento da Internet e do smartphone, agora temos muitas maneiras de nos distrair, fazendo com que sintamos dificuldade em nos concentrar em uma coisa. Ouvimos sons constantes das notificações do WhatsApp, além de aplicativos de notícias e jogos que exigem nossa atenção imediata. Isso pode nos fazer sentir mentalmente ocupados o tempo todo.

Bem-Estar - É possível sair do modo "piloto automático" que funcionamos hoje e recuperar o bem-estar? Como?

Sunim - Eu acho que precisamos separar nosso tempo do smartphone ou da internet. Ao jantar com os membros da sua família, por exemplo, você pode estabelecer uma regra para não usar smartphones e prestar atenção à conversa um do outro. Em outras palavras, é preciso esforço intencional.

Bem-Estar - Quais são as coisas que só podemos ver quando desaceleramos, afinal?

Sunim - Podemos apreciar muitas coisas que nossas vidas estão nos oferecendo agora, quando desaceleramos. Por exemplo, podemos apreciar o lindo céu azul, o sorriso maravilhoso de nossos filhos, boas comidas à nossa frente e uma conversa estreita com nossa família e amigos. Não precisamos ter muito para apreciar nossas vidas. Nós apenas temos que desacelerar um pouco e prestar atenção ao que está aqui e agora.

Bem-Estar - Como podemos transformar esse relacionamento com o tempo de uma maneira que não o sinta como um inimigo e paremos de lutar com ele?

Sunim - É apenas voltarmos nossa intenção para desacelerar e nos conectar com as coisas e as pessoas ao nosso redor. Respire fundo e faça alguns exercícios corporais. Se você deseja se desestressar e aproveitar mais sua vida, você pode fazê-lo com um simples ato de cuidar de seu corpo e mente.

Bem-Estar - O senhor tem alguma dica extra de como podemos lidar com o tempo em branco e desacelerar para viver em harmonia com o tempo?

Sunim - Quando você tiver dez segundos, sorria. Quando você tiver um minuto, respire fundo. Quando você tiver dez minutos, tome um café e relaxe. Quando você tiver 20 minutos, medite. Quando você tiver 30 minutos, ande por aí.

Bem-Estar - Seu livro "As coisas que você só vê quando desacelera" foi traduzido para diferentes idiomas e vendeu mais de 3 milhões de exemplares. Esse é um indicativo de que as pessoas estão cansadas do modo acelerado de vida que estão levando e precisam encontrar fórmulas para tentar reverter o processo?

Sunim - Acho que sim. As pessoas instintivamente sabem ser felizes. Só precisamos ser lembrados. Meu livro foi um gesto gentil para voltar a nós mesmos e cuidar de nosso próprio ser espiritual.

Bem-Estar - O senhor é uma pessoa bastante atuante nas redes sociais e há muita crítica a elas hoje, uma vez que, na prática, elas aumentam a sensação de angústia, ansiedade e inveja. Como vê a forma como essas redes são usadas atualmente?

Sunim - Você pode prestar atenção a notícias negativas ou pensamentos positivos nas mídias sociais. Em outras palavras, você pode escolher. Se o que você está olhando o faz sentir-se sempre com ciúmes e raiva, então encontre algo mais positivo, como palavras inspiradoras, gentis e profundamente verdadeiras. Adoro ler as palavras de Dalai Lama, por exemplo.

Bem-Estar - Com a venda dos livros, o senhor abriu um centro de meditação e a Escola do Coração Partido (School of Broken Hearts) em Seul e acaba de lançar uma filial em Busan. Como essas escolas funcionam e de que maneira a proposta ajudará as pessoas?

Sunim - Todos nós passamos por momentos difíceis em nossas vidas. Convido pessoas que estão passando pelo processo de divórcio, por morte de familiares, pela perda de emprego ou baixa autoestima. Quando estamos juntos, percebemos que podemos superar isso. Quando você está sozinho, você se sente impotente. Mas esse não é mais o caso quando você escuta e mostra bondade e apoio um ao outro. Adoro o meu trabalho na School of Broken Hearts na Coreia do Sul.

Tradução: Felipe Nunes