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Painel de Ideias

Listas de Janete

A vida se tornara pacífica e, Janete, menos destemperada. Sua crise de existência anual aparentemente havia desistido de irromper em seu coração acelerado pelo ritmo dos carros e motos e bicicletas e pernas que cruzavam seu caminho asfáltico


    • São José do Rio Preto
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- Arroz, cebola, alho óleo tem?

- Sim, mas o azeite acabou.

- A-zei-te. Certo. Desinfetante?

- Acabou na faxina. Põe aí também detergente e quiboa, Janete.

- Ponho sim, bem.

As listas de Janete eram intermináveis. Toda semana era preciso refazê-las, acrescentando, em esquema de rodízio, os produtos que iam findando de acordo com a dinâmica do lar. Gilmar, seu amigado a quem se referia como marido - afinal de contas, "juntado na fé, casado é", né? - acostumou-se ao longo dos últimos 12 anos a fazer suas contribuições para as listas, embora preferisse confiar na própria memória e sempre voltasse do mercado com algo por comprar.

De início, Janete ficava puta.

- Te avisei pra fazer uma lista, cara!

- Lá vem a destemperada...

No entanto, como o segredo da paz de espírito - pelo menos a de Janete - tornou-se o discernimento para escolher com o que se emputecer, aprendeu a deixar pra lá.

Entre louças e compras e a agenda do empresário a quem assessorava meio-período como secretária executiva, Janete encontrava alguma diversão em livros de autoras latinas, vinhos argentinos e cachorros vira-latas. Vez em quando, deixava que a fumaça de um incenso fizesse sua cabeça, pintava quadros. Ultimamente, vinha se tornando assídua em práticas meditativas, mesmo não entendendo direito o quê e como fazer.

A vida se tornara pacífica e, Janete, menos destemperada. Sua crise de existência anual aparentemente havia desistido de irromper em seu coração acelerado pelo ritmo dos carros e motos e bicicletas e pernas que cruzavam seu caminho asfáltico. Entretanto, uma imagem involuntária a vinha perseguindo nas últimas sessões de meditação: a cena em que ela reage violentamente quando Gilmar deixa escapar seus amados vira-latas para que dessem umas voltas pelo bairro. Tomada de uma cólera irreplicável, saca uma faca de cozinha amolada e acerta-lhe o coração. Antes que o sangue tinja o corpo de seu companheiro, Janete abre os olhos, ofegante e confusa, não compreendendo como sua mente era capaz de pintar tal atrocidade.

Sem saber o que pensar e com algum tempo livre, Janete põe mãos à obra, faz sua lista semanal e ruma ao mercado. Na seção de utensílios domésticos, chama-lhe a atenção uma faca muito parecida com a que usa em sua fantasia imoral e, vendo seu próprio reflexo no espelho da lâmina, decide que precisa conversar com o marido.

Ao confessar-lhe o segredo macabro, Gilmar ri.

- Isso daí é por causa daquela louça que eu esqueci de lavar, mulher?

- Sei lá, bem Será?

- Já sei! Foi de quando eu perdi os cachorros e só te contei dois meses depois.

- Pode ser, faz sentido

Ligaram o noticiário, sacaram a rolha de um vinho barato e o degustaram enquanto petiscavam as desgostosas novidades do cenário brasileiro: "Em entrevista, ex-procurador geral da república revela que pensou em matar ministro".

Enquanto os cachorros caíam na risada, Janete e Gilmar se entreolham, boquiabertos, tomam outro gole de vinho e suspiram, cinematograficamente juntos:

- Ah, o amor...