Diário da Região

03/09/2019 - 00h30min

PAINEL DE IDEIA

Uma Curitiba gelada, por favor

Guilherme Baffi 22/02/2019 Em seu livro, Letícia Flores deixa páginas em branco para expressão dos leitores
Em seu livro, Letícia Flores deixa páginas em branco para expressão dos leitores

"Curitiba gelada e sopinha para aquecer o corpo e coração". Li. Reli. Tentei entender o contexto e, para tanto, precisei descobrir quem era a jovem senhora que exibia a intimidade de sua família em rede social. Por inferência, entendi que era a esposa da figura pública que ganhou fama no Brasil vestindo a capa do salvador da nossa pátria arrebatada pela destruição corruptiva de um perigosíssimo partido de esquerda brasileiro, mas o que não podia compreender era por que cargas d'água uma mulher aparentemente elegante - visto a mesa posta, já que o teor da mensagem passa longe da finesse - combinaria cerveja gelada com sopa quente.

Oi? Cerveja gelada, Letícia? Pois é, minha cara leitora, meu caro leitor: uma leitura desatenta somada à carência de informações contextuais e características das personagens de uma anedota podem nos levar a interpretações equivocadas de certas situações. Não podemos ignorar, ainda, as preferências pessoais do interpretante - no meu caso, prefiro cerveja gelada à quente - e seu status mental (#exausta, digamos). São detalhes quase imperceptíveis que chamo de "lacunas da interpretação".

Compreendido o contexto, após o estranhamento, solto o aliviante e famoso "ahhhh", com ares de decepção por constatar não ser Curitiba uma nova marca de cerveja disponível para degustação. Às vezes, esses cacos da comunicação se dão pela inabilidade do emissor da mensagem em evitar ambiguidades; não foi o caso da cidadã curitibana.

Resolvida a situação embaraçosa criada pelo meu subconsciente leviano, volto ao texto e me deparo com um "Sorry, feministas". O vocativo bem marcado pela vírgula não me salvou de um segundo estranhamento: "que é que o cu tem de ver com as carça?" - refleti, soturna. Embora tenha interpretado a intenção de ofender, ironicamente, as pessoas feministas, restaram-me as dúvidas latentes: por que a repulsa ao feminismo? Por que a necessidade de associar características pejorativas a quem o defende? Qual a dificuldade de se compreender que feminismo não impede mulher nem homem de exercerem tarefas do lar, mas sim lhes dá a escolha de fazê-lo? Que tipo de emoções reprimidas cegam pessoas inteligentes a ponto de destilar ódio gratuito sobre minorias? Estaria ainda muito distante o momento da evolução humana em que todos consigamos enxergar o ser humano antes de seus rótulos, partidos e bandeiras?

A reflexão é intermitente, infinita. Ainda que tenhamos conquistado uma série de direitos e haja um movimento - sem volta - de educar meninos e meninas para a igualdade de gêneros, evitando reproduzir o machismo, que machuca, reprime e traumatiza tanto mulheres quanto homens, o opressor interno de cada indivíduo paira nas baias de escritório entre uma piada "inocente" e um "elogio" insistente; nos olhares famintos de velhos caquéticos sobre nossos corpos na fila de espera do hospital; na frustração ao perceber que nem todo homem é habilidoso com automóveis; nos muros que construímos entre nós quando atacamos uns aos outros em atividades on e offline - constatando que machismo e preconceito se adaptam habilidosamente às novas tecnologias.

Passadas as pancadas de chuva que arrebataram a secura do ar da minha querida Rio Preto, minha tristeza arredia assenta nos vasinhos de cacto que restam no jardim. O vento leva as nuvens carregadas para as beiradas da cidade e dá espaço à luz do sol. Não fosse a agenda lotada, os boletos a vencer e os amores a cuidar, talvez até te convidaria para bebericar uma Rio Preto gelada enquanto pensamos em como salvar a bezerra da morte, mas o fim de semana acabou e meu limite de caracteres também.

Boa semana. Beijo quente de Rio Preto. E sem Curitiba gelada, por favor.

 

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