Diário da Região

09/09/2019 - 17h38min

EVENTO DE MÉDICOS

Cenário de favela em festa gera polêmica

Reprodução/Instagram Estrutura montada no evento incluía até churrasco na laje
Estrutura montada no evento incluía até churrasco na laje

Um cenário que reproduzia uma favela em festa voltada à classe médica causou polêmica nas redes sociais no último fim de semana. Realizado na sexta-feira, 6, pela Unimed Rio Preto, o evento tinha o tema "No País das Maravilhas" e retrava elementos da cultura brasileira, como o carnaval, os bonecos de Olinda e as tradicionais baianas com seus acarajés. Porém, a parte do cenário que representava as favelas foi tratada como desrespeitosa por políticos de esquerda e representantes de movimentos sociais.

O Conselho Afro de Rio Preto divulgou uma nota de repúdio ao evento, que o órgão condenou por "expor a escassez de recursos como elemento alegórico e depreciativo". No texto, o Conselho diz que, além do "tratamento superficial do que é a vivência em uma comunidade de favelas, a representação inclui como características deste cenário a falta de organização e higiene".

A deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP) reproduziu um vídeo que mostrava a festa e criticou elementos que compunham o cenário, como gatos de energia elétrica e o churrasco na laje. "É revoltante que as pessoas não tenham o mínimo de bom senso e empatia ao fazer da vida da maioria da população motivo para chacota", escreveu a deputada em seu perfil no Facebook.

Em nota, a Unimed Rio Preto disse que o tema da festa, elaborada pelo party planner Wander Ferreira Júnior, fazia alusão à obra do escritor Lewis Carrol e ao Brasil, estabelecendo um paralelo entre as interpretações do clássico da literatura e a realidade brasileira.

A cooperativa ressaltou que a intenção era "despertar entre os convidados uma reflexão crítica" e, por isso, "destacou as maravilhas brasileiras sem abrir mão de fazer contundentes críticas sociais".

A Unimed disse ainda que "pessoas que não participaram da festa deturparam" a interpretação do propósito do evento com citações errôneas. Wander não foi encontrado para comentar o caso.

Leia as notas na íntegra

UNIMED - Nota à imprensa

"A Unimed São José do Rio Preto vem informar que promoveu uma festa de confraternização para médicos cooperados com o tema “No País das Maravilhas”, numa alusão direta à obra do escritor inglês Lewis Carrol e ao Brasil, estabelecendo um paralelo entre as interpretações deste clássico da literatura universal e a realidade brasileira.

A cenografia do evento usou recursos lúdicos com a intenção de despertar entre os convidados uma reflexão crítica a partir da representação de um mundo aparentemente sem sentido, como é o mundo de Alice. Assim, o evento destacou as maravilhas brasileiras sem abrir mão de fazer contundentes críticas sociais.

O Brasil, de forma plural, foi retratado com a magia do carnaval, os bonecos de Olinda, as baianas e os acarajés de Salvador, o futebol, a música sertaneja, o forró, o samba-rock e o pop nacional. Na gastronomia, trouxe a culinária do Pará, do Maranhão, da Bahia, entre outros Estados.

Dentro deste contexto, as comunidades também fizeram parte, justamente, pra lembrar aos participantes que existem muitos contrastes sociais no País.

As pessoas contratadas para trabalhar no evento foram recrutadas pela qualidade da prestação de serviços que oferecem. A Unimed São José do Rio Preto é uma empresa inclusiva, plural, comprometida em promover a diversidade em todos os seus projetos de marca empregadora. É reconhecida entre as melhores empresas para se trabalhar no Brasil, de acordo com diversos rankings nacionais.

Infelizmente, pessoas que não participaram da festa deturparam, a partir de fotos e vídeos publicados em redes sociais, a interpretação do propósito do evento com citações errôneas.

Reiteramos nosso compromisso com a verdade e a transparência, pilares de sustentação da Unimed São José do Rio Preto.

Unimed São José do Rio Preto"

CONSELHO AFRO - Nota de repúdio

"Veio ao conhecimento deste conselho que na noite de 06 de setembro de 2019 a UNIMED Rio Preto promoveu festa de luxo para os seus associados com a temática “país das maravilhas”, onde parte do cenário tratava-se da representação de uma favela, juntando-se a isso alusões a itens da cultura afro brasileira, além de forte presença de pessoas negras trabalhando para servir os convidados.

Não bastante o tratamento superficial do que é a vivência em uma comunidade de favelas, a representação inclui como características deste cenário a falta de organização e higiene, depreciando e denotando desdém à real situação de mais de 11 milhões de brasileiros, em sua esmagadora maioria negros e negras.

A exposição distorcida da vida em uma comunidade apresentada em uma festa de luxo é no mínimo reflexo da insensibilidade com a situação desses povos, refletindo também a absoluta falta de pessoas negras na direção dessa empresa e na elaboração do evento. Para qualquer negro conhecedor das situações de pobreza e da falta de políticas públicas para que as comunidades se desenvolvam é fácil a percepção de que glamourizar a miséria e a falta de investimento público é extremamente problemático.

Favela não é piada ou entretenimento. Antes de qualquer coisa, é luta por moradia e condições básicas para viver, trabalhar e sobreviver ao descaso estatal. Essa situação não dialoga com festas luxuosas, enquanto grande parte dessa população não possui ao menos condições para arcar a contratação de planos de saúde. A vida nas periferias, assim como a vida da população negra não deve ser tratada de modo depreciativo, ou ser pano de fundo para piadas e diversão.

É nítido que a negritude encontra-se em severa desvantagem econômica e nossa luta é diária para a reversão deste quadro, não sendo construtivo para essa causa a deturpação das condições de nossos povos, a exposição da miséria em forma de atração exótica e o costume de taxar como vitimismo as nossas manifestações.

Este Conselho não condena diretamente a participação de pessoas negras no quadro de trabalhadores dessa festa, uma vez que sabemos da necessidade de sobreviver e da falta de opções que nos são ofertadas; ressaltamos assim a necessidade de conscientização e união da comunidade negra em São José do Rio Preto para que situações desonrosas como essa não tornem a se repetir e que sejam devidamente reparadas.

A resposta que queremos perante esse absurdo de transformar a vida negra em objeto exótico e expor a escassez de recursos como elemento alegórico e depreciativo é no mínimo uma ação de reparação por parte da empresa UNIMED, investindo em políticas públicas em prol da comunidade negra rio-pretense.

Nós, a comunidade negra, estamos cansados de notas com simples pedidos de desculpas perante a tantas atrocidades. Para tal estaremos atentos para a discussão de proposta restaurativa visando a promoção da igualdade racial por parte da empresa.

Aguardamos contato, Unimed Rio Preto."

Artigo

Arquivo pessoal Oftalmologista Kássey Vasconcelos
Oftalmologista Kássey Vasconcelos

Saúde e racismo estrutural

Em nome da classe médica de São José do Rio Preto, e no papel de presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de nossa cidade, gostaria de tecer alguns esclarecimentos em relação à festa de confraternização da Unimed Rio Preto, realizada no último dia 6 de setembro, no Villa Conte.

Primeiramente, há de se destacar que o evento realizado é parte do calendário social estatutário da cooperativa, e não se relaciona, portanto, com o ganho dos médicos ou com os valores finais do plano de saúde gerido pela operadora como se tem dito nas redes sociais. A classe médica, como qualquer outra, se reúne e celebra datas e conquistas.

A Unimed, por ser uma operadora de saúde e não uma empresa de eventos, contou com o apoio de um profissional responsável por toda a concepção e decoração da festa, cuja temática inicial, "País das Maravilhas", tinha a pretensão de, partindo da famosa obra do escritor inglês Lewis Carroll, e em uma abordagem intertextual, alcançar a realidade cultural brasileira.

Entretanto, a subversão da lógica substituída pelo nonsense em um mundo surreal criado por Carroll e seu coelho apressado teve seu lugar de crítica social na Inglaterra vitoriana, mas em nada se relaciona com a dura vida do povo brasileiro, que tanto sofre com a desigualdade social e com o racismo estrutural - cultural e institucionalizado - que muitas vezes são fatores incapacitantes para jovens negros. E o médico, no exercício de sua profissão, vê isso diariamente, pois atende a todos, independentemente de cor, credo, raça ou classe social; é uma classe profissional que reconhece as dificuldades dos mais humildes em ter acesso ao sistema de saúde privado.

E a reafirmação de determinados estereótipos em nada acrescenta à discussão dos dias atuais, em que, chocados, descobrimos pelo noticiário atrocidades como jovens negros sendo chicoteados por seguranças de supermercado. Há de se promover reflexão crítica, é evidente; mas há, antes disso, de se manter o bom senso e a humanidade.

A classe médica, consciente do importante papel social que carrega, consciente da responsabilidade social da Unimed Rio Preto, da transparência da cooperativa e da idoneidade de sua diretoria, se desculpa com a sociedade pelo episódio ora relatado. Mea culpa, mea maxima culpa.

Dr. Kássey Vasconcelos, Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São José do Rio Preto. Exclusivo para o Diário da Região

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