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EMPREENDEDORISMO

Conhecimento como moeda

Empresas que investirem em seus colaboradores terão mais chances de encarar as mudanças pelas quais o mundo tem passado, e ainda poderão aproveitar melhor a onda de retomada do crescimento


    • São José do Rio Preto
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"Quando você investe em pessoas, pessoas investem em você. E essa via de mão dupla é muito importante". A afirmação é da neurocientista Carla Tieppo, que participou nesta quinta-feira, 19, em Rio Preto, do evento em comemoração aos 16 anos das empresas CCLi Consultoria Linguística e Cegente Educação Corporativa. O evento para convidados teve como tema 'Aprender a Aprender' e contou também a palestra do professor José Pacheco, criador da Escola da Ponte, em Portugal.

Segundo Carla, os empresários que estiverem antenados ao momento são aqueles que conseguirão aproveitar o momento de crise e liderar a retomada de crescimento oferecendo os serviços que precisam ser comprados para toda a economia voltar a crescer. "Quando um empresário - depois de ter passado tanto tempo de sufoco - quer aliviar a sua própria pressão amealhando os lucros e pensando apenas em si, ele vai ter dificuldade para aproveitar essa onda de crescimento", afirma.

Para se destacar, a empresa precisa investir no desenvolvimento das pessoas, promovendo aprendizado de qualidade. "Não adianta ficar fazendo treinamento vazio. As pessoas vão perceber o investimento feito nelas e vão trazer isso de volta para a organização", diz a especialista. Dessa forma, a empresa cresce, por meio do potencial colaborativo. "Essa é tônica, acabou o comando e controle, acabou o 'eu ganho e vocês fazem eu ganhar'".

Empresas atentas às mudanças culturais e na própria forma de gestão já estão promovendo as adequações necessárias e investindo num ambiente de trabalho de qualidade, assim como estão preocupadas em não fazer mal à emocionalidade do funcionário. "Tem muita empresa trabalhando com promoção de saúde mental, de um ambiente adequado, uma cultura colaborativa e inclusiva. Se fala muito em diversidade e inclusão. Em tudo isso a gente pode usar a neurociência para promover".

A especialista afirma ainda que as organizações estão preocupadas em promover um ambiente de qualidade porque sabem que se não fizerem vão perder os melhores colaboradores. "Os melhores estão selecionando onde querem trabalhar. Para ter uma retenção de talentos, elas precisam construir um clima agradável, um clima que promova o crescimento. É preciso ser desafiador e dar uma oportunidade de crescimento, é a equação correta", orienta.

Um equívoco que ainda é cometido nas empresas, segundo Carla, é a forma de seleção. A seleção considera criatividade e inovação do trabalhador, mas quando ele é contratado, deve seguir os processos já estabelecidos. "Há uma dissonância entre o que se fala e o que se valida".

Ela destaca ainda que a transformação cultural nas empresas tem sido forte e que hoje o que se busca, além da criatividade, são comportamentos colaborativos, de trabalho em equipe, com comunicação eficiente, voltados à alta performance e produtividade.

Esse modelo já está sendo adotado pelas startups e até mesmo grandes multinacionais. "Não vai adiantar repetir processos porque para isso temos a inteligência artificial. Vamos precisar de seres humanos capazes de criar uma nova condição de vida para a humanidade e resolver os grandes problemas".

Conhecimento

O evento promovido pelas duas empresas - que foram fundadas no mesmo mês e mesmo ano - tem por objetivo difundir o conhecimento, já que as duas atuam com segmentos voltados à educação, tanto de pessoas físicas como de pessoas jurídicas. "É um desafio que começou há quatro anos. Temos o propósito de ajudar nossos clientes a conseguir atingir seus resultados nesse mundo de hoje, que é cada vez mais complexo, volátil, mais difícil de lidar com o dia a dia. Trazer temas como os que temos trazido nos eventos de aniversário ajuda nossos clientes e parceiros a pensar sobre tendências e questões que vão impactar no nosso dia a dia profissional", afirmou Daniel Rodrigues, diretor da CCLi.

Para Ana Carolina Verdi Braga Ragonha, diretora da Cegente, o tema 'Aprender a Aprender' é uma das principais competências em debate na atualidade. "Não há mais espaço para a síndrome de Gabriela: eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim. O que deu certo não vai dar mais, por isso é preciso estar aberto às mudanças".

E as mudanças na cultura da empresa partem dos empresários, que lideram gestores, equipes e trabalhadores do operacional. "Quem não desaprender e aprender de nova forma não vai sobreviver na empresa e no mundo."

 

Segundo o educador José Pacheco, criador da Escola da Ponte, em Portugal, ninguém aprende cidadania senão no exercício da cidadania. "Isso não acontece com regras rígidas, acontece com experiências em espaços de liberdade responsável". Pacheco ajudou na criação da escola Maria Peregrina, em Rio Preto, que segue o modelo da Escola da Ponte.

Durante passagem por Rio Preto, no evento '16 anos de conexões CCLi Cegente', o defensor do modelo educacional pautado no protagonismo e no estabelecimento do vínculo - sem aulas, turmas, classes e provas - afirmou que em uma sala de aula nada se aprende. "A escola que temos hoje nasceu militarizada, com regras impostas ainda no século 19".

O educador afirma que, no processo de aprendizagem, o centro é o sujeito e não o professor. Ele reforça que a aprendizagem é antropofágica, ou seja, "não aprendo o que o outro diz, eu aprendo o outro".

Crítico dos métodos tradicionais e da burocracia do sistema educacional brasileiro, administrado, segundo ele por pessoas que não têm qualquer conhecimento do tema, Pacheco afirma: "a aprendizagem acontece quando é significativa, quando faz sentido. A aprendizagem acontece não naquilo que o professor diz, porque ele não ensina o que diz, ele transmite o que é. Aprendizagem acontece quando se produz currículo e não quando se consome acefalamente uma base nacional curricular que é uma vergonha".

Segundo Pacheco, o que se tem feito em países como Índia, Japão e até mesmo no Brasil - uma pressão excessiva em crianças e adolescentes em idade escolar - está levando a um número muito alto de suicídio infantil e juvenil. Tudo porque esses estudantes não têm conseguindo entrar para as universidades, por meio dos vestibulares. "Será que não estamos exigindo demais de crianças e jovens sem dar a contrapartida da educação como deve ser? O jovem há 30, 40, 50 anos se sujeitava a ficar dentro de uma sala de aula. Hoje não", disse. E completou: "eles precisam de uma outra escola, de um outro modelo, de uma outra construção social de aprendizagem, que não esta que aqui está", disse. (LM)