Trânsito na região mata quatro vezes mais que assassinatosÍcone de fechar Fechar

PAZ NO TRÂNSITO

Trânsito na região mata quatro vezes mais que assassinatos

Acidentes de trânsito matam quase quatro vezes mais do que assassinatos na região; maioria dos acidentes com morte acontece no final de semana


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Acidentes de trânsito matam quase quatro vezes mais pessoas do que assassinatos no Noroeste paulista. A constatação é de levantamento do Diário com base em dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP) e do Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito (Infosiga-SP). Os dados abrem série de reportagens na Semana Nacional do Trânsito.

Na região, a arma que faz mais vítimas não são facas ou revólveres, mas os automóveis, caminhões e motocicletas.

Somados os últimos dois anos e sete meses - de janeiro de 2017 a julho de 2019 -, 944 pessoas morreram no trânsito regional contra 267 assassinatos - 253% a mais. Diferença que está ainda maior neste ano. Do janeiro a julho, 221 pessoas morreram em acidentes de trânsito nas 116 cidades da região. Em contrapartida, no mesmo período, 46 pessoas foram assassinadas. A diferença é de 380% e acende um sinal de alerta em relação à conscientização dos perigos do trânsito.

A explicação dessa diferença exponencial, para o tenente da Polícia Rodoviária Estadual César Augusto da Silva, está no excesso de velocidade praticado por condutores imprudentes em vias de menor fluxo de veículos e de imprudências simples no trânsito, como falar ao celular e não respeitar a sinalização.

"No interior, por ter menos veículos nas estradas, o condutor [excedendo a velocidade máxima permitida], ao perder o controle, vai colidir de 100 a 200 metros depois em uma árvore ou barranco, aí os danos são bem maiores, tanto nas vítimas quanto nos veículos", disse Silva.

Quando analisado mais a fundo o número de mortes no trânsito neste ano na região, também é possível constatar que mais da metade das 221 vítimas morreram no final de semana, ou seja, 56% das mortes aconteceram entre sexta-feira e domingo. Exemplo aconteceu no último sábado, 14, quando três pessoas da mesma família morreram em um acidente na rodovia José Wilibaldo de Freitas (SP-304), em Novo Horizonte.

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Reprodução)

No acidente, por motivos a serem esclarecidos, Ernesto Salvador da Silva, de 58 anos, perdeu o controle da direção do Gol que conduzia e bateu na traseira de um caminhão bitrem. Com a batida, Florinda de Oliveira Abrantes, de 77 anos, e a filha Maria Benedita de Oliveira, 58, que estavam no banco de trás, morreram. Ernesto chegou a ser socorrido e encaminhado para o Hospital Padre Albino, em Catanduva, mas não resistiu aos ferimentos e também morreu nesta segunda-feira, 16. Os três familiares foram sepultados no Cemitério Municipal de Sales.

O cirurgião do trauma do Hospital de Base de Rio Preto Paulo Espada está acostumado a atender vítimas de acidentes. Segundo ele, nos finais de semana o número de atendimentos no hospital dispara. "No segundo e terceiro finais de semana do mês percebemos que acontecem mais acidentes. Acreditamos que é por conta do salário ter caído na conta do trabalhador", ressaltou.

Vinte e oito por cento das mortes no trânsito da região entre janeiro e julho tiveram como vítimas jovens na faixa etária entre 18 e 34 anos. Foram 62 vítimas nessa faixa. "A maioria dos atendimentos é de jovens do sexo masculino. Quando envolve óbito, são lesões mais graves, como trauma craniano, lesões de tronco e abdômen e até lesões graves na coluna", afirmou o cirurgião do trauma do HB.

Acidentes banalizados

Para o especialista em trânsito Renato Campestrini, a sensação de onipotência que existe no condutor brasileiro pode ser uma das explicações para o número de mortes no trânsito ultrapassar o de assassinatos. "Atualmente visualizar um acidente de trânsito se tornou algo tão comum na vida das pessoas que praticamente não choca mais, exceto as grandes tragédias que de uma vez ceifam várias vidas. Mas, no dia a dia, no corre-corre das cidades, um acidente de trânsito é apenas isso, mais um", opinou.

Quanto maior a fiscalização, maior é o número de infrações. Isso é o que constatam os agentes da polícia rodoviária quando o assunto é imprudência no trânsito. O inspetor da Polícia Rodoviária Federal Flávio Catarucci, por exemplo, está acostumado a flagrar situações de imprudência na BR-153. Para ele, ainda falta conscientização por parte do condutor brasileiro sobre os riscos no trânsito. "As pessoas não assimilam o caráter educativo das notícias sobre as mortes no trânsito, porque não acreditam que acidentes possam acontecer com elas ou algum familiar. Isso dificulta a mudança de comportamento."

Mudança que quando não ocorre contribui para acidente. "Neste ano na região, os acidentes que mais resultaram em mortes nas rodovias estaduais foi colisão frontal. A gente sabe que o trânsito é o que mais mata entre as causas externas, porque é algo muito perigoso. Por isso, a importância da conscientização", finalizou César, tenente da PRE. (RC)