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COMUNIDADES RIBEIRINHAS

Barco Hospital realiza primeira missão oficial em águas amazônicas

Um pedido do papa - atendido pelo Lar São Francisco de Assis de Jaci - deu início ao Barco Hospital, que já oferece atendimentos, ultrassons, cirurgias e muito mais às comunidades ribeirinhas da Amazônia


    • São José do Rio Preto
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"Senhor, fazei-me instrumento da Vossa paz... Onde houver desespero, que eu leve a esperança / Onde houver tristeza, que eu leve a alegria / Onde houver trevas, que eu leve a luz". O trecho da Oração de São Francisco transforma em música a missão do Barco Hospital Papa Francisco, que nesta última semana realizou sua primeira missão oficial em águas amazônicas, na cidade de Faro, no oeste do Pará.

A embarcação começou a ser idealizada em 2013 pela Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, com sede em Jaci, após um pedido do papa. O objetivo é levar assistência médica e apoio espiritual para 700 mil pessoas que vivem às margens do rio Amazonas, região muito carente de atenção médica - são horas de barco para realizar exames que deveriam ser comuns, como ultrassonografia.

Para o frei Joel Souza, que acompanhou o processo desde o início, o Barco é um sonho tornado realidade. "É um verdadeiro milagre que está diante dos nossos olhos. E poder também participar, me dedicar. Como franciscano na providência de Deus, realizar essa missão é um sentimento de muita nobreza. Eu vejo que a gente tem feito a diferença na vida das pessoas", afirma.

A primeira missão oficial aconteceu entre os dias 21 e 26 de setembro, em Faro - primeiro na comunidade rural de Aibi, depois na cidade de Faro e por último na comunidade de Maracanã. Foram atendidas 1.008 pessoas no total - 14% da população de 7.194 habitantes estimada pelo IBGE.

Luiz Erivan, 17 anos, mora em Faro desde que nasceu. Ele acompanha tudo que a Fraternidade faz de bom para a população e viu os olhos dos habitantes da cidade brilharem quando, no dia 24 de junho, dom Bernardo Bahlmann, bispo de Óbidos, anunciou que a primeira expedição do Barco Hospital seria na região: "A alma agradecida e a esperança a se despertar", descreve.

O adolescente foi atendido pelo odontologista e fala que existem médicos na região, porém a falta de estrutura impossibilita o trabalho dos profissionais. "Os médicos que vieram no Barco Hospital Papa Francisco realmente Deus mandou em um momento de extrema necessidade. Eu vi a grande quantidade de pessoas indo ao barco com um novo olhar de esperança."

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Reprodução)

A comitiva de profissionais que foram para a expedição foi formada por Aline Soares de Souza, cirurgiã; Fábio Doria, cirurgião; Flávia Rosana Watanabe, anestesiologista; Guilherme Pinto Camargo, radiologista e diretor técnico-médico da Associação e Fraternidade; José Luiz Sánchez, odontologista; Maria Fernanda Martinelli Trablusi, cirurgiã; Renato Patuzzo, oftalmologista; Viviane Thomazine, enfermeira e Yeda Maria Vieira, odontologista. A embarcação conta com uma equipe fixa, contratada.

Um dos pontos mais marcantes dos dias de atendimento foi o nascimento do bebê Adriano Francisco na noite de terça-feira, 24, em Faro. O nome do menino é em homenagem ao pai e ao barco. A mãe, Andressa de Azevedo Campos, de 21 anos, entrou em trabalho de parto e a ultrassonografia apontou que a criança estava sentada, ou seja, não poderia nascer de parto normal, como é o costume da região. Pela distância, podia não dar tempo de levá-la ao hospital e o bebê poderia morrer.

Foi realizada então a cesárea. "É o meu primeiro filho. Fui muito bem atendida, estava segura e confiante, eu vi que tinha muita gente boa, com o coração bom, nada de coisa ruim", conta. "Eles cuidaram muito de mim. A dor estava muito forte e eu sentia que estava na hora dele vir, eles fizeram de tudo para trazer ele ao mundo."

Andressa é moradora de Faro e o barco precisava seguir para Maracanã, por isso a mãe e Adriano Francisco foram transferidos para o hospital do município, de onde já tiveram alta. "Estou muito bem, graças a Deus, meu filhinho também está bem."

José Roberto Gomes, funcionário público de 46 anos, foi atendido pelos doutores José Luiz e Renato. Como é agente de pastoral da igreja, também ajudou a organizar os atendimentos - a triagem era feita dentro e fora da embarcação. "Fiquei muito agradecido pela atenção prestada à minha pessoa", afirma.

Ele diz que Faro conta com os médicos da rede básica que atendem nos postos de saúde e com um clínico geral que de 15 em 15 dias visita o hospital da cidade. "Infelizmente a carência é muito grande no nosso município, falta medicação, falta material no hospital, para a cidade às vezes tem um aparelho de medir pressão arterial e às vezes ele não está funcionando", relata. "Se na cidade estou relatando que acontece tudo isso, imagina no interior."

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Irmã Violeta, da paróquia São João Batista, realizou uma tomografia e ficou muito feliz com o atendimento. "Na cidade a gente só escuta elogios. Os exames bem feitos, todos podemos dizer que é de primeiro mundo a aparelhagem. Os médicos e enfermeiras muito simpáticos e cordiais. Só temos a agradecer a essa equipe muito eficiente no trabalho, na atenção, na paciência", descreve ela, citando frei Joel. "Em nenhum momento perdeu a paciência ou se estressou. Pelo contrário. Quando o negócio estava meio pesado, ele brincava."

A intenção é realizar duas expedições por mês no Barco, que foi inaugurado em agosto. A próxima está marcada para ocorrer entre os dias 2 e 11 de outubro na região de Juruti.

Consultas:

  • Clínico Geral/ Cirúrgico - 629
  • Odontologia - 161
  • Oftalmologia - 218

Exames:

  • Raios-X - 126
  • Mamografias - 67
  • Ultrassonografias - 214
  • Laboratoriais - 371
  • Oftalmológicos - 251

Mais

  • Internações - 40
  • Procedimentos
  • cirúrgicos - 40
  • Farmácia - 520 pacientes receberam medicamentos para o tratamento

Total de pacientes atendidos: 1.008

 

Famílias inteiras, desde os netos até os avós, indo buscar atendimento. Moradores levando peixes, galinhas caipiras e frutas para alimentar os profissionais do Barco Hospital Papa Francisco, em sinal de agradecimento pelo atendimento recebido. Filas de centenas de pessoas.

De repente, não é mais necessário promover festas e bingos para arrecadar dinheiro para que um morador da comunidade chegue até a cidade grande (depois de pelo menos cinco horas de barco) para fazer um exame de ultrassonografia - o espírito de comunidade pode ser lindo e comprova que todos são uma família, mas mostra o quão difícil é a vida de quem precisa de um simples raio-X às margens do rio Amazonas. Mesmo na Santa Casa de Óbidos, por exemplo, foi um desafio instalar um aparelho do tipo, pois a rede elétrica não comportava.

A esperança tem nome: Barco Hospital Papa Francisco. Com 32 metros de comprimento e base oficial instalada em Óbidos, a unidade chega - anunciada antes pelas ambulanchas - com centros cirúrgicos, consultórios e trazendo especialistas que grande parte daquela população nunca viu, como oftalmologistas - na maior parte da região, a assistência médica é básica e precária.

"O Barco Hospital Papa Francisco nessa região é um grande sinal de Deus, de esperança, de solidariedade que tem chamado homens e mulheres comprometidos, através de sua missão pessoal, principalmente na área da saúde. Oferecemos saúde e recebemos gratidão, o amor e a esperança de nosso povo. É um hospital que vai ao encontro dos nossos irmãos", afirma o frei Joel Souza, que trabalha no Pará e acompanhou a construção do barco desde quando ele era apenas um sonho.

A embarcação foi um pedido do papa Francisco. Durante a Jornada Mundial da Juventude no Brasil, em 2013, ele conversou com o frei Francisco Belotti, superintendente da Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, com sede em Jaci. Durante o diálogo, o sumo sacerdote perguntou: "vocês estão na Amazônia?". O frei respondeu que não e o papa rebateu: "Então devem ir".

Como resultado desse pedido, em 2014 a Fraternidade assumiu a direção da Santa Casa de Óbidos, no Pará, e em 2015 passou a administrar um hospital em Juriti, no mesmo estado, já com o desenvolvimento do barco, que foi construído em Fortaleza (Ceará), em curso.

O recurso para a construção do navio veio do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 15ª região, por meio de um acordo por dano moral coletivo firmado em 2013 com algumas empresas. O investimento é de cerca de R$ 24,5 milhões. (MG)

A equipe do Barco Hospital Papa Francisco contou com cerca de 30 pessoas na primeira expedição na região de Faro, além dos religiosos franciscanos da região, que também colaboraram. A rotina começava assim que o dia amanhecia e terminava somente depois de o Sol ter se posto. Guilherme Pinto Camargo, radiologista e diretor técnico-médico da Associação, diz que é um sonho realizado. A equipe chegou nesta sexta-feira, 27, a Rio Preto. "Acordei em estado de graça e com um nó na garganta, de tanta felicidade que passamos lá", conta.

O barco é precedido por uma ambulancha, que vai na frente com parte da equipe de voluntários para triar os pacientes, levantar quantas famílias moram na comunidade e verificar qual a principal necessidade. A outra ambulancha fica de prontidão, caso seja necessário remover algum paciente para os hospitais de apoio, que são as santas casas de Óbidos e Juruti. Nesta primeira expedição, todos os casos foram resolvidos no próprio barco.

Um caso chamou a atenção dos médicos: a de uma mulher que havia dado à luz gêmeos há 12 dias e estava com uma infecção generalizada - sem o diagnóstico, ela poderia ter morrido em menos de 24 horas, mas fez cirurgia de retirada do útero e passa bem. Não só nesse caso, mas em todos em que há necessidade de acompanhamento, a equipe forneceu os medicamentos e deixou os pacientes encaminhados no serviço de saúde local para continuar os tratamentos.

Além da assistência médica, o grupo também celebrou a religiosidade com missas e interagiu com a população. "Vivemos o dia a dia deles, em Maracanã fizeram uma apresentação para nós. Foi um envolvimento geral de ver a felicidade deles de ter essa esperança. Pacientes que nunca tinham feito ultrassom, passado por oftalmologista, nunca tinham feito exame laboratorial. A gente percebia no rosto deles a felicidade e a gratidão, e nós muito mais por eles."

Guilherme garante que viveu o maior momento de sua vida profissional e agradece aos colegas. "O que eles têm lá é muito pouco do básico, tem lugares que nem tem médico, se tiver são apenas clínicos, e o barco está fazendo a função de levar a especialidade. Saímos com o sentimento de que praticamente atendemos todos", afirma. (MG)

"Este hospital fluvial é acima de tudo uma resposta ao mandato do Senhor, que continua a enviar aos seus discípulos a anunciar o Reino de Deus e a curar os doentes". A frase é do papa Francisco e foi extraída de carta enviada à Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, que tem sede em Jaci, em comemoração à inauguração do Barco Hospital Papa Francisco, ocorrida em agosto.

Em novembro de 2018, o frei Francisco Belotti, superintendente da Associação, foi ao Vaticano convidar o papa Francisco para participar da inauguração da embarcação, porém o pontífice não tinha agenda oficial no Brasil.

A carta, com o brasão do Vaticano, está recheada de referências bíblicas. Começa com "queridos irmãos e irmãs" e tem duas páginas digitadas com a assinatura do papa Francisco ao final. "Do mesmo modo como Jesus, ao aparecer andando sobre as águas, acalmou a tempestade e fortaleceu a fé dos discípulos, esse barco levará tanto o conforto espiritual como a calmaria para as agitações dos homens e mulheres carentes, abandonados à própria sorte", escreve o papa.

O sumo pontífice afirma ainda: "é com grande satisfação que me uno a vocês neste momento de alegria e ação de graças a Deus pela inauguração do Barco Hospital Papa Francisco, que levará a Palavra de Deus e oferecerá acesso a uma saúde melhor para as populações mais carentes, sobretudo os povos indígenas e ribeirinhos".

"A própria Secretaria de Saúde do Pará alega que 80% das instituições não têm o que o navio tem. As pessoas acabam morrendo por falta de assistência e também na transferência de um lugar para o outro", disse o frei Francisco em junho deste ano, quando a embarcação saiu de Fortaleza, onde foi montada, rumo ao rio Amazonas. Ele citou as dificuldades provocadas, por exemplo, pelas cheias, quando a água invade as cidades. "Os mais vulneráveis são as crianças e os idosos. As pessoas vivem do peixe, da farinha de mandioca, da extração e ao mesmo tempo são as guardiãs da floresta. Nós estamos aqui para aliviar uma gotinha."

"Meu coração exulta em prece de louvor a Deus pai... que eu e todos os que aqui dedicam suas vidas glorifiquemos o Pai que está nos céus a serviço da vida", disse o frei Francisco na véspera da inauguração. (MG)