Rio Preto é a 5ª cidade do País com mais casos de dengueÍcone de fechar Fechar

UMA 'CAMPEÃ' EM DENGUE

Rio Preto é a 5ª cidade do País com mais casos de dengue

Rio Preto tem 32.461 casos de dengue: cidade fica à frente - e não é motivo de orgulho - da maior parte dos estados brasileiros e é a quinta em número de pacientes do País


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Com 32.461 casos confirmados de dengue neste ano, Rio Preto registrou sozinha mais casos de dengue do que a maioria dos estados brasileiros, inclusive mais do que aqueles que historicamente sofrem com as arboviroses, como Pernambuco e Sergipe. Apenas os estados de São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás e o Distrito Federal superam Rio Preto em quantidade de ocorrências positivas da doença.

A maior cidade do Noroeste paulista é pelo menos a quinta do Brasil com maior número de pacientes com dengue, atrás apenas de quatro municípios de Minas Gerais: Uberlândia (32.840 casos), Contagem (42.641), Betim (47.758) e Belo Horizonte (116.570). E a chance de Rio Preto superar até três dessas cidades é grande, já que a Secretaria de Saúde de Minas Gerais contabiliza não apenas os casos confirmados, mas também os prováveis - ou seja, nos dados mineiros estão inclusas as suspeitas, e nos de Rio Preto apenas as confirmações.   

A epidemia deste ano na cidade foi a maior de todos os tempos e superou muito as projeções feitas no início do ano pela Secretaria Municipal de Saúde, que estimava 20 mil casos, quantidade que foi atingida em junho. Vários fatores contribuíram para a explosão. Um deles é que no final do ano passado o vírus do tipo 2 da dengue, que não circulava de forma intensa na cidade há muitos anos, encontrou por aqui os outros ingredientes para um surto: uma população suscetível, sem nenhuma imunidade, e o mosquito transmissor, o Aedes aegypti.

"Nós ainda somos uma civilização que gera muita água parada na construção civil, nos resíduos, no dia a dia. É ingênuo culpar só a população ou só os governos, que têm gastado milhões na tentativa de diminuir o impacto da dengue, existem exércitos de agentes de controle de vetores", pontua Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, infectologista do Departamento de Doenças Tropicais e Diagnóstico por Imagem do curso de medicina da Unesp de Bauru. 

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Reprodução/Ivan Feitosa/Divulgação/Prefeitura)

Mortes

Neste ano, 18 pessoas tiveram morte confirmada pela dengue em Rio Preto, o maior número da história - no Estado, Bauru foi a que teve mortalidade maior, com pelo menos 21 óbitos. O professor Carlos pontua que esta epidemia de dengue foi ainda pior para Rio Preto. O tipo 1 da doença circulou intensamente em vários anos, como 2015, portanto a grande maioria da população teve a doença em algum momento da vida. A segunda infecção pelo vírus é muito mais arriscada.

"Quando você desenvolve o tipo 3 da dengue, por exemplo, seu corpo faz anticorpos que o destroem. Mas quando entra no seu organismo um vírus do tipo 1, esses anticorpos em vez de destruírem formam uma espécie de couraça nele, tornando-o mais forte e mais difícil de ser destruído pelo sistema imunológico humano", explica o infectologista. "Por isso uma epidemia do tipo 2 em uma área que foi extremamente afetada pelo tipo 1 como Rio Preto é preocupante pela quantidade de casos graves e mortes que pode causar. Isso tem que deixar a saúde pública em alerta para identificar os pacientes que tendem a evoluir de forma grave."

Medidas

A Secretaria de Saúde de Rio Preto defende que tomou as medidas necessárias para evitar que o problema fosse ainda maior. Uma delas foi a criação do Centro de Hidratação, para onde eram encaminhados os pacientes que poderiam ter complicações. Lá eles ficavam horas recebendo o soro. Dos 32,4 mil casos confirmados, 449 foram com sinais de alarme e 25 considerados graves. Maurício Lacerda Nogueira, colaborador da Secretaria de Saúde e professor do Laboratório de Virologia da Famerp, pontua que a cada caso sintomático existem outros cinco assintomáticos - ou seja, neste ano quase metade da população rio-pretense ficou doente. Ele aponta ainda outro fator para o grande número de casos positivos confirmados: Rio Preto confirma bastante porque faz o diagnóstico e realiza os exames nas pessoas com suspeita.

O vírus da dengue ataca diversos tecidos do corpo e faz a quantidade de plaquetas, células que impedem os sangramentos, baixar, por isso o risco de hemorragia. Não é a perda de sangue, no entanto, que causa a maior parte das mortes, mas sim o choque - os vasos sanguíneos perdem líquido, o que faz a pressão arterial baixar e os sinais vitais diminuírem. Para repor essa perda de líquido, a hidratação é importante.

Grande parte da população de Rio Preto está imune ao tipo 1 da dengue, então ele não será uma preocupação por vários anos - a intensa circulação em períodos como 2013 e 2015, inclusive, explica o período de calmaria em 2017 e 2018. Segundo Maurício Lacerda Nogueira, professor do Laboratório de Virologia da Famerp, a pequena quantidade de casos positivos da doença registrada em Rio Preto nestes anos deve demorar a ser igualada. Enquanto isso, a Secretaria de Saúde segue monitorando a circulação do vírus na cidade. Em 2020 o tipo 2 deverá fazer mais doentes, porém acredita-se que em menores proporções que neste ano, já que boa parte da população teve a doença.

Uma das preocupações de Maurício, no entanto, é com o tipo 3, que também pode ser bastante sintomático. "Existem dados da Secretaria de Estado da Saúde mostrando alguns poucos casos de dengue 3 na região de Birigui e Araçatuba. A gente não viu ele aqui, mas eu não tenho dúvida de que se houver a introdução vai ter uma epidemia", acredita. Se o subtipo chegar em 2020 a tendência é de que o surto seja menor, já que após contrair um tipo da doença há imunidade por um tempo contra os outros. "Se a introdução for daqui quatro, cinco anos, pode ser do mesmo tamanho ou até maior." (MG)

O Ministério da Saúde lançou nesta semana, quando foram divulgados novos dados que apontaram o avanço de quase 600% da dengue em relação ao ano passado no País, uma campanha publicitária com o slogan "E você? Já combateu o mosquito hoje? A mudança começa por você", com o objetivo de conscientizar a população e gestores locais e estaduais sobre o combate ao Aedes aegypti, inseto transmissor da doença.

De acordo com a Secretaria de Saúde de Rio Preto, serão mantidas as ações já em curso, mas não há previsão de incrementar as medidas, já que neste momento a circulação do vírus está mais baixa.

Segundo Andreia Negri Reis, gerente do Departamento de Vigilância Epidemiológica, os agentes de saúde continuarão visitando os imóveis rotineiramente e está mantida a conscientização nas escolas - por meio de atividades lúdicas, as crianças aprendem sobre o mosquito e a doença. "Os pontos estratégicos a gente não para em momento algum. O Ministério está lançando essa campanha de conscientização realmente pelo risco dessa circulação do dengue 2 no País. Aqui no nosso município tivemos epidemia grande neste ano, vários lugares não tiveram", afirma a enfermeira.

É o que apontam os dados do governo federal: Pernambuco, por exemplo, que historicamente sofre com as arboviroses - foi lá a maior incidência de microcefalia em bebês provocada pelo zika, por exemplo - registrou 31.056 casos de dengue em 2019, menos que Rio Preto. O virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Famerp, diz que o vírus 2 está entrando por São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal, mas nos próximos dois anos deve atingir o Brasil inteiro. "A epidemia de dengue 3 atingiu Rio Preto em 2006 e 2007 e o Rio de Janeiro em 2001 ou 2002, ou seja, demorou cinco anos para chegar aqui".

Para frear o avanço da doença neste ano, Rio Preto utilizou a nebulização veicular (o "fumacê"), além da que é feita manualmente pelos agentes. As unidades básicas de saúde foram incluídas pela primeira vez no atendimento e realizaram 26 mil atendimentos a pacientes com suspeita.

Cerca de 800 profissionais de saúde foram capacitados e o poder público contratou mais leitos na Santa Casa, Hospital de Base e AME exclusivamente para atender quem estava com dengue. Foram vistoriados 500 mil imóveis durante mutirões e recolhidas 700 toneladas de materiais.

A epidemia de dengue na cidade chegou oficialmente ao fim em julho, já que a quantidade de notificações que estavam chegando toda semana se igualou à do mesmo período de anos não epidêmicos. Isso não é motivo para descuidar, já que a dengue é endêmica na região, ou seja, circula durante o ano todo, e se houver o mosquito mais casos vão aparecer.

Criadouros

Em Rio Preto a Vigilância Ambiental notou que os criadouros mudaram de lugar - até o ano passado, os maiores focos de Aedes aegypti eram os materiais inservíveis e que já deveriam ter sido descartados pelo morador, como garrafas pet e sacolas plásticas.

Em 2019 são aqueles criadouros que tinham alguma utilidade para o morador, mas que não estão recebendo os devidos cuidados, como pratinho da planta, pingadeiras de vaso, bebedouro de animal, latas, frascos e plásticos diversos.

Apesar dos números históricos, que colocaram Rio Preto como líder no Estado de São Paulo em quantidade de casos e como uma das cidades com mais ocorrências no Brasil, a Saúde avalia que a estrutura de atendimento e combate ao Aedes foi bem organizada. O Centro de Hidratação, para onde eram encaminhados os pacientes que poderiam evoluir com gravidade, realizou 6.570 atendimentos entre fevereiro e maio. Lá os pacientes eram hidratados por horas, o que na avaliação da Saúde diminuiu o número de encaminhamentos aos hospitais, onde 1,2 mil pessoas foram internadas.

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Kleber, reforça que este é o momento de fazer diferente e evitar o nascimento dos mosquitos no período de chuvas. "Se cada um tirar dez minutos por semana, dentro da sua rotina, [para] checar os locais onde o mosquito pode ter depositado ovos e que no contato com água possa nascer mosquitos; olhar ralos, calhas, caixas d'água, garrafas e suas tampas, pneus, e outros objetos pequenos que o mosquito tenha capacidade de colocar os ovos e ser um criadouro; além de evitar a proliferação do mosquito, também teremos um ambiente muito mais higiênico", afirma o secretário. "Desta forma a gente não protege somente a nossa casa, mas protegemos toda a nossa comunidade da circulação do mosquito."

A ação do Ministério da Saúde, que teve seu período de veiculação adiantado neste ano para setembro, reforça a necessidade de manter a mobilização nacional durante todo o ano, e não apenas nos períodos críticos, de chuva e calor. A medida traz mais tempo aos gestores locais e a população para desenvolverem ações estratégicas no combate ao Aedes aegypti, de acordo com a realidade de cada região. Geralmente, as campanhas ocorriam a partir de novembro, período de maior incidência de chuva e calor em quase todo o País, portanto, aumentando o risco de circulação das doenças.