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CULTURA

Tihany reúne histórias e impressiona pela grandeza do espetáculo

Circo Tihany, em cartaz em Rio Preto até o fim deste mês, impressiona pelo brilho das apresentações, magia e extravagância; são 50 artistas de 25 nacionalidades que encantam o público com dança, acrobacia e muito ilusionismo


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Quem vai ao circo Tihany Spectacular pela primeira vez - e também na segunda - se encanta desde o primeiro minuto. É tudo tão grandioso e brilhante que fica difícil não se impressionar já desde o corredor que leva à plateia. Não é para menos. Com 65 anos de história e quilômetros e quilômetros rodados entre 300 cidades de 20 países, a precisão é uma das marcas registradas do espetáculo circense que reúne 50 artistas de 25 nacionalidades e quase o dobro de profissionais atrás das cortinas do espetáculo.

Em temporada em Rio Preto até o fim de setembro, o Tihany voltou à cidade cinco anos depois de também se apresentar com a turnê AbraKdabra. "Estamos repetindo as melhores praças e nos despedindo do Brasil", afirmou o relações públicas do circo, Enrique Alvarado. Ele se refere a Curitiba e Florianópolis, onde o circo já voltou, mostrando que Rio Preto não é uma capital, mas que consome cultura como uma grande cidade. Em 2014, durante oito semanas por aqui, foram cerca 120 mil espectadores.

E não é porque já se viu o espetáculo uma vez que não há mais surpresas durante o show de 2h15 de duração. Ao contrário. A apresentação criada em Las Vegas, nos Estados Unidos, foi atualizada e conta com novas atrações, mas sem deixar a tradição de lado. Em Rio Preto mesmo, quem foi nos primeiros dias não viu o artista mexicano Marco Antonio Pegago. Ele faz um número Hula Hoop, com bambolês, e estreou nesta semana.

A estrutura do circo é um castelo, recém-chegado da Itália e com capacidade para 1.762 pessoas sentadas. O próprio palco é uma atração à parte. São 700 metros quadrados e 12 cenários temáticos que vão sendo ocupados por palhaços, acrobatas, contorcionistas, bailarinas, ilusionistas e até pelo público, convidado a incrementar o show. Fica difícil fazer um ranking do que é mais incrível. O resultado varia segundo o repertório de cada um, da ingenuidade de uma criança que se encanta com os bonecos palitos gigantes até o adulto que se vê refletido no palco, dançando ou encarando o trapézio.

Quem comanda o show com pitadas do circo tradicional, inovações tecnológicas e luxo dos espetáculos de Vegas, Broadway, e dos cabarés franceses Lido e Moulin Rouge é o palhaço Rodrigo Garcia. Ele entra em cena para receber a plateia e quantas vezes for necessário - caso haja algum problema com outros artistas - explica o relações públicas Enrique Alvarado, atuando como uma espécie de bombeiro. Impossível resistir às graças de Rodrigo, que não precisa falar uma palavra para ser visto e entendido, da primeira à última fileira de qualquer setor.

O espetáculo vai sendo composto pelas atrações que ganham o público pelo perigo, como os 14 acrobatas que saltam a mais de 15 metros de altura impulsionados por dois pêndulos, passando por bailarinas cuja sincronia é de deixar qualquer um embasbacado. As contorcionistas da Mongólia parecem ser de borracha.

Desde que os animais começaram a ser proibidos nos espetáculos em várias partes do País, é a capacidade humana de superar limites e também de iludir que faz o público ficar boquiaberto. E quando se fala em ilusionismo, o Tihany tem Richard Massone, mágico que ao ensinar um truque consegue confundir ainda mais a plateia e que, para não perder a tradição, faz aparecer um helicóptero no meio do palco, em três segundos. É mesmo inacreditável.

Empresa

O circo Tihany - cidade da Hungria -, surgiu em Jacareí em 1954, criado por Franz Czeisler Tihany, húngaro naturalizado brasileiro. Ele fugiu para o Brasil tentando despistar os nazistas que perseguiam sua família, de origem judaica. Além de um dos maiores ilusionistas, tornou-se um grande empreendedor do ramo.

O legado do empresário é visto até hoje. No circo, cada pessoa tem uma função, é parte de uma engrenagem que faz funcionar aquela imensa máquina de entretenimento. Às oito horas entra em ação a equipe de manutenção e limpeza do circo. "O chão é polido todos os dias", faz questão de ressaltar Alvarado.

Equipamentos são conferidos, luzes testadas e muito lixo é recolhido debaixo das arquibancadas. Essa grande indústria também gera empregos nas cidades por onde passa. Em Rio Preto, foram 80 na montagem, serão outros 80 na desmontagem e ainda 26 fixos durante a temporada, entre bilheteiros e orientadores de plateia.

Os preços dos ingressos são calculados de acordo com a cotação do dólar. Atualmente, variam de R$ 50 (plateia lateral) a R$ 150 (camarote vip). Crianças de dois a 12 anos, estudantes, idosos acima de 60 anos, professores e doadores de sangue pagam meia entrada. São nove apresentações por semana, de terça a domingo.

Vida

Parte dos artistas vive no próprio circo, em grandes trailers que ocupam a área externa do castelo. São famílias, casais e solteiros que dividem a mesma casa. Muitos trailers já de fora se parecem com casas - que não andam sobre rodas - têm jardins com móveis e plantas e até cerquinhas brancas ao redor, tudo projetado cuidadosamente. Entre os que vivem nos trailers estão o palhaço Rodrigo, a mulher - que trabalha no setor de vendas - e a filha. Além do próprio Richard Massoni, o mágico.

Outros artistas, como o malabarista francês Pierre Marchand e a trapezista russa Ekaterina Dvornikova (e o marido) vivem em hotéis de Rio Preto enquanto estão aqui.

Atualmente, dez crianças - filhos de artistas e funcionários - vivem no circo. A mais nova é um bebê de três meses. Os outros, em idade escolar, estudam normalmente durante a temporada na cidade e, quando estão no circo, brincam, especialmente de circo, provavelmente já se preparando para ser a nova geração dessa arte.

De Rio Preto, o show em cartaz há 15 anos segue para mais algumas cidades brasileiras e depois vai para a Colômbia e Peru, últimos países da América do Sul. Em seguida, a turnê segue por algumas cidades do México, até chegar a Las Vegas, onde estreia novo show.

 

Quando o francês Pierre Marchad sobe ao palco, o show está caminhando para o final. Com o diabolô - uma espécie de ioiô gigante originário da China - o malabarista ganha o público com sua destreza e energia. É a primeira vez que o artista se apresenta em Rio Preto porque entrou para a trupe há dois meses. Mas não é a primeira vez no Tihany, onde trabalhou há dois anos.

Marchand preza pela liberdade. Por isso firma contratos por temporada ao longo da carreira. Até então, estava na Europa, em cabarés como Lido e Moulin Rouge, na França, e em países como Alemanha e Noruega. Nos próximos dois anos, pretende continuar no Tihany. "Com contratos firmados fico tranquilo, sei onde estou, para onde vou. Tenho a sorte de poder dizer sim ou não, de fazer como gosto mais", afirma.

Durante oito minutos, Marchand conduz o diabolô com agilidade extrema e evoluções que unem habilidade e charme. De um lado para outro, até três ao mesmo tempo. Ele chega a pular corda fazendo os movimentos com o "brinquedo". Depois de 18 anos fazendo o mesmo show - o mesmo desde que começou com essa arte profissionalmente, aos 17 - ele conta que quase não há mais espaço para o erro, mas que a adrenalina ao entrar no palco é a mesma. "A técnica do diabolô é como uma bicicleta. Uma vez que você aprende, já sabe o que fazer".

O segredo para dominar a arte é a concentração, o ritual de preparação que não muda e passa por separar os materiais, colocar as roupas, fazer a maquiagem. Ele conta que executar ainda é difícil, mas que depois de 20 anos, passados os primeiros segundos, tudo fica sob controle. "Depois é um robô, uma máquina. Tem emoção, mas não medo porque controlo meu ato, minha técnica", explica.

Até porque Marchand conheceu o diabolô ainda criança, aos sete anos, quando voltou da África com a família para Paris, onde passaria a viver. Ele não queria fazer futebol ou piano, então o pai o matriculou numa escola de circo no contraturno escolar, na tentativa de "dominar" a criança "hiperativa". "Descobri a arte do circo em geral, mas me apaixonei pelo diabolô. Fiz uma preparação intensiva, durante dez anos", conta.

Assim surgia o artista reconhecido internacionalmente e que busca a perfeição nas apresentações. "Também erro. Nessas horas o público vê a dificuldade e faço sucesso também. Não erro de propósito, mas podem acontecer bloqueios e a arte não sair". Para se preparar, ele investe em muita atividade física para ganhar fôlego e capacidade cardíaca. "Meu ato é como correr cem metros como maratonista, só que durante oito minutos."

Marchand pretende encerrar a carreira mais cedo, daqui a cerca de dez anos. Não fosse a saudade da família, dos amigos e dos amores, continuaria atuando por mais 20 anos. Esse aspecto da liberdade anda incomodando o artista, que tem como grande companheira uma cachorrinha basset, a Sandra. Ela já foi do circo, mas se aposentou. Os dois estão sempre juntos, no circo, no hotel ou passeando. "Pretendo parar aos 45 anos. Pode ser menos, pode ser mais. Vai depender da minha vida privada. Se encontro um modo de vida mais feliz. Faço pessoas felizes, mas não estou".

"Eu não curto piada, eu sou a piada". A frase é de Rodrigo Garcia, palhaço do circo Tihany, que pela primeira vez tem um brasileiro usando a 'fantasia' de personagem tão importante. O brasileiro nascido no circo - da quinta geração de palhaços da família - é o responsável por abrir e segurar o show de tantos artistas. E faz graça com uma naturalidade que muito comediante da TV e do YouTube ficaria roxo de inveja.

É que Rodrigo aprendeu na prática, convivendo com grandes palhaços. Sua família era dona do circo Garcia, o maior circo do Brasil, mas que acabou encerrando as atividades em 2003 em função da crise que afetou o setor. "As crianças de famílias de circo brincam de circo. Eu já me personalizava de palhaço e gostava também de malabares, de truques de mágica, que hoje uso nos meus shows."

Rodrigo mantém a tradição e vive no próprio circo com a mulher e a filha de 13 anos, que já ensaia os primeiros passos na arte circense. O pai é um dos mágicos do Tihany. Nascido em São Paulo, tem 38 anos e está no circo há dois anos, mas desde os 20 atua no ramo.

A inspiração, além dos grandes palhaços, vem de Charles Chaplin. Aliás, Rodrigo não fala durante a apresentação: sua arte é baseada no domínio corporal e expressões. "Neste tipo de espetáculo, de music hall [que envolve apresentações de dança e música], combina mais a comédia física e visual, mas se precisar eu falo, sim, e muito", conta ele, que se diz tímido fora do palco.

Rodrigo tem três aparições oficiais durante o espetáculo, mas se houver algum problema, ele volta para ganhar o público. Antes de entrar para o circo, trabalhou na rua, local em que se precisa fazer mais esforço para ser visto, observado. As pessoas precisam parar. Foi essa experiência que ajudou Rodrigo na improvisação. "Não tem nada muito ensaiado. O número me sai naturalmente. Tem piadas que não estão no roteiro e que saem na hora", conta. 

A interação com o público é parte do show. Rodrigo conta que simplesmente olha para a pessoa da plateia e chama para o palco. Cada uma vai ter uma reação diferente e é isso que vai dar o tom da esquete de humor. O tímido acaba causando graça e o entusiasmado, também. De fato, parece que ele não precisa fazer qualquer esforço para arrancar gargalhadas de adultos e crianças, esteja sozinho ou acompanhado no palco.

O bom é que Rodrigo não pretende parar tão cedo, então muita gente ainda vai poder rir. "Pretendo ficar no circo até a saúde permitir", diz. Perguntado como se vê como uma das principais atrações, nega o protagonismo. "Num circo como o Tihany, os artistas são peças que se encaixam."

E se tem uma coisa que preocupa e entristece o palhaço são as dificuldades enfrentadas pelos circos Brasil afora. Ele diz que é muita burocracia para se instalar e faltam bons terrenos para montar o picadeiro. "Quando o circo não consegue chegar na expectativa da cidade isso me deixa muito preocupado, chateado. É muito trabalho para não ter um reconhecimento".

Cinco minutos. Essa é a duração do ato da trapezista Ekaterina Dvornikova no circo Tihany, onde atua há quase oito anos. Tempo suficiente para tirar o fôlego de quem assiste, lá de baixo, à bailarina e ginasta romper o "céu" do palco, atingindo até oito metros de altura. "Lá de cima, fico muito feliz quando ouço o 'hã' da plateia", afirma ela entre o inglês e o espanhol, se referindo aos suspiros de surpresa e espanto com as piruetas pelo ar.

A artista de 37 anos, nascida em Moscou, domina o trapézio em saltos em que chega a "voar". Por muitos anos foi a única mulher no mundo a fazer um salto mortal e retornar ao trapézio. Apesar do perigo, ela conta que não sente qualquer tipo de medo. Fica protegida por um cinto, cordas e tem apoio de um assistente, no chão, que é fundamental para o sucesso ou fracasso do número. Um erro significa machucados pelo corpo, como o que ela exibia nesta semana, em uma das perdas. "É um trabalho perigoso e difícil. No calor, minhas mãos ficam úmidas e preciso segurar com firmeza no trapézio."

Ekaterina não tem mais medo porque treinou muito ao longo da carreira. Tudo começou quando criança, época em que fazia ginástica, mas que acabou desistindo e optando por conhecer a arte do circo, na Rússia, por volta dos 14 anos. O país é muito famoso nesse tipo de arte. Aos 21 anos, entrou para o Nikulin Circus, de Moscou e há 11 anos se dedica ao trapézio.

"As pessoas ficam com mais medo que eu". Perguntada se tem algum seguro de vida, diz que não: "acredito em Deus". Hoje, a trapezista não precisa mais treinar diariamente. Os cuidados são com o corpo, para que se mantenha saudável e forte. Para isso, corre 45 minutos todos os dias e investe tempo na academia, para respirar bem e sustentar o sorriso ao longo do show.

Ekaterina conta que é feliz com a carreira que escolheu, com a possibilidade de conhecer diversos países e culturas. Uma vez por ano volta a Moscou, de férias, período em que aproveita para matar as saudades da filha, de 14 anos, que vive no país com o pai. Atualmente casada com um mexicano que também trabalha no Tihany, aproveita os dias em Rio Preto para fazer coisas como passear, fazer compras e descansar. Sente falta de cozinhar, uma de suas paixões - inclusive salada, que no Brasil, diz ela, de russa não tem nada. "Gosto quando acordo no hotel e vejo os tucanos na minha janela. Na Rússia, só no zoológico", conta. Na temporada na região, ela ainda pretende conhecer os Thermas dos Laranjais, embora o marido não seja chegado à aventura, como ela.

  • Apresentação em mais de 300 cidades (20 países)
  • Estrutura do circo precisa de 14 mil metros quadrados de terreno para ser instalado, além de 10 mil metros quadrados para estacionamento
  • Capacidade para 1.762 pessoas

Estrutura

  • Fachada de 90m
  • Palco de 700m²
  • 2 lonas climatizadas e antichamas
  • 1 lobby bar (Praça de Alimentação)
  • 20 mil watts de som
  • 4 geradores de eletricidade
  • 500 toneladas de ar-condicionado
  • 46 carretas de material
  • 20 camionetas

Equipe

  • 50 artistas e bailarinas
  • 60 técnicos
  • 10 administrativos
  • 18 recepcionistas (orientadores de público)
  • 8 bilheteiros
  • 25 nacionalidades

Tempo

  • 65 anos de experiência
  • 2 horas de espetáculo
  • 14 horas de ensaios por semana
  • 1 hora para maquilagem
  • 72 horas para montagem do circo
  • 24 horas para desmontar
  • 3 segundos para aparecer um helicóptero
  • 9 espetáculos por semana, de terça a domingo

Palco

  • 40 toneladas de decoração
  • 700 m²
  • 12 cortinas - 1,800 metros de tecido