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Ponta do Iceberg

Feirão vendia vagas em cursos de medicina

Para a Associação Médica Brasileira, esquema que transformou curso de medicina da região em negócio ilegal que rendeu R$ 500 milhões é parte de esquema maior envolvendo empresas e instituições


    • São José do Rio Preto
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Apenas a ponta do iceberg. Assim o vice-presidente da Associação Médica Brasileira (AMB) definiu a Operação Vagatomia da Polícia Federal que desbaratou um esquema ilegal de concessão do Fies e ProUni para estudantes de medicina da Universidade Brasil, de Fernandópolis, que transformou o curso oferecido na instituição em um feirão criminoso e altamente lucrativo - R$ 120 mil para quem queria vaga com garantia de aprovação no Fies ou R$ 80 mil sem garantia, além de fraude no Revalida, prova para reconhecimento de diplomas de medicina obtidos no exterior. Ao todo, 19 pessoas foram presas durante a operação na terça-feira, 3, incluindo o reitor e dono da instituição.

"O que a operação da PF apresentou é só a ponta de um iceberg, envolvendo empresas que 'intermedeiam vagas' em escolas particulares conveniadas com universidades federais com o objetivo de garantir revalidação facilitada para quem se formou em medicina no exterior e não conseguiu ser aprovado no Revalida."

Sampaio ainda afirmou que a AMB já havia apresentado denúncia contra a Universidade Brasil, em maio deste ano, e solicitou que o caso fosse encaminhado à PF, Ministério Público, ao Conselho Federal de Medicina e ao próprio Conselho Deliberativo da AMB.

"O mais grave é que estão habilitando para atuar no Brasil, como médicos, pessoas que não comprovaram quaisquer conhecimentos na área médica, o que coloca em risco a saúde e a segurança dos futuros pacientes", completou Diogo.

Entre os presos estão o reitor e dono da Universidade Brasil, José Fernando Pinto da Costa, e o filho dele e diretor da instituição, Stephano Costa, que utilizavam parte do lucro ilegal para aquisição de bens de luxo como avião e helicóptero. Também foram detidas quatro pessoas de Rio Preto - o médico Frank Ronaldo Soares (pego em São Paulo), e os empresários Aurélia Sousa Ferreira, Murilo Ferreira de Paula e Paulo Roberto Pereira Marques, suspeitos de montarem empresas de consultoria para captar interessados em comprar vagas no curso de medicina em Fernandópolis.

Clique na imagem para ampliar  (Foto: Reprodução)

Apuração

Nesta quarta, 4, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) informou que vai investigar a concessão do Fies e ProUni para estudantes de medicina da Universidade Brasil.

Por meio de nota, o FNDE, que é o órgão do Ministério da Educação responsável por fiscalizar a concessão dos dois programas de apoio a universitários, avisou que vai cancelar os contratos suspeitos:

"O FNDE vai instaurar um processo administrativo para apurar os indícios de irregularidades e irá solicitar a cópia do inquérito à Polícia Federal, suspender cautelarmente a participação da instituição em novas concessões do Fies até que o processo seja concluído, e os contratos firmados irregularmente serão cancelados."

O Fundo diz ainda que irá cobrar o ressarcimento dos valores recebidos indevidamente dos alunos beneficiados irregularmente pelo ProUni e Fies, que seriam pelo menos 300.

O esquema

O delegado Cristiano de Pádua, da Polícia Federal de Jales, afirma que a quadrilha tinha uma tabela de preços para cada uma das fraudes. "Eles cobravam R$ 120 mil para quem queria vaga no curso de medicina com garantia de aprovação no Fies ou R$ 80 mil sem direito esse tipo de fraude."

Segundo Pádua, a quadrilha também cobrava para burlar o Revalida, exame destinado a profissionais formados fora do Brasil para reconhecimento do diploma. "Para escapar do Revalida, eles cobravam R$ 50 mil para aceitar sem qualquer prova e exigências a transferência do estudante de medicina que estava fora, para terminar o curso na Universidade Brasil. Desta forma, ele não precisaria passar pelo exame", detalhou.

Pádua deu início aos interrogatórios dos presos e já enviou para perícia os equipamentos eletrônicos e celulares apreendidos. "Após os depoimentos, vamos analisar se solicitaremos à Justiça a prorrogação por mais cinco dias da prisão temporária. Tudo dependerá da forma que cada um irá colaborar com as investigações."

O reitor da faculdade, que no ano passado recebeu a Medalha Oswaldo Cruz concedida pelo Ministério da Saúde "em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à saúde pública brasileira", ficará atrás das grades por tempo indeterminado. Três ainda estão foragidos em Fernandópolis, Murutinga do Sul e Santos.

A universidade não se pronunciou e os advogados dos 19 presos não foram encontrados para falar sobre as acusações e se já solicitaram habeas corpus. A Polícia Federal informou que criou um canal de denúncias específico para quem tiver denúncia a fazer: [email protected]