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Paternidade real

Marcos Piangers fala sobre os desafios do homem para ser um pai de verdade

Em entrevista revista Vida&Arte, Piangers conta como ser o pai da Anita e da Aurora, como descobriu que poderia compartilhar suas experincias e transformar a vida de outras famlias de forma positiva

por Jssica Reis - 13/08/2019 17:33

Pai de Anita e Aurora, casado com Ana Emília, Marcos Piangers é também jornalista, palestrante e autor do best seller "O Papai é Pop", com mais de 350 mil livros vendidos e lançados em Portugal, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos. Ele é especialista em novas tecnologias, criatividade e inovação e referência sobre paternidade no Brasil.

Filho de mãe solo, como ele mesmo diz, Piangers aborda em suas palestras e livros o papel do pai na criação dos filhos e como o homem pode vivenciar a paternidade de forma responsável e o que ele pode aprender com essa experiência. "Não tive referencial, não tive curso, escola, não sou pedagogo, psiquiatra, professor, psicólogo, então, eu estou descobrindo, fazendo na prática. Aprendi com a minha esposa, com a minha mãe, com as minhas duas filhas", afirma o escritor.

Em entrevista à revista Vida&Arte, Piangers conta como é ser o pai da Anita e da Aurora, como descobriu que poderia compartilhar suas experiências e transformar a vida de outras famílias de forma positiva. O autor revelou ainda que seu maior sucesso, o livro "O Papai é Pop" acaba de ser vendido e será transformado em filme. A obra ressalta a importância de estar presente na vida dos filhos.

V&A - O que é ser pai para você?

Marcos Piangers - Eu acho que acima de tudo ser pai é ter responsabilidade, um compromisso, uma missão com seu filho e sua família, com a sociedade, para construir uma geração melhor, mais honesta, mais gentil, mais humana no futuro. Quando você percebe que a paternidade é algo importante sério, fundamental, você começa a lidar com essa questão de uma forma mais responsável.

É obvio que a paternidade tem momentos fantásticos de pura brincadeira de pura brincadeira, ludicidade, inventividade e doçura então é claro que tem as duas coisas mas você só vai descobrir o lado bom doce divertido se realmente participar dos momentos mais importantes mais difíceis mas desafiadores

V&A - Quando você percebeu que compartilhar suas experiências como pai era importante? Como nasceu seu primeiro livro: O Papai é Pop?

Piangers - Passei por uma série de descobertas nesse processo muito por não ter tido pai, pela minha mãe ter sido uma mãe solo, uma das 11 milhões de mães solo do Brasil e por conta disso acabei descobrindo muitas coisas na primeira vez que fui pai. Não tive referencial, não tive curso, escola, não sou pedagogo, psiquiatra, professor, psicólogo, então eu estou descobrindo, fazendo na prática. Aprendi com a minha esposa, com a minha mãe, com as minhas duas filhas. Então, comecei a escrever a respeito das descobertas, desse desmonte de um romantismo que muitas vezes as pessoas me contavam, um desmonte também de um fatalismo que muitas vezes as pessoas me passavam, e nem tão difícil como dizem não é nem tão maravilhoso assim, maravilhoso é, mas não é nem tão conto de fadas como dizem também algumas pessoas acho.

Fui descobrindo do meu jeito e escrevendo a respeito disso. O livro encontrou 300 mil famílias e "O Papai é Pop" acaba de ser vendido para fazer um filme, então acho que quanto mais a gente puder incentivar outros pais a participar, quanto mais a gente diminuir os índices de abandono no Brasil, quanto mais crianças foram bem recebidas na primeira infância, quanto mais gente cuidar das crianças bem, a gente vai estar cuidando do nosso País e vai estar construindo uma sociedade melhor.

V&A -  Você imaginava que o livro poderia fazer tanto sucesso?

Piangers - Não imaginava que fizesse tanto sucesso, mas realmente aos poucos o livro foi encontrando na audiência e é bonito de ver quantas pessoas sempre me confidenciam como livro uniu família inspirou pais e mães melhores, aproximou pais de filhos e acima de tudo ajudou as pessoas a serem o melhor que elas podem ser.

V&A - O papel do pai mudou nos últimos tempos? Você acredita que o homem moderno, assim como você, está mais preocupado com os filhos, em estar presente de verdade na vida deles?

Piangers - Acho que sim. Acho que a gente aos poucos vem percebendo geração a geração que aquela paternidade, aquela criação de filho mais distante, rígida, mais agressiva, rude não fez bem para emocional da nossa geração, então, eu percebo que a gente é fruto de uma geração inspirada por pais que fugiam da tradição e eram pais inspiradores, próximos, afetuosos, carinhosos e isso nos inspira a ser pais também do mesmo jeito. Percebo muitos pais da minha geração que querem repetir os exemplos, valores que receberam de seus pais, mas também uma geração que passou por alguns casos de paternidade distante, rude, de abandono do pai, que achava que só precisava pagar as contas e aí tá bom, nunca fala eu te amo para os filhos. E aí é uma geração que percebeu que também não funciona e que é importante a gente demonstrar afeto, sensibilidade, aproximação familiar, que isso constrói estrutura familiar e os nossos referenciais de uma forma mais clara. A gente está se transformando e geração em geração, a gente vai descobrindo como a gente pode viver no ambiente familiar de forma mais saudável e mais feliz

V&A - O que falta para os homens entenderem que eles precisam participar mais ativamente da vida dos filhos, que ele não é simplesmente o 'provedor' da família, até porque a mulher também trabalha fora?

Piangers - Se você parar para pensar o homem não tem incentivo nenhum de participar da vida dos filhos. Os nossos referenciais e inspirações são todos baseados em sucessos masculinos, no sucesso financeiro e profissional. Se você disser que existe um homem bem sucedido, você imediatamente tem essa imagem de um homem de terno na sua cabeça, o homem usa terno, ele ganha muito dinheiro, ele viaja de avião, ele tem uma maleta com muitos documentos importantes, ele tem um escritório grande num prédio construído com muito vidro e alumínio.

Quando eu falo um homem bem sucedido você nem imagina ele abraçado na família ou ele cuidando do filho. Eu acho que o nosso diferencial de sucesso precisa mudar, a gente precisa entender que um homem de sucesso pode ser um homem que tem uma família estruturada, muitas vezes consegue organizar as contas, tem uma vida profissional que basicamente sustenta um estilo de vida próximo dos filhos, da família, uma vida estruturada com os amigos. No final da vida, se você fizer uma análise, ninguém se arrepende de ter trabalhado de menos, a gente se arrepende de não ter visto os nossos filhos crescerem, se arrepende de ter se divorciado, ou não ter abraçado nossos pais. Então acho que quanto antes a gente percebe isso, mais feliz a gente é.

V&A - Na sua opinião, do que as mães mais sentem falta em relação a participação dos parceiros?

Piangers - Acho que algumas mães não sentem falta, que acham que todos os lugares estão bem definidos. Acho também que existem algumas mães que se sentem angustiadas, mas não sabem porque, me parece que elas passam por essa angústia por conta de uma pressão social muito grande, por conta de uma cobrança para que sejam mães perfeitas por conta de uma desinformação desse pai que não participa. E por último, sim, existem as mães que já percebem isso claramente, que o homem precisa participar mais e não sabem como colocar o homem nessa função e para elas eu digo que é importante que elas entreguem o bebê, que elas entreguem o filho e digam 'agora é com você, troca a fralda aí, fica com ele no final de semana, se vira aí que eu vou lá sair, passear, viajar, encontrar minhas amigas'. E eu tenho a convicção de que o homem desenvolve, então, o instinto paterno e também um comprometimento com bebê, com a família. Espero que isso possa ser conquistado. Infelizmente alguns homens só mudam a dor, muitas vezes a gente está acostumada a se transformar apenas no momento de luto, de divórcio, momento de perda, de sofrimento, de demissão, esses são os momentos que a gente se dispõe humildemente a se transformar.

Se um homem se dispor a se transformar sem dor, melhor para ele, se ele tiver informação e perceber que ele pode ser um marido melhor, um homem melhor, um pai melhor, um cidadão melhor e se transformar, melhor para ele, pois vai sofrer menos, então eu espero que ele sofra menos e seja mais feliz.

V&A - Você fala em suas palestras sobre banheiros masculinos não ter trocador para bebês ou que as bonecas não falam "papai". Você acredita que esses detalhes acabam impondo que a mãe é mais responsável pelos filhos do que o pai?

Piangers - A gente tem uma ligação fisiológica da mãe com o filho certo, então é inegável que a mãe é mais importante que o pai do ponto de vista científico, fisiológico, biológico. Agora, o homem também é muito importante na formação da criança, o paternar, o papel do pai de incentivar a criança a explorar o mundo, a ser o máximo de seu potencial, a inspiração da definição de fato do que é ser homem, que o homem pode ser um homem educado, gentil, honesto, paciente, que todo esse comportamento de abafar as características sensíveis do homem não faz bem para ele mesmo, não faz bem para família. Então, acho que esses são alguns recados que a sociedade passa de que sua mãe tem que fazer tudo e que se a gente puder mandar um recado também para os homens explicando que eles também podem participar e que ele também vai ser mais feliz participando, que a criança certamente será mais feliz com um pai presente, carinhoso, afetuoso, que o casamento certamente vai ficar mais fortalecido se o homem for um pai participativo. Se ele souber disso com pequenos sinais sociais, seja trocador no banheiro masculino, bonecas que falam papai, campanhas governamentais ou de marcas mesmo, acho que a gente vai conseguir passar essa informação e ajudar a construir uma sociedade melhor.

V&A - Em uma época em que as pessoas vivem em redes sociais, o que está faltando nas famílias? A tecnologia pode se tornar um problema nas relações familiares, especialmente na criação dos filhos?

Piangers - Sem dúvida a gente está fascinado, viciado, a gente tem uma espécie de obsessão pelas tecnologias e acho que isso separa quem está perto. Então, quando você está perto da sua família e só fica no celular, você está separado das pessoas que você mais ama. Acho triste quando a gente troca o sorriso do nosso filho pelo sorriso de outra família, de outra criança no Instagram, no Facebook. Acho triste quando a gente fala que não tem tempo, mas passa horas discutindo política no Facebook, ou vendo grupo de WhatsApp, ou jogando Candy Crush, sem dúvida a tecnologia é uma obsessão moderna que pode e deve ser questionado.

V&A - Existe uma forma correta de vivenciar a paternidade?

Piangers - Sim existe. É só você ser mais presente, se dedicar, estar mais perto atenciosamente prestando atenção nos sinais que seu filho passa e ir se moldando um pai personalizado que funciona naquela dinâmica daquela família. Não existe uma regra que vale para todos, existe uma única sugestão quanto mais você participar e ficar perto da família, quanto mais você absorver os sinais que seus filhos estão passando, melhor pai você vai ser.

V&A - O que os homens podem aprender sendo mais ativos na vida dos filhos?

Piangers - Um monte de coisa: sensibilidade, paciência, resiliência, maior esforço, podem aprender que existe um amor maior do que a vida, podem aprender que existe uma capacidade do homem ser cuidador também. Podem aprender que quando você cuida você não é menos homem, você é mais homem, mais corajoso, menos preocupação com a opinião dos outros, mais percepção da beleza da vida, das coisas simples da vida, entendimento do que importa de verdade que não é a carrão, apartamento grande, que não é monte de dinheiro no banco, que você estar perto das pessoas que te amam, que vão estar lá até o final da sua vida com você, esses são só alguns dos ensinamentos a gente aprende todo dia.

V&A - Como é a relação com suas filhas? O que aprendeu com a chegada delas?

Piangers - A chegada da Anita e da Aurora me mostraram que existe um mundo feminino que tem suas peculiaridades e suas inclinações, mas mais do que isso, que sofre uma série de problemas, preconceitos, assédios e violências. Antes de ter duas meninas eu não sabia ou fingia que não sabia, fechava os meus olhos para diferenças salariais, para a pressão social, para os incentivos que os homens têm a não participar, não serem fiéis. Então, a chegada da Anita e da Aurora me abriu os olhos para uma série de questões. Hoje eu consigo ver com muito mais clareza todas as injustiças que a minha mãe passou como mãe solteira, todas as injustiças que minha esposa passou quando foi tirada de um processo de seleção porque engravidou, quando não teve companhia nos processos de gravidez, não tinha amigas que tinham engravidado, teve problemas profissionais, todas as injustiças que as mulheres passam e que muitas vezes a gente não percebe. E que eu não quero que as duas pessoas que eu mais amo na vida, minhas filha, passem, então, eu busco todo dia para a gente viver num mundo mais igual e mais respeitoso com as mulheres. V&A

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