Diário da Região

01/09/2019 - 00h30min

PAINEL DE IDEIA

Reencontro com Macondo

Ao lembrar da cidade fictícia de "Cem Anos de Solidão", me atrevo a forçar a barra para encontrar pontos de contato com nossa Rio Preto, onde não tínhamos, é verdade, alguém com a capacidade de sonhar como o velho Buendía

Divulgação José Luís Rey | jlrey@paginaimpar.com.br
José Luís Rey | jlrey@paginaimpar.com.br

Acabo de reler "Cem Anos de Solidão!". Reencontrar, agora na idade madura, a ironia refinada e a precisão irretocável de Garcia Márquez equivale a ler outro livro, diferente daquele que houvera me despertado encantamento fácil da juventude. Acho que acontece com todos os livros e com todos os leitores, tal ocorre com quem seja apresentado, digamos, a peças artesanais de peixinhos de ouro, examine-os rapidamente e só volte a vê-los muitos anos depois, só então notando os encaixes milimétricos nas escamas recortadas em folha de ouro, os rubis vívidos à guisa de olhos, as guelras e as nadadeiras...

A menção ao ofício de ourives de José Arcádio - o patriarca Buendía que cruza a existência secular fazendo descobertas e filhos, ao redor dos quais o tempo insiste em dar voltas como num imperturbável círculo vicioso - é proposital, é claro. O meu objetivo é comparar o fulgor do encantamento de José Acádio com as maravilhas do mundo moderno levadas pelos ciganos à sua Macondo - as propriedades do imã, a força incendiária das lentes de aumento, o advento do gelo - com igual ou maior admiração na Rio Preto de minha infância e adolescência - a nossa Macondo.

As descobertas talvez nem fossem tão espetaculares por aqui, mas era notável a admiração das donas de casa quando os maridos as apresentaram ao frango morto, resfriado, depenado, sapecado, limpo e metido num saquinho plástico que lhes reservada, à parte, a moela, o coração e o fígado, se já não me trai a memória. Era vendido nos supermercados, como o Serv Leve, o Gonçalves Sé e o Pastorinho e condenavam ao desuso a trabalhosa tarefa de destrocá-los em casa, trazido da feira-livre, onde eram vendidos vivos.

- Agora vai dar para fazer frango mais de uma vez por semana e não mais só no domingo - preferiram maravilhadas.

Um dia chegaram também os rolos compressores que logo começaram a forrar as ruas do centro por uma massa preta e inacreditavelmente lisa e uniforme, substituição à monotonia chacoalhante dos paralelepípedos e à chateação do barro, da poeira e dos buracos. Algumas inovações eram equivocadamente mal vistas -todos os meninos da rua torcia contra a carrocinha de cachorros, que teimava em circular por toda a cidade em busca dos cães abandonados.

Ao lembrar da cidade fictícia de "Cem Anos de Solidão", me atrevo a forçar a barra para encontrar pontos de contato com nossa Rio Preto, onde não tínhamos, é verdade, alguém com a capacidade de sonhar como o velho Buendía. Mas tínhamos sonhadores, descobridores e revoltosos, sim. Mas esse é assunto para outro dia. Macondo era aqui.

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