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Guerra comercial


    • São José do Rio Preto
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A guerra comercial entre Estados Unidos e China passou a ter desdobramentos na área monetária. O que acontecerá se a China resolver usar suas reservas cambiais como bomba e passar a despejar no mercado seu trilhão de dólares em títulos do Tesouro dos Estados Unidos (treasuries)?

Em 1.º de agosto, o presidente Donald Trump avisou que, a partir de setembro, passará a sobretaxar em 10% a entrada de outros US$ 300 bilhões em produtos provenientes da China. O efeito imediato dessa declaração foi a derrubada das bolsas e das cotações das commodities, na medida em que o agravamento da guerra comercial aumentou o risco global dos negócios.

A resposta do governo do presidente Xi Jinping foi promover a desvalorização do yuan (renminbi), a moeda chinesa, a um dólar por sete yuans. Com a manobra, produtos da China ficam mais baratos em dólares e podem neutralizar parcialmente a sobrecarga alfandegária anunciada por Washington.

Nesta quarta-feira, Trump voltou a justificar sua ameaça e bastou isso para que os mercados voltassem a tremer, porque ficou reforçada a suspeita de que essa guerra pode ir longe. E, se for confirmada, a intensificação das escaramuças poderá incluir novos revides do governo Trump, até mesmo com uma intervenção que provoque certa desvalorização do dólar.

Até onde isso pode ir é a incógnita de muitos bilhões de dólares É nesse "até onde" em que se insere a hipótese de que a China relance nos mercados grande volume de títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

A acumulação desse acervo de US$ 1,1 trilhão foi o resultado da relação simbiótica entre Estados Unidos e China dos últimos 30 anos, por meio da qual os Estados Unidos passaram a se abastecer de produtos mais baratos importados da China e esta usou seu enorme superávit comercial para financiar o déficit fiscal crescente dos Estados Unidos por meio da compra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Como observa o diário londrino Financial Times desta quarta-feira, houve o precedente de 2011, quando, em editorial, o jornal da China People's Daily recomendou vendas dos treasuries como revide às vendas de armas pelos Estados Unidos ao governo de Taiwan. Bastou então essa ameaça para que o governo dos Estados Unidos mostrasse desconforto.

Por enquanto, não há sinal de que essa desova de títulos vá acontecer. Mas parece consequência lógica. Como a guerra comercial vem bloqueando os passos do exuberante minueto entre as duas potências, o compromisso tácito de Pequim de prosseguir na cobertura do rombo fiscal dos Estados Unidos parece perder importância.

Como esse movimento pode acontecer, é preciso prever as consequências. Uma delas será a de que já não haveria a mesma demanda por treasuries, o que dificultaria a cobertura do enorme déficit fiscal dos Estados Unidos. A reação do mercado global seria instantânea, o despejo de títulos no mercado derrubaria os preços de revenda e puxaria automaticamente o rendimento (yield) Fácil entender: se, por exemplo, o título cujo valor facial de US$ 1 mil passasse a ser negociado por US$ 950, os juros contratuais passariam a ser calculados pelo preço de US$ 950 e não mais por US$ 1 mil. Ou seja, o rendimento fixo do título teria aumentado. Nesse caso, o mercado financeiro mundial seria sacudido por novas turbulências, que, por sua vez, poderiam derrubar ainda mais a atividade econômica ao redor do mundo.

Além da desvalorização das reservas chinesas, outro efeito colateral das novas escaramuças seria uma indesejada valorização do yuan (renminbi) e desvalorização correspondente do dólar. São impactos que poderiam conter ou atenuar esse tipo de revide pela China.

Como ficaria a situação do marisco Brasil nessa briga entre o mar e o rochedo? O acirramento da guerra comercial traria, como já vem trazendo, efeitos de sinais contrários. De um lado, a suspensão da compra de grãos dos Estados Unidos pela China aumentaria a demanda por alimentos produzidos pelo Brasil. No entanto, a provável redução do comércio e a retração do PIB global provocariam novas reduções dos preços das commodities (minérios e grãos), que poderiam neutralizar essas vantagens. Em que proporção essa neutralização aconteceria é coisa que não dá para calcular agora.