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TRABALHO

Cooperativa de mulheres impulsiona veia empreendedora

Grupo de 49 mulheres faz curso de corte e costura e monta cooperativa de vestuário com apoio da Prefeitura de Rio Preto, que também incentiva a formalização de cooperativa de panificação, tudo para gerar renda na cidade


    • São José do Rio Preto
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O escritor americano Orison Swett Marden orientou a não esperar oportunidades extraordinárias, mas agarrar ocasiões comuns e torná-las grandes. Foi o que fizeram 49 mulheres de Rio Preto. Nenhuma delas tinha passado uma linha por uma agulha antes e estavam todas desempregadas. Após o que parecia um simples curso de corte e costura, porém, passaram a ser donas do próprio negócio - uma cooperativa que gera renda e traz independência e dignidade a cada uma delas.

Dessa forma nasceu a Cooperativa de Trabalho na Produção de Vestuário de Rio Preto (Coopev), que reúne dois grupos de mulheres, um no bairro Cidadania e outro no Lealdade e Amizade. "Acabamos a primeira produção agora - de cerca de 170 peças - e já temos uma nova encomenda de camisetas", conta Cecília Nunes, presidente da cooperativa. O próximo passo é começar a divulgação do negócio, especialmente entre as secretarias da Prefeitura, para poder atender as empresas terceirizadas.

A cooperativa de vestuário é uma das que acabam de firmar um termo de colaboração com a Prefeitura de Rio Preto para fomento e geração de renda na cidade. A outra é a Cooperativa de Panificação (Coopão), entidade que já existia no município, mas que acaba de ser legalizada como uma cooperativa num projeto que inclui ainda as secretarias do Trabalho e Emprego, Agricultura, Fundo Social de Solidariedade e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop).

Segundo Cecília, as mulheres que formam a Coopev - com idades entre 40 e 60 anos - não sabiam o ofício, mas procuravam um meio de voltar ao mercado de trabalho e obter renda. Fizeram o curso oferecido pela Secretaria do Trabalho e do Emprego e conseguiram a formação necessária para exercer a atividade. Estão aptas a costurar qualquer tipo de peça, em malharia e tecido plano. "É uma forma de abrir as portas. A cooperativa mudou a autoestima dessas mulheres. Muitas não imaginavam que teriam uma chance de participar do mercado de trabalho, mas agora foram incluídas".

O primeiro pagamento ainda não saiu, mas a previsão é que fique em torno de um salário mínimo inicialmente. Cada mulher vai receber de acordo com a produção e todas têm participação nas decisões da cooperativa, seguindo os preceitos desse modelo de negócio. A Prefeitura cedeu os locais onde os dois grupos se instalaram, assim como maquinário e verba mensal entre R$ 6 mil e R$ 7 mil como subsídio durante o primeiro ano de funcionamento. O retorno à comunidade será em forma de cursos na área, que começam a ser oferecidos no fim deste mês.

Há cinco anos, Luana Carla de Oliveira Soares Quaresma, 34 anos, estava desempregada. De funcionária de metalúrgica se tornou dona de casa, mas queria voltar para o mercado. Hoje, trabalha meio período na cooperativa e no outro ajuda o marido no depósito de gás. "Está sendo uma experiência maravilhosa, que me fez entender que sou útil. A costura me emociona: transformar um tecido em uma peça dá uma alegria muito grande", afirma.

Valorizada na sociedade, importante. É assim que se sente a costureira Carmem Lúcia dos Reis Câmara, 47 anos, que também integra a cooperativa. Ela conta que se mudou de Barretos para Rio Preto em busca de uma vida melhor para os filhos e queria melhora de vida, ter uma profissão. Antigamente, trabalhava como diarista. "Eu sempre quis aprender a costurar. Vi a oportunidade e não deixei passar. Estar no grupo, para mim, significa independência", afirmou.

Regiane dos Santos Nunes Baruzzi, 38 anos, nunca tinha pregado um botão na vida, mas, como já estava cansada de entregar currículos e não ser chamada, viu que o curso de corte e costura era a oportunidade que buscava. "Fiz o curso e comprei uma máquina para treinar em casa. Já fiz roupas para minhas filhas. Fico muito feliz. É mais barato e ainda faço a roupa do meu jeito", conta a secretária da cooperativa. Ela garante que agora se sente uma mulher realizada, parte de uma rede forte de compartilhamento com outras mulheres, que, assim como ela, estão celebrando a chance de serem vistas e respeitadas por seu talento e força de trabalho.

A Cooperativa de Panificação (Coopão) acaba de ganhar um fôlego. Em atividade em Rio Preto desde o fim de 2002 a partir de uma iniciativa do Fundo Social de Solidariedade, o grupo se formalizou como uma cooperativa e vai contar com o apoio da prefeitura durante seu primeiro ano de existência "legal". Por mês, vai receber uma verba entre R$ 6 mil e R$ 7 mil para custear sua operação, segundo o secretário do Trabalho e do Emprego, Edemilson Favaron, a partir da assinatura do termo de colaboração com a Prefeitura, prevista para ocorrer nos próximos dias.

Segundo a presidente da Coopão, Luciana Ferrari, o grupo de dez mulheres, que produz pães, roscas, salgados, bolos, dentre outros quitutes, está se preparando para ir para a nova sede, na rua Maximiliano Mendes, local onde terá mais espaço, uma loja e estacionamento. Hoje, a produção é vendida por cooperadas diretamente nas ruas e também na execução de coffee breaks e eventos organizados por empresas. "O objetivo é aumentar a produção e passar a vender para outros locais de Rio Preto", afirma Luciana.

Além da verba mensal, que será usada no pagamento do imóvel e na contratação de um escritório de contabilidade, dentre outros custos, a cooperativa terá à disposição alguns maquinários da prefeitura como cilindro, forno e masseira. Em troca do apoio financeiro e da estrutura, o grupo vai fornecer cursos de panificação e confeitaria à comunidade e trabalhar para inserir novos cooperados no time. "Existe uma relação muito afetiva, de fazer a produção com amor. A gente se transforma ao fazer o curso, ao aprender", diz Luciana.

A cooperada Ana Carolina Nunes Siqueira, 27 anos, entrou para a Coopão em janeiro de 2018. Desde então, tudo mudou. Ela, que até então era dona de casa, passou a colocar em prática o que já tinha aprendido com a mãe. Os dons culinários foram aprimorados no curso de panificação, quando surgiu o convite para entrar para o grupo. "Tudo melhorou, inclusive financeiramente. Tenho meu carro, reformei a casa. Não preciso depender de ninguém", comemora ela. Com a mudança para a nova sede, a expectativa é que mais pessoas tenham essa mesma oportunidade, com o crescimento da produção. (LM)

Mais do que uma cooperativa que transforma o "lixo", a Cooperativa de Coleta Seletiva, Beneficiamento e Transformação de Materiais Recicláveis de Rio Preto (Cooperlagos) transforma vidas. Em atividade desde 2004, o grupo é formado por 50 cooperados que recolhem materiais recicláveis na cidade e fazem a destinação correta. "Nosso trabalho começa desde a educação ambiental, mas o forte é a coleta dos materiais, em especial nos condomínios verticais e horizontais, que são os grandes geradores, assim como na construção civil", explica a coordenadora Tereza Marta Pagliotto.

Os cooperados, chamados de catadores, fazem a coleta nas ruas de Rio Preto e levam o material para o barracão, onde passa por uma grande triagem, separação, prensa e comercialização. Em média, o rendimento mensal para cada trabalhador é de R$ 1,5 mil com a produção; a empresa também recebe um complemento da prefeitura, que tem um termo de colaboração com a cooperativa, formada 80% por mulheres, na faixa de 19 a 65 anos. "São pessoas que trabalhavam avulso, na rua. Hoje, muitos já conseguiram uma carteira de habilitação, mobiliar a casa e até comprá-la", conta Terezinha.

Foi exatamente isso que aconteceu com Helena Maria Carvalho, a "Bonita". Hoje, aos 60 anos, tem uma moto e uma casa mobiliada em Rio Preto. Tudo isso obtido a partir da renda mensal como integrante da Cooperlagos. Há 13 anos no grupo, já foi presidente da entidade duas vezes e atualmente ocupa o cargo de vice-presidente. Se hoje as coisas estão mais fáceis, no entanto, no início foi difícil quebrar paradigmas. "Quando fiz o teste não passei porque fiquei com nojo de pegar a garrafa. Fiquei triste".

É que antes de voltar a Rio Preto, Bonita vinha de outro universo, absolutamente oposto. Ela trabalhava como garçonete em um restaurante refinado em São Paulo, onde tudo precisava estar impecável, limpo. Acabou sendo chamada na Cooperlagos porque outras pessoas que passaram não compareceram. Desde então, se apaixonou por tudo que era relacionado a meio ambiente, cuidado com a natureza e reciclagem. "Decidi pegar a garrafa com as duas mãos", revela, mostrando a mudança de postura.

Bonita conta que, ao mesmo tempo em que mostrou ao patrão, em São Paulo, como rever seu preconceito racial, ela mesma evoluiu - além de todos os ganhos financeiros que teve ao longo dos anos na Cooperlagos. Antes, não ajudava o próximo, hoje sabe como a união muda tudo. "Me tornei mais tolerante, uma pessoa melhor. Comprei casa, tirei carta, terminei de criar minha filha. Estou apenas esperando minha aposentadoria."

Quem viu sua vida mudar desde que uma amiga lhe apresentou a Cooperlagos foi Beatriz Augusto, 39 anos, há nove na cooperativa. "Quando completei 30 anos, um anjo me indicou aqui para trabalhar", conta ela, mulher trans que foi profissional do sexo no Centro de Rio Preto durante 16 anos e que, ao entrar para a cooperativa, conseguiu mais do que uma mera oportunidade de trabalho. Essa chance representou o rompimento de preconceitos e resgate de sua dignidade.

Beatriz relata que hoje ganha menos do que quando trabalhava com prostituição - que fazia por necessidade - entretanto, a felicidade que sente é incomparável à vida antiga. Desde que fez o teste para entrar, também se encantou e passou a escrever uma nova história de vida, assim como fez cursos para se aprimorar na carreira. "Aqui é minha segunda família. A cooperativa muda a história de muitas pessoas. Não é só reciclagem."

Da coleta de porta em porta, passou a trabalhar na triagem, mas faz o que for preciso na cooperativa, da qual é integrante do conselho fiscal. "Minha grande paixão é o trabalho. Acordo às 5 horas. Trabalho o dia. Não tem nada melhor que chegar em casa, tomar um banho, assistir novela. É o valor que estou tendo", afirma. (LM)

Com o objetivo de fomentar a geração de renda em Rio Preto, a prefeitura fez um chamamento público para auxiliar na montagem de novas cooperativas na cidade. Firmaram a parceria a Coopev e a Coopão, e a próxima em análise é uma que vai reunir podadores de árvores. Com esse novo passo, as duas entidades podem até se habilitar a entrar no processo licitatório de fornecimento de uniformes para as escolas municipais e de pães para a merenda. "A renda mensal de cada cooperado gira em torno de R$ 1,5 mil. A cooperativa é uma forma de gerar renda para quem está sem emprego", afirma o Secretário do Trabalho e do Emprego, Edemilson Favaron.

Segundo ele, em Rio Preto o que se observa é que existem oportunidades de emprego, mas falta qualificação. Por conta disso a pasta tem investido fortemente na realização de cursos de capacitação, o que inclui de costura, de pintura, de computação, entre outros; e a bandeira do cooperativismo é constante na gestão do prefeito Edinho Araújo. "Conseguimos reunir um maquinário de costura abandonado, demos manutenção e fizemos um termo de uso, além da concessão de uma verba inicial para dar vida à cooperativa. Depois ela caminha por conta própria", pondera.

O secretário de Agricultura e Abastecimento, Antonio Pedro Pezutto Júnior, que também está envolvido no processo e tem experiência na área, destaca que Rio Preto tem muito forte a característica do cooperativismo. São pelo menos dez entidades do tipo, de áreas como saúde, educação, crédito, agricultura, odontologia, transporte e eletrificação. "As características das cooperativas são de serviços, seguindo o perfil da economia", disse.

Pezutto destaca ainda que cidades com cooperativas têm Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) superior à média. A pesquisa da FEA-RP USP Ribeirão Preto mostra que o IDH, na média, é de 0,66 e, em municípios com cooperativas, de 0,70. Em Rio Preto, o índice é de 0,79. "As pessoas que estão em uma cooperativa trabalham em conjunto, ganham em escala e também em renda porque conseguem captar clientes em maior volume. As cooperativas também trazem as pessoas para a formalidade", afirma. 

Características

As cooperativas também são um modelo de negócio, com a diferença principal de que o trabalhador é, ao mesmo tempo, funcionário e dono da "empresa". Dessa forma, trata-se de uma organização mais democrática, onde todos têm voz e vez. "Esse é um modelo mais justo porque distribui melhor a renda", explica a advogada Esther Bastos de Azevedo, do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop).

Esse tipo de entidade é formada a partir de interesses comuns de um grupo de pessoas que decide, junto, oferecer um produto ou um serviço, gerando renda para os membros. No Estado de São Paulo há 1.025 unidades, de todos os ramos. "A tendência é de que o trabalhador se preocupe mais com a qualidade do serviço. Além disso não há concentração de capital e o rendimento é repartido, distribuído aos trabalhadores proporcionalmente à execução de cada um", explica.

Os tipos de cooperativas variam, desde agropecuária, criada para a compra de insumos e venda da produção dos cooperados; de trabalhadores, que vendem seus serviços; de profissionais de saúde; de crédito, que reúne poupanças dos membros, dentre outras. Para ser criada, deve haver pelo menos sete pessoas com vontade comum, que vão precisar integralizar uma cota de capital, participando economicamente como sócio. (LM)

 

  • Adesão voluntária e livre - São organizações voluntárias, abertas a todas as pessoas, sem discriminações de sexo, sociais, raciais, políticas e religiosas
  • Gestão democrática - As cooperativas são organizações democráticas, controladas pelos seus membros, que participam ativamente na formulação das suas políticas e na tomada de decisões
  • Participação econômica - Todos contribuem igualmente para a formação do capital da cooperativa, que é controlado democraticamente. Se, ao final do exercício, a cooperativa apura "sobras" (receitas maiores que as despesas), serão divididas entre os sócios ou destinadas ao fortalecimento da cooperativa (cotas de capital e/ou reservas), sempre por decisão tomada na assembleia
  • Autonomia e independência - As cooperativas são organizações autônomas, de ajuda mútua, controladas pelos seus membros. Se firmarem acordos com outras organizações, incluindo instituições públicas, ou recorrerem a capital externo, devem fazê-lo em condições que assegurem o controle democrático pelos seus membros e mantenham a autonomia da cooperativa
  • Educação, formação e informação - As cooperativas promovem a educação e a formação dos seus membros, dos representantes eleitos e dos trabalhadores, de forma que estes possam contribuir, eficazmente, para o desenvolvimento das suas cooperativas
  • Interesse pela comunidade - As cooperativas trabalham para o desenvolvimento sustentado das suas comunidades por meio de políticas aprovadas pelos membros

Fonte - Aliança Cooperativa Internacional (ACI)