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David Junior, o Ramon da novela Bom Sucesso, fala sobre a carreira

'Sou protagonista da minha vida', diz David Junior, o Ramon da novela 'Bom Sucesso'


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

David Junior se identifica com a origem humilde de Ramon, seu personagem no folhetim das 19h da Globo. Na novela, o rapaz de Bonsucesso (bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro) deixou a família no Brasil pelo sonho de ser bem-sucedido como jogador de basquete nos Estados Unidos. Para isso, ele ficou longe de Paloma (Grazi Massafera) e da filha, Alice (Bruna Inocêncio), durante anos. Agora, de volta, faz o possível para recompensá-las.

Na entrevista a seguir, o ator de 33 anos comenta sobre a importância de ter um papel de destaque em 'Bom Sucesso'; como foi a gravação com o jogador de basquete Cristiano Felício em Chicago, nos Estados Unidos; e qual a sua relação com o esporte. Além disso, David Junior fala a respeito do caminho que percorreu até ser reconhecido pelo seu trabalho.

Qual a expectativa com esse papel em 'Bom Sucesso'?

David Junior - A expectativa maior é de poder representar muita gente. Não acredito no protagonismo. Acho que o protagonista é a história. Então, ela é composta por todos os personagens que fazem parte dessa trama. Chamo a minha responsabilidade agora de peso-leve. Estou representando as pessoas, sabendo que a disparidade racial e a opressão no nosso país são grandes. É prazeroso fazer uma novela tão próxima da minha realidade, afinal eu sou de Nova Iguaçu e o personagem de Bonsucesso.

Na trama, o Ramon mostra um pouco da dificuldade do esporte no Brasil, porque o personagem teve que ir aos Estados Unidos tentar ser reconhecido. O que acha disso?

David - Em toda profissão, a gente sonha em chegar ao topo. Quem é atleta sente isso de forma latente. Eu gostei não só de ser um jogador de basquete, mas de ser um atleta que sonha em jogar na NBA.

E como foram as gravações nos Estados Unidos, na quadra do Chicago Bulls, e com o jogador Cristiano Felício?

David - O Cristiano Felício me ensinou bastante coisa. Ele é um garoto grande, coração puro, aquela pessoa que sorri com o olho. Ele ficou super à vontade para trocar comigo sobre muitas coisas do basquete no pequeno período em que a gente esteve junto. Além disso, estava me sentindo no reino de 'Avatar ', porque só tinha gente com mais de dois metros de altura. Eu tenho 1,85m, mas lá só ficava olhando para o alto.

E qual é a sua relação com o esporte?

David - Sou ciclista desde os 12 anos de idade, gosto de correr, mas o basquete foi uma coisa que passou pela minha vida na época da escola. Nunca tive o sonho de ser o Michael Jordan, mas queria ter uma camisa dele quando era moleque. Pude estar na quadra do Chicago Bulls, olhar todos aqueles prêmios...

Na novela, a maior decepção do Ramon é não ter conseguido se firmar como um jogador da NBA?

David - A maior decepção foi ter tentado por 16 anos, sem sucesso, sustentar a família. O personagem ficou 16 anos longe da filha. O sonho dele não era ser um astro do basquete, mas conquistar essa posição para dar o sustento para a família.

Era um sonho ser protagonista de novela?

David- Se eu te disser que sempre sonhei em estar fazendo um papel de destaque, é mentira. Eu tenho uma tatuagem que é a palavra 'serendipidade'. É quando você vai de encontro a uma coisa e acaba encontrando outra. Li essa palavra no livro 'Um Defeito de Cor', da Ana Maria Gonçalves, que conta uma história linda. Tropecei na arte, me identifiquei com ela e aqui estou. Já me perguntaram o que senti quando fui para Chicago. Eu falei que me senti grande o suficiente para estar naquele lugar. Aconteceu o que tinha que acontecer. Se tem uma coisa que eu sei é que sou protagonista da minha vida. Isso é suficiente para estar lá ou em qualquer outro lugar.

Você precisou quebrar muitas barreiras para chegar nesse momento da sua carreira?

David - Sou a contramão do sistema. Se eu saio de camiseta, chinelo, bermuda e corro por qualquer motivo, me torno um cara suspeito, independente de ser ator. O fato de estar aqui hoje, vindo de Nova Iguaçu, depois de trabalhar num banco, ir estudar no centro de Botafogo e voltar no último trem para conseguir me formar como ator, sem me corromper com todas as oportunidades, é uma vitória. Quando você é periférico, o seu teto é muito baixo. A referência de sucesso de quem nasceu na periferia é quem tem carro, moto, anda com ouro, tem a mulher do lugar, então é muito baixa. De onde eu vim, o médico era uma pessoa de sucesso. Por que era médico? Porque a faculdade custava cerca de oito mil reais. Quem é da periferia não tem família que possa bancar os estudos para chegar a esse lugar. É uma coisa cíclica.

Como se sente com o reconhecimento do seu trabalho?

David - É o reconhecimento de uma história. De uma estrada percorrida pelo Romeu Evaristo, Ruth de Souza, Zezé Motta, Antonio Pitanga... Essa galera foi militante num lugar em que o único símbolo que tínhamos era da mulher negra rebolando a bunda no Carnaval. É uma estrada bem doída. Não dá pra pensar só em mim. Eu penso no coletivo. A gente não pensa em guardar dinheiro, mas em ajudar os nossos. É o que significa a palavra 'ubuntu': eu sou porque nós somos. Eu me coloco dentro desse lugar de peso-leve, pois vou errar e acertar nessa novela. Vou dar o meu melhor pelo tanto de gente que estou representando.