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POESIA

Os 75 anos de nascimento do poeta Paulo Leminski

Se estivesse vivo, o poeta curitibano Paulo Leminski completaria 75 anos neste mês de agosto, mas, apesar de sua ausência, a chama de sua poesia se mantém acesa, forte e bastante popular


    • São José do Rio Preto
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Você pode até não ser fã de poesia, mas, com certeza, já deve ter se encantado por alguns versos do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). No mês em que ele completaria 75 anos, a reportagem do Diário da Região ouviu especialistas e admiradores da poética leminskiana para entender porque a sua obra faz a cabeça de leitores dos mais diferentes perfis culturais.

Escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor e publicitário, Leminski é um dos cases de sucesso da literatura brasileira. Só para se ter ideia de sua popularidade, "Toda Poesia" (Companhia das Letras), publicação de 2013 que reúne todos os seus livros de poesias, já vendeu mais de 170 mil exemplares impressos - sem contar com a versão digital. É uma marca bastante expressiva para uma publicação relacionada a um gênero literário que é pautado pelo signo da erudição.

Marcada pela simplicidade, concisão e irreverência, a poesia de Leminski é fruto de uma mente altamente intelectualizada que sempre almejou a popularidade. Sua obra traz elementos da poesia marginal dos anos 1970, também conhecida como Geração do Mimeógrafo, da poesia concretista que surgiu no Brasil nos anos 1950 e do haicai japonês, aqueles poemas curtos compostos de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas.

Para a professora Katiuce Lopes Justino, doutora em Letras pelo Ibilce/Unesp, de Rio Preto, a simplicidade é a grande conquista de Leminski na literatura, algo alcançado com muito esforço e bagagem intelectual. "Leminski foi uma figura com uma formação intelectual bastante sofisticada. Ele foi seminarista, dominava o latim, era poliglota e, claro, leitor das obras canônicas da literatura. Rebelde e rápida, sua poesia tem um forte apelo jovem, e a sua busca pela simplicidade era um reflexo do espírito do haicai que ele tanto admirava. É a conquista da beleza pelo esvaziamento de excessos. Sua poesia vale por si mesma, não precisa ser citada", destaca.

O músico, compositor e poeta João Pedro Liossi, que cursa Letras no Ibilce/Unesp e é admirador da poética leminskiana, comenta que o poeta curitibano tinha o anseio de atingir as massas, mas não de forma gratuita. "Sua poesia não é popular por ser fácil ou de baixa qualidade", enfatiza ele, que já estudou o discurso amoroso na obra de Leminski.

Aliás, o amor é um elemento importante para definir e entender a obra poética de Leminski. O poeta curitibano nutria um amor pela linguagem acima de qualquer coisa. "Em um de seus ensaios, Leminski escreveu que o poeta é aquele que deglute a palavra de forma erótica. Ele tinha um amor praticamente erótico pela poesia, pela linguagem. A poesia era o seu maior objeto de desejo. E isso fez com que ele nunca deixasse de querer se comunicar com as pessoas", diz Liossi.

Outro aspecto destacado por Katiuce é a relação que Leminski tinha com a contracultura do movimento hippie, no entanto, de uma forma menos americanizada e mais tropicalista. "E a sua base erudita era o que o diferenciava de outros nomes da época. Leminski se comunicava com o espírito libertário da época, mas com uma base intelectual bastante consistente. Ele era, antes de tudo, um leitor voraz", diz ela.

Poesia musical

Além de marcar a literatura, Leminski foi muito importante para a música popular brasileira, deixando um rico legado que rende frutos até os dias de hoje. Um de seus parceiros na música, o cantor e compositor paulistano Walter Franco, 73 anos, lançará duas composições feitas a partir de versos do poeta curitibano em seu próximo registro de estúdio, "LISTEN - ResiLIência e ResiSTÊNcia". O álbum é o primeiro projeto com canções inéditas que ele lança após um hiato de 18 anos.

Responsável pela produção do disco, Diogo Franco, filho do cantor e compositor, explica que as duas composições - "Frase Polida" e "It's only life" - já eram apresentadas pelo pai em seus shows, mas nunca tiveram uma gravação em estúdio. O novo álbum de Walter Franco tem lançamento previsto para o final deste ano. 

Ao longo de sua trajetória artística, Leminski fez parcerias com músicos como Caetano Veloso, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção e também com a banda A Cor do Som. "Essa relação com a poesia é mais um reflexo do anseio que Leminski tinha em ser popular. Era mais uma de suas estratégias para acessar as massas. E ele não era um exímio instrumentista. Dizia que tocava o básico no violão apenas para musicar suas poesias", comenta Liossi.

Também é bastante significativa a contribuição de Leminski como crítico literário e tradutor: entre os principais autores que traduziu estão James Joyce, Samuel Beckett, Yukio Mishima, Alfred Jarry, entre outros.

em mim

eu vejo

o outro

e outro

enfim dezenas

trens passando

vagões cheios de gente centenas

o outro

que há em mim e você

você

e você

assim como

eu estou em você

eu estou nele

em nós

e só quando

estamos em nós

estamos em paz

mesmo que estejamos a sós