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Uma senhora escola

Escola Estadual Monsenhor Gonçalves completa hoje 90 anos

Escola Estadual Monsenhor Gonçalves, em Rio Preto, chega a nove décadas de existência como um dos principais centros de ensino da cidade


    • São José do Rio Preto
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Em 90 anos cabe muita vida. Mas os 90 anos de uma escola guardam tantas histórias que nem as equações que as lousas já viram seriam capazes de contabilizar. Os muros do prédio do bairro Boa Vista, bem perto da Basílica, guardam amizades eternas, torneios esportivos, início da trajetória profissional, aprendizado acadêmico, romances adolescentes que subiram ao altar e, principalmente, o peso de ser um dos centros de ensino mais tradicionais de Rio Preto. É desse jeito que a Escola Estadual Monsenhor Gonçalves completa nesta sexta-feira, 16 de agosto, nove décadas de existência.

Fundada em 1929 pelo padre Joaquim Manuel Gonçalves, o Monsenhor Gonçalves, iniciou com o nome de Ginásio Diocesano de Rio Preto e passou por várias mudanças de nomenclatura ao longo dos anos. De início, oferecia o ginásio em regime de internato católico para meninos. Monsenhor Gonçalves tinha o desejo de popularizar o ensino e evitar que as crianças precisassem viajar para estudar.

Foram milhares de alunos, inclusive alguns nomes conhecidos, como o ex-senador Aloysio Nunes, o ex-prefeito Valdomiro Lopes, os médicos Domingos Braile e João Roberto Antônio, o apresentador Amaury Jr. e a dupla Zé Neto e Cristiano. Grandes professores que dão nome a outras escolas lecionaram lá, como Dinorath do Valle e Francisco Felipe Caputto, um dos idealizadores e o primeiro diretor da Monsenhor. As primeiras aulas do Ibilce, da Unesp, foram dadas em salas do prédio da Boa Vista.

Atualmente são cerca de 1,2 mil alunos de ensino médio e 800 do Centro de Línguas, onde estudantes da rede estadual podem aprender inglês, espanhol, francês e italiano. São 40 professores, 20 funcionários e 16 salas em cada período (de manhã e à tarde).

"Para a comunidade rio-pretense, o Monsenhor continua sendo o Instituto de Ensino. Esse legado a gente deve ao trabalho de muitos antecessores. Sou muito grata de ter assumido uma escola onde quem passou teve muito cuidado com a educação e com o nome", diz a atual diretora, Eugênia Aparecida Costa. "As pessoas se sentem cheias de alegria e bem-estar em falarem que estudaram no Monsenhor, nós temos alunos que os pais e os avós estudaram aqui. Temos uma equipe de professores muito dedicada, a gente tem o compromisso de continuar com essa visão da escola, zelar pelo nome", pontua.

Ben-Hur Ulisses da Silva, professor de geografia, é o mais antigo professor em atuação na Monsenhor, integrando o corpo docente desde 2000. Já foi coordenador e vice-diretor da unidade. "É uma escola que sempre teve grandes nomes. Além de ensinar, eu aprendi muito. É uma parte da minha história", diz.

Foi a fama da unidade que fez com que a mãe de Bianca da Silva Santos, 17 anos, aluna do segundo ano do ensino médio, quisesse que a filha fosse para a Monsenhor. "Ela falou que o ensino era mais rígido, ela queria que eu me esforçasse mais. E é isso mesmo, a gente aprende bastante", diz a futura estudante de medicina.

Amor de escola

A escola não deixou apenas boas memórias na vida da professora universitária Anete Maria Lucas Veltroni Schiavinatto, 59 anos. Ela conheceu o marido em um clube e os dois começaram a namorar em 1975. Anete era aluna do Monsenhor no período da manhã e Ronei Schiavinatto, hoje engenheiro civil de 62 anos, frequentava o instituto à tarde. "Eu tinha 15 anos, minha mãe não queria que eu namorasse ninguém. Ela me levava e buscava na escola. Quando ela virava a esquina eu ia para a Basílica e ficava namorando. Depois ele ia para a escola e eu ia para o portão", conta ela, que por sorte nunca teve que explicar as faltas às aulas. Foram dez anos de namoro até o casamento e duas filhas, Carolina e Camila.

Doutora em direito e irmã de quatro outros doutores, que também foram alunos da Monsenhor, orgulha-se em dizer que é filha da escola pública. "Era muita qualidade, exigência. Hoje eu tenho mestrado e doutorado, tudo fruto da escola pública."

As mudanças de nome

  • 1929 - Fundação do Ginásio Diocesano de Rio Preto, em regime de internato católico para meninos
  • 1932 - Mudança de nome para Ginásio São Joaquim em homenagem ao padre Joaquim Manuel Gonçalves, mentor do educandário. Passa a aceitar alunos em esquema de externato
  • 1939 - A escola passa a ser estadual, sob o nome de Ginásio do Estado de São José do Rio Preto
  • 1943 - Criação e instalação do Colégio Estadual de Rio Preto
  • 1950 - Início do funcionamento do Curso Normal
  • 1954 - Passa a funcionar sob o nome de Instituto de Educação Estadual Monsenhor Gonçalves (IEEMG)
  • 1976 - Recebe o nome de Escola Estadual de Segundo Grau Monsenhor Gonçalves (EESGMS)
  • 1998 - Chega à denominação atual, Escola Estadual Monsenhor Gonçalves

Fonte: Ben-Hur Ulisses da Silva, professor de História e Geografia e docente da escola desde 2000

Depois de uma reunião neste ano, um grupo de alunos que frequentou a Escola Estadual Monsenhor Gonçalves entre 1967 e 1977 decidiu reformar a sala de leitura "Dionysia Cardoso Siqueira", que dava aula de trabalhos manuais (artes) e economia doméstica e é mãe de Cesar Cardoso Siqueira, 59 anos, professor de educação física que estudou na Monsenhor. O projeto de revitalização já foi desenvolvido e está sendo analisado pela Secretaria de Estado de Educação.

Gislaine Buzzini Fernandes, enfermeira e professora universitária de 59 anos, conta que desde a formatura, na década de 1970, um grupo de dez pessoas sempre se reunia no final do ano. Em 2018, surgiu a ideia de montar um grupo de WhatsApp com os alunos das quatro antigas turmas - foram encontradas cerca de 150 pessoas. Recordando o passado, eles resolveram se encontrar em abril e daí surgiu a ideia de reformar a sala de leitura. O grupo já arrecadou livros e materiais. Segundo Gislaine, a ideia não é só festejar, mas melhorar a escola que foi importante para a formação dela e dos amigos. "A escola foi a base de todo esse grupo, de tudo, de formação moral, de conhecimento", considera.

Hoje vivendo em Campinas, Cesar perdeu a mãe muito cedo, quando estava na sétima série, em 1972. Dionysia faleceu em um acidente de carro quando participava de uma capacitação com quatro outros colegas docentes, que também morreram. "Para mim é uma honra muito grande homenagear a minha mãe, foi maravilhoso retornar à escola, ver o nome da minha mãe", diz. (MG)