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Bom exemplo

Ensino de Libras gera inclusão no trabalho

Secretaria ajudou 139 deficientes a encontrarem um emprego desde 2017


    • São José do Rio Preto
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A inclusão acontece quando "se aprende com as diferenças e não com as igualdades", assim já dizia o educador e filósofo brasileiro Paulo Freire. Como um movimento abrangente para considerar as diferenças individuais, direitos e deveres, a inclusão é a forma mais sutil de resgatar autoestima, trazer independência, provocar sorrisos e mudar vidas, como a da auxiliar de produção Cláudia Regina, 41 anos.

Portadora de deficiência auditiva, Cláudia integra uma equipe de 22 pessoas com deficiência em uma empresa de alimentos de Rio Preto. Para a integração ser melhor, funcionários sem deficiência passaram por aulas da Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Há um ano e dois meses na indústria, Cláudia fez amigos, arrumou um namorado e conseguiu o que mais almejava na vida - ser incluída na sociedade. "Eu trabalho, ganho meu dinheiro, fiz bastantes amigos, estou feliz", conta ela, em Libras.

Marleide Pereira dos Santos, 40 anos, mãe de dois filhos, não sabia o que era ser igual até entrar para a indústria. Ao lado de Cláudia, ela trabalha na esteira de empacotamento de condimentos atenta a qualquer movimento. Considerada uma das funcionárias mais rápidas, ela se descobriu livre e capaz de realizar sonhos até então limitados pela crença de ser incapacitante. "Estou feliz trabalhando aqui", afirma em sinais. "Nunca fui para a escola. Abri conta no banco e estou aprendendo a contar", completa.

A tradução para a reportagem foi feita pela intérprete e líder da produção, Cleonice Martins. "A Marleide chegou com sinais caseiros. Era uma pessoa nervosa e, hoje, onde a gente a coloca, ela desenvolve as funções muito bem", afirmou Cleonice.

Histórias de oportunidades, superações e inclusão que também fazem parte da vida de outra auxiliar de produção, Neide dos Santos Garcia, 42 anos. Com perda moderada da visão periférica, ela só enxerga em linha reta. "Quando cheguei memorizei o ambiente. Eles me acolheram, aceitaram minha dificuldade e me ajudaram", contou.

Para que tudo fosse possível, colegas e chefes foram orientados para conhecer e se tornarem mensageiros da inclusão. "Todo mundo se preparou, todo mundo acolheu", conta a gerente de RH da Kodilar Alimentos, Camila Pedrini Marcos.

Sistema de cotas

Histórias como a de Cláudia e Marleide são resultado da Lei de cotas para PCDs - Lei 8.213 de 1991. Pela legislação, toda empresa com 100 funcionários ou mais deve reservar uma porcentagem das vagas para Pessoa Com Deficiência (PCD).

Em Rio Preto, o setor "Emprego Apoiado", da Secretaria dos Direitos para Mulheres, Pessoa com Deficiência, Raça e Etnia de Rio Preto, faz o trabalho de ponte - 139 PCDs foram contratadas de 2017 até 31 de maio deste ano.

A secretária Maureen Cury afirma que, apesar dos avanços, ainda há barreiras. "Ainda temos muito que avançar em termos da cultura organizacional para a aceitação dos candidatos com deficiência mais bem qualificados". A Secretaria também oferece qualificação profissional e o curso de Libras gratuito para qualquer pessoa.

Ao contrário das auxiliares de produção que só conheceram a inclusão depois de adultas, em Rio Preto, 33 alunos da turma do 4º ano da escola municipal Dr. Antônio Espada Filho, no Parque da Liberdade, estão aprendendo Libras com o colega Matheus, deficiente auditivo.

A professora de Atendimento Educacional Especializado, Márcia Hitomi Terashima, defende que é na escola que começamos a vencer as barreiras, "do preconceito e de aceitar as pessoas como elas são, inclusive com a sua língua", afirma.

Márcia defende o ensino da linguagem nas escolas como forma de preparar cidadãos. "Por muitas vezes eles [surdos] não conseguem ser atendidos em hospitais, bancos, comércios etc, pois não conseguem se comunicar". A professora também conta que o próprio deficiente aprende, "visto que a maioria nasce em família ouvinte e não tem acesso à língua de sinais."

"Todos sentem pertencentes. O Matheus está com uma autoestima muito mais elevada. E quando isso acontece a capacidade de aprendizado é muito maior", finaliza a coordenadora pedagógica Ana Maria Gomyde. (FP)