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No Dia dos Solteiros, conheça histórias de quem optou pelo voo solo

Encontrar um amor para a vida toda não está nos planos deles, que são solteiros por opção e mostram como encontraram nas viagens pelo mundo o caminho para serem felizes sozinhos


    • São José do Rio Preto
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Há data comemorativa para quase tudo, até para os solteiros. Sim, o Dia dos Solteiros é comemorado nesta quinta-feira, 15, e, para os que temem a solidão, a ocasião pode até causar arrepios. Mas para a turma dos solteiros (muitas vezes, convictos) as formas de celebrar são inúmeras e variadas.

O fato é que a população de solteiros já ultrapassa a de casados no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE). Em 2013, entre as pessoas acima de 15 anos, os solteiros representavam 49,2%, enquanto que os casados respondiam por 38,6%. Já um levantamento mais recente - com dados de 2017 - realizado pelo Instituto Ipsos, mostra que houve crescimento no primeiro grupo: 54% dos brasileiros se declararam solteiros.

A organizadora de festas Sylvia Bonutti, de 54 anos, está no Chile, se preparando para um passeio em Valle Nevado. Ser solteira sempre foi uma questão bem resolvida para ela, que garante: "a vantagem é que você é livre, até mesmo para escolher estar com alguém". Sylvia porém lamenta o fato de que, muito provavelmente, estará sozinha no futuro. "Mas sempre digo que não vou sacrificar meu presente em razão de um futuro que não sei se vai existir."

Ela pretende comemorar a data de hoje em Santiago, e no melhor estilo - em companhia dos quatro amigos brasileiros que viajam com ela, todos em voo solo: três divorciados e um solteiro. "Todo mundo está aqui para curtir a vida, sem compromisso com ninguém", destaca.

Sylvia, que mora com a mãe e a irmã, está solteira há dez anos e diz que já foi bastante cobrada em relação a estar com alguém, mas que hoje a sociedade está mudando. "A cobrança está menor ou eu estou mais distante disso, não presto atenção", declara.

Ela conta que seu relacionamento mais longo durou cerca de cinco anos, mas os problemas sociais e de convivência pesaram. "Os maiores desafios foram enfrentar a sociedade machista - não gosto de pessoas dependentes, e a própria convivência. Ter sempre que pensar no outro antes de fazer qualquer coisa soava mais como obrigação do que consideração", diz.

A organizadora de festas gosta de deixar claro que ser solteira é um estilo de vida, escolhido por ela, sem sacrifício e de forma consciente e leve. Seu tempo é dividido entre o trabalho, cuidados com a cachorra Florzinha, atividades com amigos e familiares, além de pelo menos duas viagens anuais. "Sinto-me feliz em ser dona de minhas escolhas. Se estou com vontade de ver um filme bom, tomar um café, não me limito a ter companhia para isso, apenas faço o que quero".

Para finalizar, ela acrescenta que a condição de ser solteira não é uma sentença, ou seja, ela pode rever seus conceitos, caso julgue apropriado. "Claro que se aparecer alguém que toque meu coração, não vou deixar passar, mas não procuro", afirma.

A professora Cíntia Prando, de 43 anos, de Catanduva, está solteira desde os 28, quando decidiu que esse seria o seu estilo de vida, devido ao seu espírito independente. Ela não gostava da ideia de ter sempre que dar satisfação ao namorado ou ter de fazer programas de que não gostava.

Para ela, a solteirice tem mais vantagens do que desvantagens - na verdade, ela só listou vantagens, pontuando apenas a pressão social como a parte negativa da escolha. "Eu fui pressionada a casar, ter filhos, principalmente pelas pessoas mais velhas da família. Minha avó, por exemplo, ficou 65 anos casada, então é uma outra visão da vida. Às vezes meus próprios alunos me indagam sobre isso, mas quando veem nas redes sociais as viagens que faço, falam que querem ser iguais a mim", brinca.

Cíntia viaja, literalmente, pelo mundo todo e acredita que se estivesse em algum relacionamento, isso a limitaria. Ela conhece quase toda a Europa, já morou nos Estados Unidos e na Inglaterra e se diverte planejando roteiros dos próximos destinos. "Eu passo muito tempo fazendo essas programações, estudando sobre o país que quero conhecer, e quando chega a viagem, curto muito", diz.

Para a professora, a decisão de ser solteira foi um processo natural, que - com o trocadilho da palavra - "casa" com a sua personalidade. Sua vida social é mais ativa durante a semana, quando costuma sair com o pessoal do trabalho. "Aos finais de semana eu geralmente fico em casa, porque a maioria das minhas amigas é casada e porque minha profissão exige muito de mim e gosto de ficar sozinha, curtindo a casa, meu espaço, minha cachorra, enfim, minhas coisas", diz.

Outra barreira identificada por Cíntia para engatar um relacionamento diz respeito à maneira como as relações acontecem atualmente. "Acho que os relacionamentos hoje são mais descartáveis. As pessoas se relacionam, até demais, mas é estranho. Acho bacana quando alguém me diz que se sente completa com outra pessoa, mas eu me sinto completa sendo sozinha", comenta.

"É solitude e não solidão, como muitos julgam". Essa é a autodescrição do estilo de vida escolhido pelo professor José Ricardo Zamariolli, de 37 anos, que deixou há algum tempo a casa onde morava com os pais, em Catanduva, para viver sozinho na praiana Caiobá, no litoral do Paraná.

Ele revela que está solteiro por opção, já que tem oportunidades de namorar. "Mas prefiro estar sozinho e julgo que seja uma escolha certa para mim". Essa escolha, ele ressalta, nunca foi dramática, tampouco o incomoda, já que a liberdade com que dirige sua vida, sem ter que "prestar contas" a alguém, é o que ele mais considera.

Assim como Sylvia, o professor também está viajando no exterior - ele está na Áustria, para onde foi sozinho. E é sozinho, na maioria das vezes, que ele se aventura pelo mundo - conhece mais de 20 países - e tem amigos em todo o canto. O professor conta que o que mais o desafia em um relacionamento é driblar a "coleira" que as pessoas querem colocar. "Nada nos pertence no Universo", garante.

Zamariolli acredita que a sociedade tem mudado e contribuído para que as pessoas fiquem mais independentes e também individualistas. "Mas os aplicativos de relacionamento facilitam muita coisa", completa.

Ele mesmo não dispensa um relacionamento casual, quando acontece, mas para as atividades de rotina, segue curtindo a sua própria companhia para ir à balada, à praia etc.

A psicóloga Cristiane Lorga explica que estar solteiro deve ser uma escolha consciente, baseada no autoconhecimento. Para isso, ela orienta que as pessoas passem por processos como os de terapia para que as decisões possam ser equilibradas e saudáveis. "A principal dica é se conhecer, conhecer sua vida a fundo, para poder fazer escolhas amadurecidas", diz.

Ela também pontua a questão da solidão versus solitude e lembra que essa última - uma espécie de licença poética para quem escolhe, por opção, curtir sua própria companhia - tem sido muito buscada. "É uma opção estar bem comigo mesma, me amar, me conhecer, saber dos meus limites e prazeres, gostos e desgostos", detalha a psicóloga.

Particularmente, a profissional diz que vê com bons olhos as mudanças pelas quais a sociedade tem passado, principalmente porque têm provocado a queda de rótulos que são imposições sociais. "Eu acho bárbaro, é importante ter liberdade para tomar suas próprias decisões", revela.

Em contrapartida, Cristiane alerta para um "sintoma" do crescimento da solteirice, que pode trazer desafios para os envolvidos na questão: a codependência. Isso acontece porque com a diminuição do número de filhos e o foco no aperfeiçoamento profissional, muitas pessoas acabam por permanecer na casa dos pais, um comportamento que, se não for bem trabalhado, pode revelar prejuízos, como a comodidade e falta de responsabilidade.

"São os famosos filhinhos de papai ou de mamãe. Essas pessoas aparecem muito no consultório, inclusive depois que se casaram, mas continuam dependentes dos pais ou transferindo essa responsabilidade para os respectivos parceiros, esperando que façam tudo por elas, permanecendo mimadas", finaliza.