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Rio Preto

Enquanto a cidade dorme, outros madrugadores já estão na labuta

Enquanto a cidade está dormindo, eles já estão acordados e muito ativos: alguns porque o trabalho deve começar cedo, outros porque optaram por um estilo de vida que consideram mais saudável


    • São José do Rio Preto
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Há quem diga que o dia só nasce após o canto do galo e o nascer do sol. Mas, em Rio Preto, muita gente já está de pé bem antes do despertar da alvorada. O padeiro Dyllan César Marques Rodovalho que o diga. Há dias em que ele desperta muito antes do amanhecer, às 3h30, afinal, seu trabalho é deixar tudo pronto e fresquinho para o café da manhã dos clientes.

Dyllan levanta, diariamente, às 5 da manhã. Aos sábados, dia de café colonial, às 3h30 ele já precisa estar acordado para conseguir deixar todo o serviço em ordem. "Faz quase seis anos que estou nessa rotina. Já me acostumei", conta o profissional.

Ele é responsável pela confecção de pães e salgados de uma padaria no bairro Boa Vista e assume que, com seu dia a dia, deveria dormir mais cedo, mas antes da meia noite ele não consegue pegar no sono. "O corpo sente um pouco, mas durmo ao chegar em casa", explica e ainda acrescenta: "Rio Preto está dormindo quando eu me levanto".

Já o motorista Leandro Justino Kitakawa acorda de segunda, quarta e sexta à meia-noite e meia. Às terças, quintas e sábados ele se levanta às 2h30. Para conseguir ficar de pé, acordando a essa hora, ele vai para a cama no máximo às 21h.

Leandro trabalha nas Centrais Estaduais de Abastecimento (Ceasa) separando frutas, verduras e legumes durante a madrugada para serem entregues até as 7h nos mercados, hortifrútis e feiras livres. "Este é meu ofício. A gente entrega em lanchonetes e restaurantes. Quando acaba a entrega, voltamos para o Ceasa e ficamos até as 11h, meio-dia", conta.

Para encarar a rotina inversa à da maioria das pessoas, ele faz alongamentos e exercícios, lê livros e toma seu café da manhã, ou melhor, da noite. Tudo isso entre 0h e 2h. "Trabalhar de madrugada tem os benefícios e as partes ruins. É preciso se adaptar, dormir mais cedo e ter que ficar sem balada ou barzinho, senão você não consegue trabalhar. Por outro lado, o serviço acaba mais cedo, então é tranquilo na parte da manhã ou tarde para ir ao médico, ao banco ou até mesmo fazer um happy hour ao meio-dia", afirma o rapaz, que ainda arruma tempo para praticar jiu-jítsu.

Madrugando na feira

Há pelo menos 20 anos, o rio-pretense Benedito Ribeiro não sabe o que é ficar na cama até tarde. O feirante acorda entre 4h30 e 5h de terça a sábado. No domingo, pula da cama ainda mais cedo, às 3h30. Após ajeitar sua perua, ele atravessa a cidade para trabalhar, montando sua barraca de pastel nas feiras livres da cidade.

Boa Vista, Ouro Verde, Anchieta, Maceno, Vila Aurora e Redentora são os locais onde ele fica, de acordo com o dia da semana, até o meio-dia. No entanto, muitas vezes a jornada de trabalho do comerciante chega a dez horas devido à preparação e desmontagem da barraca e dos equipamentos. "O segredo é conciliar o sono. Não me privo de dormir tarde, mas durante o dia tem que dormir mais para aguentar", conta o trabalhador, que sai de casa com os semáforos ainda desligados. "Acordar cedo me priva de muitas coisas, mas foi isso que me fez conquistar tudo que tenho", garante.

Para o neurocirurgião Eduardo Silva, o hábito de acordar cedo é saudável desde que a pessoa possa dormir em média entre sete e oito horas por noite e possa deitar até as 22h. "O importante a ser levado em conta é a qualidade do sono para manter a energia, o foco e a concentração durante o dia em suas atividades habituais", afirma o médico.

Eduardo ressalta que, durante a noite, sem a claridade da luz do sol e da iluminação artificial, o corpo produz a melatonina, hormônio responsável por induzir ao sono e por manter em harmonia o ciclo circadiano (período de 24 horas sobre o qual se baseia o ciclo biológico do corpo).

"A produção normal da melatonina propicia um sono regular e reparador. Nas situações em que a pessoa não tem um sono regular e fica com privação, tende a ficar durante o dia com fadiga, estressado, às vezes desorientado, com redução da produtividade e irritado", disse.

 

Aos sábados e domingos, o analista contábil Fábio Aparecido Alves Nunes e seu pai, o auxiliar de produção Domingo Carlos Nunes, pulam da cama entre 4h30 e 5h para pedalar. A dupla percorre de 50 a 100 quilômetros por final de semana e escolheu o horário para aproveitar o clima mais fresco e a ausência de sol. "A gente sente que o pedal rende mais e também dá mais ânimo acordar cedo e fazer o que tem que fazer. A empolgação é totalmente diferente", conta Fábio.

Para isso, eles revelam que o segredo é dormir pelo menos oito horas por dia para realizar a atividade física. Sendo assim, a regra no dia anterior é dormir cedo. "Eu e meu pai sempre fomos pessoas ativas e acordar cedo para treinar faz muito bem pra gente, além de manter a saúde em dia e contribuir com nossa autoestima", explica o analista, que confessa ter se transformado em outra pessoa desde que adquiriu o hábito. "É uma terapia que traz muito benefício."

De acordo com uma pesquisa realizada na Universidade de Roehampton, no Reino Unido, pessoas que acordam cedo são mais felizes e mais saudáveis do que aquelas que usam a manhã para dormir um pouco mais.

Mas, para quem não está acostumado, a adaptação pode ser um pouco difícil. Jaqueline Lopes Gouveia acorda, diariamente, às 5h30 para assumir seu turno no Hospital de Base às 6h30. A jornada de trabalho da enfermeira segue até as 20h, já que, depois de terminar o expediente no HB, assume outro turno no hospital Austa.

A rio-pretense faz essa rotina há cinco meses e confessa que foi difícil para se adaptar. "Eu adoro dormir, então preciso deitar bem cedo para estar disposta no dia seguinte", conta Jaqueline, que revelou que, mesmo dormindo cedo, sente o cansaço no final de semana. "Na quinta-feira já começo a ter dificuldade para acordar".

Mesmo assim, garante que se sente realizada e jamais trocaria sua profissão. "Sou muito feliz pelo que escolhi, pelo que faço todos os dias, mesmo com o cansaço físico e mental", explicou a profissional, que escolheu ser enfermeira quando ainda cursava o Ensino Médio.