Diário da Região

29/07/2019 - 09h38min

EM SÃO PAULO

Musical 'Zorro' traz a fragilidade do mascarado que luta por justiça

O Zorro vivido pelo ator Bruno Fagundes é disfarce para um rapaz frágil, carregado de dúvidas e cuja máscara liberta seus sentimentos mais valentes

Divulgação Bruno Fagundes e o elenco principal do musical que conta a trajetória de Zorro
Bruno Fagundes e o elenco principal do musical que conta a trajetória de Zorro

Em seu livro "Zorro: Começa a Lenda" (Bertrand Brasil), a escritora chilena Isabel Allende não esconde admiração pelo homem de espírito indomável, "um herói popular, romântico, cômico, atlético, em luta pela justiça, com traços de Robin Hood e, em parte, de Peter Pan e Che Guevara". O Zorro vivido pelo ator Bruno Fagundes, no entanto, é disfarce para um rapaz frágil, carregado de dúvidas e cuja máscara liberta seus sentimentos mais valentes. "Quero mostrar uma crise de identidade e expor sua vulnerabilidade", explica. "Com isso, penso em discutir o que é a masculinidade nesse século 21."

Intérprete de raro talento, Fagundes é o protagonista de "Zorro, Nasce uma Lenda", musical que estreia na sexta-feira, 2, no 033 Rooftop do Teatro Santander, espaço nada convencional, em que a encenação rodeia o público, acomodado em mesas e cadeiras. Inspirada em "Zorro, o Musical", que estreou em Londres em 2008 com canções do grupo Gipsy Kings e John Cameron, a montagem nacional une drama com efeitos especiais. "Nosso espetáculo mostra o rito de passagem de um garoto para a maturidade, quando assume a defesa de seu povo", comenta o diretor Ulysses Cruz.

De fato, a peça conta a história de Don Diego de La Vega, jovem membro da aristocracia californiana em meados do século 19, durante a era do domínio mexicano. Após longo período de estudos na Europa, Diego volta a Califórnia e assume a identidade secreta de Zorro, um herói idealista e mascarado que luta pela liberdade de seu povo.

Criado em 1919 pelo escritor norte-americano Johnston McCulley, o personagem possui uma das trajetórias mais contadas do universo pop, entre quadrinhos, filmes e produções teatrais. "É uma trama que continua atual por mostrar os desmandos do poder", observa o ator e apresentador Marcos Mion, que estreia em um musical no papel de Ramon, irmão ressentido de Diego - por ter sido sempre preterido pelo pai, ele desenvolve uma mágoa profunda, a ponto de mantê-lo secretamente preso para assumir o comando do povoado. "É um vilão, mas seus sentimentos são justificáveis", continua.

Uma das medidas de Ramon está em forçar o casamento com Luisa, moça apaixonada por Diego. A dramaticidade pelo fato de estar no centro de uma disputa fraterna torna o papel um desafio para a jovem Nicole Rosemberg, que foi um dos destaques do programa de TV "Cultura, o Musical". "Ela contesta o poder masculino, ainda que respeitando o limite da época", comenta Nicole, ressaltando uma das qualidades da história escrita por Isabel Allende, na qual o musical é inspirado. Mas, se o livro termina quando Diego decide se converter no justiceiro mascarado, a peça vai além, acompanhando sua luta contra Ramon.

"E esse rito de passagem é muito marcado pela minha personagem, a cigana Inez, que ajuda a criar o herói", comenta Leticia Spiller. "Gosto de Inez por ser mística e mítica e por acreditar na força feminina." Do grupo de 17 atores, Leticia era uma das poucas a ter familiaridade com a música flamenca, que dá o tom ao espetáculo. Afinal, ela é casada com o violonista uruguaio Pablo Vares, que tem intimidade com o ritmo e, por isso, faz parte da banda de nove músicos.

É o flamenco que dá o tom à peça, ambientada em dois espaços, um Tablado e uma Taberna Gitana, onde os espectadores poderão comprar vinho e as conhecidas tapas espanholas. "O foco está na história, que também é narrada pelas canções", explica Cruz, que moldou o espetáculo em 1h40 de duração, sem intervalo. Isso para manter o foco na narrativa. "Como o elenco estará cercado de espectadores, em nenhum momento ninguém poderá se desligar da história."

E a dramaticidade é o ponto forte do flamenco, cujos passos percussivos se completam com movimentos de mãos e quadris. "É um ritmo muito teatral", conta o diretor musical Carlos Bauzys que, aqui, mescla o tradicional com rock. "Modernizei as partituras do Gipsy Kings e as adaptei a guitarras elétricas."

A experiência poderá ser provada pelo público que, uma hora antes do início da peça, poderá ir ao camarim do elenco (formado ainda por Javier Rodriguez, André Odin, Talita Real, Luana Zenun, André Torquato, Maysa Mundim, Daniel Cabral, Mari Saraiva, Ygor Zago, Carol Isolani, Lucas Nunes, Demetrio Sanches e Jef de Lima), além de receber uma aula básica de flamenco. "Uma imersão para entrar no clima da história", explica a produtora e coreógrafa Bárbara Guerra, que vai montar Donna Summer, o Musical em 2020.

No cinema e na TV, uma trajetória muito movimentada

Criado em 1919 pelo escritor Johnston McCulley, Zorro rapidamente popularizou-se e, nos anos 1920, sua marca - o Z formado por três golpes de espada -, chegou ao cinema através de uma aventura sob medida para Douglas Fairbanks, o grande astro de ação da época. Depois disso, o cavaleiro mascarado e de capa, naquele cavalo branco, nunca mais deixou de assombrar os poderosos e os políticos cruéis. Nos pulps, nas HQs, nos filmes para cinema e televisão, ele foi sempre o paladino em defesa dos oprimidos, vingador dos indefesos.

McCulley situou suas aventuras na Califórnia sob o domínio mexicano, mas Hollywood com frequência o colocou na época em que a região era colônia da Coroa espanhola.

Alter-ego do aristocrata Don Diego de La Vega, Zorro tornou-se tanto personagem de westerns quanto de swashbuckler, o gênero capa e espada. O apelido, Zorro - raposa em espanhol -, deve-se ao fato de ser sempre mais espero (astuto) que seus inimigos. E, embora Fairbanks tenha sido o primeiro - com a chancela de Fred Niblo, um diretor de prestígio (fez o primeiro "Ben-Hur") -, Zorro viveu muitas vidas na tela. Em 1940, Rouben Mamoulián, o gênio armênio de Hollywood, fez o suntuoso "A Marca do Zorro", com Tyrone Power como o dândi Don Lope que virava o vingador, ás da esgrima, e Linda Darnell como a mocinha. O filme entrou para a história pelo visual apurado, pela trilha de Alfred Newman e pelo longuíssimo duelo do herói com o vilão Basil Rathbone.

Só para lembrar, o trio Mamoulián/Power/Darnell deu tão certo que, no ano seguinte, reuniu-se de novo para fazer "Sangue e Areia", ainda mais suntuoso (e dessa vez em cores). Nos anos e décadas seguintes, Zorro foi parar na América do Sul na versão de Duccio Tessari com Alain Delon, virou herói pornô (com Douglas Frey) e teve até um irmão gay na paródia de Peter Medak, ambos os papéis criados por George Hamilton.

Por falar em gay, depois de interpretar tantos para Pedro Almodóvar, Antonio Banderas foi ser macho no cinemão, empunhando a espada de Zorro em duas belas aventuras turbinadas pela presença sexy de Caterina Zeta-Jones. Na TV, houve o Zorro da Disney, Guy Williams, e até uma versão brasileira, na Band, com Jardel Filho.

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