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Chimamanda Adichie e a História pelo viés do humano

Encontro realizado pelo Sesc Rio Preto nesta quinta-feira, 25, coloca em discussão o romance 'Meio Sol Amarelo', da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie


    • São José do Rio Preto
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Considerada uma das mais expressivas escritoras anglófonas da geração do novo milênio, além de ser uma importante voz da mulher africana na literatura mundial, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, de 41 anos, constrói um sensível panorama da guerra civil da Nigéria no livro "Meio Sol Amarelo" (2003), que inspirou filme de mesmo nome em 2013, dirigido por Biyi Bandele.

As particularidades que fazem deste romance o mais icônico da obra de Chimamanda serão discutidas em bate-papo no Sesc Rio Preto nesta quinta-feira, 25, com a participação da escritora Joselia Aguiar - diretora da Biblioteca "Mário de Andrade", em São Paulo, e curadora de duas edições da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) - e da artista visual Tânia Seles - editora do site Las Pretas.

Para as convidadas do Sesc, o aspecto mais marcante de "Meio Sol Amarelo" é o de retratar os horrores da guerra civil nigeriana por meio das experiências das pessoas que foram impactadas por ela. "Ao explorar a experiência vivida por pessoas de diferentes classes, suas relações e conflitos, Chimamanda revela-se uma grande romancista, diferentemente de um grande historiador, que teria de se focar nos termos mais gerais dos acontecimentos. Ainda mais ao tratar da guerra civil da Nigéria, onde inúmeras etnias compõem um universo imenso de individualidades. Acredito que é isso que faz dela uma escritora bastante lida", comenta Joselia.

Segundo Tânia, "Meio Sol Amarelo" é o romance em que a escritora nigeriana trata mais da História da Nigéria, enquanto que em outras publicações ela se foca mais no lugar do indivíduo, principalmente das mulheres negras. "Nesse romance, ela destaca a trajetória de três personagens, que se constituem em três visões diferentes da guerra civil nigeriana. Também é uma excelente forma para entendermos como se deu o processo da colonização africana. Tribos de diferentes regiões foram reunidas no mesmo espaço geográfico, e isso gerou inúmeros conflitos."

A diretora da Biblioteca "Mário de Andrade" também chama a atenção para um aspecto que relaciona África e Brasil: "É da região da Nigéria que vieram os negros que ocuparam a Bahia no século XIX, de etnias como Iorubá. Trata-se de um tempo anterior ao da colonização inglesa em África."

As convidadas também destacam que iniciativas como essa do Sesc Rio Preto são importantes para fomentar o hábito da leitura na sociedade. "Encontros em torno de uma obra literária colaboram para despertar a curiosidade das pessoas, que passam a contar com mais elementos para embasar sua experiência de leitura", diz Joselia. 

"Munir as pessoas de informação torna o hábito da leitura ainda mais interessante. Nós, do site Las Pretas, fazemos isso em torno das mulheres negras escritoras. E isso também é importante para desmistificar uma narrativa única, com foco mais eurocêntrico", completa Tânia.

Serviço

  • Bate-papo sobre o livro 'Meio Sol Amarelo', de Chimamanda Ngozi Adichie. Quinta-feira, 25 de julho, às 19h30. Sesc Rio Preto (Av. Francisco das Chagas Oliveira, 1333). Gratuito

Sob o signo do colonialismo

Chimamanda Ngozi Adichie é uma dessas escritoras que se tornam essenciais para dar uma visão de seu país. De origem Igbo, uma das etnias existentes na África Ocidental, Adichie, em seus romances e contos, trata das complexas relações entre as etnias que vivem na Nigéria. Uma dessas narrativas, "Meio sol amarelo" (2008), trata da guerra de independência de Biafra, terra dos ibgos, do restante da Nigéria, depois de um massacre realizado pelos hauçás (etnia de maioria muçulmana do norte da Nigéria) e a reação destes a essa tentativa de independência, dado o fato de que Biafra continha as maiores reservas de petróleo do território nigeriano.

Contado a partir de três focos narrativos centrados nas personagens Olanna, Ugwu e Richard, o romance de Adichie põe em cena uma série de aspectos bastante interessantes: as relações entre o poder e as classes altas na tentativa de construir autoritariamente uma nação moderna e alinhada ao Ocidente, a corrupção existente entre empresários e militares e a resistência, muitas vezes tímida e idealista, dos setores intelectuais, centrados, sobretudo, na personagem Odenigbo, companheiro de Olanna, e professor universitário que, retirado do seu conforto em Nsukka, acaba por se tornar um verdadeiro revolucionário.

É importante destacar que Chimamanda não está interessada em narrar os horrores da guerra (embora o faça), mas de mostrar os conflitos inerentes ao humano, retirando quaisquer cargas de exotismo de seu romance. O destaque é o narrador-testemunha, Ugwu que, aos 13 anos torna-se serviçal de Odenigbo, que, no início da narrativa, impressiona-se com o fato de que na casa de seu patrão come-se carne todos os dias e, depois, torna-se uma personagem muito mais amadurecida e com capacidade de olhar as coisas a partir de uma perspectiva menos sectária e limitada.

Edward Said e Homi Bhabha afirmam que as imagens e conceituações que temos acerca do Oriente e da África são construções advindas da colonização, isto é, os povos que habitam esses lugares são caracterizados a partir das noções de exotismo, de ausência e da necessidade de aculturação aos ideais ocidentais. Nós, brasileiros, como povo colonizado que somos, deveríamos, talvez, estar imunizados dessa armadilha alienadora, porém, num país cujas classes dominantes lutam para construir uma imagem de homogeneidade e democracia racial, parece difícil não cair na ideia da história única. Pode ser que "Meio sol amarelo", de Chimamanda Adichie, seja um bom remédio para nos salvar desse mal.

André Gomes Ogùnkeyè, É doutor em Teoria da Literatura pela Unesp e pós-doutorando da UEPB em Campina Grande (PB)