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Anti-herói

Meio século de 'Macunaíma', obra-prima do cinema brasileiro

Há 50 anos o cinema brasileiro exibia, pela primeira vez, a adaptação da obra-prima de Mário de Andrade 'Macunaíma - o herói sem nenhum caráter', estrelado pelo ator Grande Otelo


    • São José do Rio Preto
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O ano de 1969 marcou o lançamento de uma das principais adaptações cinematográficas do cinema brasileiro. Foi a estreia do filme "Macunaíma - o herói sem nenhum caráter", que completa 50 anos, em 2019. O longa é baseado na obra homônima do escritor Mário de Andrade (1893 - 1945), publicada pela primeira vez em 1928.

O longa teve direção de Joaquim Pedro de Andrade (1932 - 1988), responsável por produzir títulos como "Garrincha, A Alegria do Povo"; "O Padre e a Moça" e "O Homem do Pau Brasil". No ano de 2015, a produção passou a figurar na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

A professora e pesquisadora Daniela Soares Portela, pós-doutora em Estudos Culturais pela Unicamp, esclarece que o filme não é uma reprodução 100% fiel ao livro. "Em termos de enredo, ele não é parecido, não se aproxima. Mas em termos de técnica de expressão, sim. Macunaíma é uma rapsódia - ele é feito com extratos culturais, como por exemplo da música, da pintura e de vários textos", explica a acadêmica, que também é autora do artigo "Antropofagia em Joaquim Pedro e Mário de Andrade", publicado no livro "Entre Palavras e Imagens: Literatura, Cinema e outras Artes" (2015), da editora Cultura Acadêmica.

Outro fator que destaca a diferença entre o livro e o filme é o fato de o segundo retratar um período histórico diferente. "Ele é contextualizado na época da Ditadura Militar e tem uma série de expressões culturais daquela época. O filme tem uma característica bem interessante que é jogar com o jogo de câmeras e cenas. Isso consegue propor a ideia de uma cultura fragmentada, pois o próprio Mário propõe que a cultura brasileira é uma colcha de retalhos. E o filme consegue essa construção do ponto de vista técnico", explica.

Estrelado pelo ator Grande Otelo (1915 - 1993), que assumiu o papel principal, o longa apresenta a figura de um anti-herói, preguiçoso, sem caráter e safado, e foi muito bem recebido pela crítica, por conseguir traduzir para o cinema sem perder a essência da obra original. "E o filme faz isso, mudando o enquadramento de cena. O enquadramento no filme do Joaquim de Andrade raramente é centralizado. Ele é sempre um enquadramento descentralizado, que é para criar essa sensação de recorte de desconforto", destaca Daniela.

A pesquisadora defende ainda que a dupla negação existente no título da obra pode nos levar a uma leitura ambígua. "Se ele não tem nenhum caráter, ele pode ter todos. O Mário de Andrade não via com uma perspectiva negativa o caráter do brasileiro, ao contrário, ele queria romper com a visão eurocêntrica de que o brasileiro era vagabundo, sem-vergonha. O que ele vai propor é que nós somos diferentes, temos um extrato cultural diferente e a gente deve aprender a valorizar essa diferença".

O filme é um dos longas que passaram a fazer parte do movimento conhecido como Cinema Novo, que se destacou por dar ênfase à igualdade social e ao intelectualismo. Neste aspecto ele se aproxima desse movimento devido à proposta política, por se afastar da cultura estrangeira e tentar criar um retrato da identidade brasileira.

Mesmo depois meio século após ser lançado nas telonas, 'Macunaíma - o herói sem nenhum caráter' ainda é considerado de grande relevância para a cultura nacional. "A gente não tem uma narratividade ainda daquilo que é ser brasileiro. É um ponto que não se pensa de dentro da cultura, a gente tem uma visão daquilo que pensam da gente. Intelectuais de fato preocupados em criar uma identidade brasileira, junto com o povo, a gente não tem. Então, isso é um movimento de emancipação, ideológico e também cultural", finaliza Daniela.

Mário de Andrade

O escritor brasileiro morreu em fevereiro de 1945. Ele foi a figura central do movimento de vanguarda de São Paulo e figura-chave do movimento modernista que culminou na Semana de Arte Moderna de 1922. O escritor foi um dos integrantes do "Grupo dos Cinco", que deu início ao modernismo no Brasil, formado também por Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Menotti Del Picchia. A descentralização da cultura é um dos objetivos do Modernismo e pode ser percebida na obra de Andrade. Suas obras mais conhecidas são o livro de poesias "Pauliceia Desvairada", que inspirou a Semana Moderna, e os romances "Amar, verbo intransitivo", de 1927, e "Macunaíma", de 1928. Seu livro mais conhecido, "Macunaíma", busca uma valorização da cultura nacional.

O herói vive às margens do mítico rio Uraricoera com sua mãe e seus irmãos, Maanape e Jiguê, numa tribo amazônica. Após a morte da mãe, os três irmãos partem em busca de aventuras. Macunaíma encontra Ci, Mãe do Mato, rainha das Icamiabas. Depois de dominá-la, com a ajuda dos irmãos, faz dela sua mulher, tonando-se assim imperador do Mato Virgem.

O herói tem um filho com Ci e este morre, ela morre também e é transformada em estrela. Antes de morrer, dá a Macunaíma um amuleto, a muiraquitã (pedra verde em forma de sáurio), que ele perde e que vai parar nas mãos do mascate peruano Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã, comedor de gente. Como o gigante mora em São Paulo, Macunaíma e seus irmãos vão para lá, na tentativa de recuperar a muiraquitã.

Depois de muitas aventuras por todo o Brasil na tentativa de reaver a sua pedra, o herói a resgata e regressa para a sua tribo. Ao fim da narrativa, após uma vingança, ele perde a pedra de novo, dessa vez sem chance de recuperação. Cansado de tudo, Macunaíma vai para o céu transformado na Constelação da Ursa Maior.

(Agência Brasil)

O ano de 2019 marca também o aniversário de 50 anos de outro filme baseado em uma obra clássica da literatura brasileira. Trata-se do longa "A Compadecida", único filme dirigido pelo publicitário George Jonas, inspirado em um dos textos mais famosos e admirados da literatura nordestina, "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna.

O longa representou o Brasil no Festival Internacional do Rio em 1969, onde ganhou um prêmio especial pelos Figurinos de Lina Bo Bardi e pela Direção de Arte de Francisco Brennand, ambos artistas plásticos.

O filme tinha em seu elenco Regina Duarte (Compadecida), Amando Bogus (João Grilo) e Antônio Fagundes (Chicó). A narrativa marcada pelo humor, poesia e a crítica social é uma das obras mais famosas do escritor paraibano.

Na história, João Grilo é um malandro sertanejo que tenta se dar bem às custas dos poderosos da cidade, que fingem ser respeitadores da moral e bons costumes e escondem seus pecados. Mas quando um bando de cangaceiros invade a cidadezinha de Taperoá, todos precisam acertar as contas com Deus e o Diabo.

Uma peça teatral em forma de auto em três atos, a obra foi escrita em 1955 e é um retrato do Nordeste brasileiro, mesclando elementos como a literatura de cordel, a comédia, traços de barroco católico brasileiro e, ainda, cultura popular e tradições religiosas.

Com humor e de maneira leve, a peça fala sobre o drama vivido pelo povo nordestino sempre com medo da fome, em luta constante contra a miséria e acuado pela seca. É nesse contexto que acontecem as aventuras de Chicó e João Grilo, os dois personagens centrais. Enquanto Chicó é covarde e mentiroso, João Grilo se aproveita da estupidez dos mais abastados e das pessoas do clero para levar a melhor.

No dia 24 de junho de 1969, o Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, publica nota sobre a proibição da estreia do filme. O periódico apresentava a seguinte informação: "Não mais irá estrear, como estava previsto, na segunda quinzena de julho próximo, no Recife, o filme intitulado "A Compadecida", baseado na peça de mesmo nome, de autoria do teatrólogo Ariano Suassuna.

A representação da peça foi proibida, em todo território nacional, por ato do Serviço de Censura Federal, sob acusação de anticlericalismo, o que é rebatido pelo autor, que irá ouvir o Conselho Federal de Cultura.

Manifestou Ariano Suassuna sua estranheza ante a decisão da Censura: observando que "padres, frades, bispos e outros religiosos se pronunciaram de modo favorável ao trabalho, desconhecendo assim os aspectos anticlericais apontados pelos censores".