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Saúde

Café pode reduzir lesões do fígado

Estudo foi feito em parceria entre Unesp, universidade italiana e Hospital de Amor


    • São José do Rio Preto
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Se você é daqueles que não abre mão de uma xícara de café, certamente tem outros motivos para continuar mantendo a bebida na sua rotina diária. Demonizado por uns e elogiado por outros, o café já esteve por muito tempo no banco dos réus, mas faz parte do rol de alimentos que conseguiram reverter o jogo. Pesquisadores do Laboratório de Carcinogênese Química e Experimental (LCQE), do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, sob o comando do professor Luís Fernando Barbisan, têm conduzido desde 2012 pesquisas que relacionam os efeitos do consumo de café ou cafeína na redução de fibrose hepática e de desenvolvimento de lesões hepáticas (pré-cancerígenas e cancerígenas). As pesquisas contam com apoio da Fapesp, Capes e Programa Erasmus.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que essas doenças atingem aproximadamente 4,3 milhões pessoas todo ano e causam, aproximadamente, 3 milhões de mortes. Estudos anteriores já haviam mostrado o café como protetor do coração, Alzheimer e depressão.

Dessa vez, os estudos realizados em Botucatu, em colaboração com o Hospital de Amor (Hospital do Câncer de Barretos) e Universidade de Cagliari, na Itália, demonstram que a associação de substâncias específicas do café (cafeína, trigonelina e ácido clorogênico) podem reduzir o desenvolvimento de fibrose e carcinogênese hepática (câncer no fígado) pela modulação de microRNAs. Os testes foram feitos em camundongos. No modelo animal, o café reduziu em 43% a quantidade de lesões precursoras no fígado.

Combinação de substâncias

Luís Fernando Barbisan explica que não é apenas a cafeína a grande responsável pelos efeitos benéficos do consumo do café sobre o trato intestinal e fígado, mas, sim, uma combinação das substâncias presentes na bebida como sugerido pela publicação do artigo de revisão "Drinking for protection? Epidemiological and experimental evidence on the beneficial effects of coffee or major coffee compounds against gastrointestinal and liver carcinogenesis", publicado este ano na revista Food Research International.

"Nossos resultados experimentais indicam que a combinação dos três compostos mais abundantes do café (cafeína, trigonelina e ácido clorogênico) demonstrou melhores resultados do que a cafeína isoladamente. Essa redução pode estar relacionada ao aumento na expressão dos microRNAs (miR) 144-3p e miR-15-5p no fígado dos animais, que podem atenuar a proliferação e induzir à apoptose (morte celular programada), reduzindo o desenvolvimento de lesões pré-cancerígenas nos camundongos", explica o pesquisador.

Os animais do experimento receberam doses diárias de cafeína, trigonelina e ácido clorogênico, isoladamente ou em combinações, equivalentes às concentrações encontradas em duas a três xícaras de café para o ser humano.

Ponderações

O doutorando Guilherme Romualdo, com auxílio do aluno de iniciação científica Gabriel Bacil Prata, é um dos que têm participado ativamente dos estudos sobre o café e fibrose/carcinogênese hepática. Ele ressalta que o café possui mais de 200 substâncias diferentes e que, por este mesmo motivo, é difícil saber exatamente quais delas são responsáveis pelos efeitos benéficos.

"Estamos estudando somente substâncias que permanecem abundantes mesmo após todos os procedimentos que envolvem o preparo da bebida, já que muitas substâncias ficam retidas no pó, ao filtrar, ou se degradam pela alta temperatura da água.

Agora, a doutoranda Ariane Rocha, atualmente na Università Degli Studi di Roma (Itália), tem analisado dados de expressão de microRNAs envolvidos nos efeitos das mesmas substâncias (cafeína trigonelina ácido clorogênico) sobre modelo de câncer de cólon em camundongos.