Muito além da queda do rendimentoÍcone de fechar Fechar

Fitness

Muito além da queda do rendimento

Excesso de treino pode causar danos ao fígado e ao coração


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

A prática da atividade esportiva em excesso, sem o período adequado de recuperação, o chamado overtraining, pode causar danos muito além da queda no rendimento dos atletas. Isso acontece porque lesões no tecido musculoesquelético causadas pelo exercício excessivo induziriam a liberação na corrente sanguínea de substâncias pró-inflamatórias (proteínas produzidas por células de defesa e conhecidas como citocinas), que desencadeariam os efeitos sistêmicos.

Overtraining é uma palavra que vem do inglês, "sobrecarga", que pode afetar negativamente o sistema nervoso e metabólico. "Em alguns casos, a prática pode causar falta de apetite, irritabilidade e até problemas para dormir", explica o ortopedista Pedro Baches Jorge.

Uma série de estudos conduzidos na Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, demonstrou que as consequências para o organismo vão muito além da queda no rendimento esportivo, com efeitos prejudiciais no tecido musculoesquelético, coração, fígado e sistema nervoso central.

Além disso, os resultados obtidos nos experimentos com camundongos contrariam a hipótese de que as citocinas pró-inflamatórias seriam o único fator responsável pela queda na performance, que, nos animais, se manteve prejudicada mesmo depois que o nível dessas substâncias no sangue se normalizou.

As pesquisas são coordenadas pelo professor Adelino Sanchez Ramos da Silva, da Escola de Educação Física e Esporte. Os resultados foram reunidos em um artigo publicado na revista Cytokine, que reúne também dados de estudos feitos por outros grupos de pesquisa.

"Essas informações devem servir de alerta para quem treina de forma excessiva. Os atletas de elite, muitas vezes, não têm opção devido à pressão de treinadores, patrocinadores e competições. Mas é fundamental que seja ao menos respeitado o tempo mínimo de recuperação", disse Silva à Agência Fapesp.

Diferentes protocolos de overtraining - corrida no plano, na subida e na descida - foram testados em camundongos com o objetivo de entender a ação das citocinas pró-inflamatórias induzidas pelo exercício físico excessivo em diferentes tecidos. A duração do treino foi de oito semanas - sendo as quatro primeiras uma fase de adaptação. Segundo o pesquisador, a inflamação observada no sistema nervoso central foi revertida após o descanso de duas semanas. O peso corporal e o apetite também foram normalizados.

 

  • Volume de treino adequado: Estabelecer uma rotina de volume de exercícios não é uma tarefa simples, principalmente para quem está começando. É preciso levar em consideração seus limites aos movimentos, repetições e tempo de prática. Fazer além do que o corpo pode suportar é prejudicial à saúde, podendo causar dores e descolamentos nos músculos. Além disso, o resultado acaba não sendo efetivo como o desejado;
  • Alimente-se corretamente: Parte fundamental da prática de atividades físicas e do desenvolvimento muscular, a dieta equilibrada regula os níveis hormonais e é fonte de energia para os exercícios. Portanto, é importante alimentar-se a cada duas ou três horas e antes dos treinos, não pulando nenhuma refeição. Além disso, é indispensável beber muita água durante o dia, principalmente antes e depois das atividades;
  • Repouso é a chave: O descanso também é essencial para evitar o overtraining. Para que os exercícios tenham resultados, o repouso é indispensável, por isso, é recomendado dormir em média sete horas por noite. Além disso, é bom que exista pelo menos um dia de folga entre os dias de atividades.

Fonte: Pedro Baches Junior, ortopedista

 

Todos os protocolos de overtraining provocaram prejuízo na via de sinalização da insulina no tecido musculoesquelético, ou seja, as células musculares ficaram com mais dificuldade de captar a glicose circulante no sangue. No entanto, os camundongos não apresentaram alteração negativa no teste de tolerância à glicose, que avalia se o açúcar está sendo metabolizado adequadamente pelo organismo.

"Suspeitamos que algum outro tecido estivesse atuando de forma compensatória para manter o equilíbrio. E as análises mostraram uma melhora na via de sinalização da insulina no fígado e um aumento no estoque de glicogênio hepático dos animais submetidos aos protocolos de overtraining na descida e na subida. Por outro lado, como adaptação negativa, observamos acúmulo de gordura e sinais de inflamação no tecido hepático", disse Adelino Sanchez Ramos da Silva.

Os resultados sugerem ainda que o coração também atua de modo a compensar o prejuízo na captação de glicose pelas células musculoesqueléticas, pois foi observado acúmulo de glicogênio no tecido cardíaco em resposta a todos os tipos de overtraining.

O grupo ainda não avaliou se após o descanso de duas semanas as alterações moleculares observadas no coração e no fígado são revertidas. "Estimamos que isso deve ocorrer, mas ainda precisamos avaliar", disse.

Para evitar o overtraining, médicos, nutricionistas e preparadores físicos orientam evitar exageros na hora de optar pelo treino ou na escolha da dieta. "Consulte sempre um profissional da saúde. Nossa finalidade é, além de tratar as lesões que venham a acontecer, prevenir a ocorrência delas, trazendo melhor saúde a todos", recomenda o ortopedista Gustavo Borgo.